A história de 'Erotica' da Madonna contada por quem ajudou a criar o disco
Sexo

A história de 'Erotica' da Madonna contada por quem ajudou a criar o disco

Para comemorar seus 25 anos, revisitamos o clássico provocador de Madonna conversando com colaboradores-chave do disco.
20 Outubro 2017, 8:00pm

Matéria originalmente publicada na i-D UK.

Há exatos 25 anos, Madonna lançou seu quinto álbum, Erotica . Um dia depois, ela lançou Sex, um livro com fotos altamente estilizadas de Madonna e colaboradores como Naomi Campbell e Vanilla Ice, retratando desde S&M e sexo gay a cunete. Foi uma das polêmicas mais definidoras da carreira de Madonna, e vendeu 150 mil cópias em 24 horas.

O disco também era bastante explícito. "If I take you from behind / push myself into your mind / when you least expect it / will you try to reject it?" Madonna canta na faixa título que apresenta Dita, seu alter ego dominatrix. Algumas canções depois, em Where Life Begins, ela lança um ultimato para qualquer parceiro sexual relutante em chupá-la: "It's not fair to be selfish or stingy — every girl should experience eating out."

O impacto coletivo de Erotica, do livro Sex e de Corpo em Evidência — um thriller erótico estrelando Madonna e Willem Dafoe que estreou em janeiro do ano seguinte — provocou uma baita reação negativa. Algumas pessoas, gente mais conservadora, sentiam que ela finalmente tinha ido longe demais. "As pessoas criticam Madonna porque ela te obriga a pensar fora da caixa. Ela não é uma pessoa convencional", diz Carlton Wilborn, que dançou com Madonna nas turnês mundiais de Blond Ambition e Girlie Show. "O jeito como ela aborda a vida, como ela aborda ser mulher, é um desafio para muita gente. Ela obriga as pessoas a olharem para sua compreensão das coisas de um jeito novo, e por padrão muita gente julga isso antes de se abrir para a ideia e perceber como isso pode ajudá-las a crescer." Para os padrões da maioria dos artistas, Erotica não foi um fracasso, mas é o álbum de menos sucesso da Madonna até hoje.

Mas entre os fãs, ele vem crescendo em importância nos últimos anos. Erotica não é um álbum perfeito, mas é fascinante e cheio de imagens e ideias provocadoras e inspiradoras. Esta semana, a drag queen Margo Marshall montou uma noite de tributo a Erotica em uma das melhores baladas queer de Londres, The Glory. "Eu tinha que fazer alguma coisa, essa era da Madonna é muito icônica", diz Margo, de 23 anos. "Eu tinha 15 anos quando vi o livro Sex e ouvi o disco, e achei incrível como ela estava mostrando tanto poder. Ela estava tomando a propriedade de sua sexualidade e dizendo: 'Vocês acham que aquilo era muito sexual — olha isso então!'"

Em 1992, a mensagem de Madonna acabou se perdendo: esse não é um disco sobre sexo. Deeper and Deeper celebra se assumir, Bye Bye Baby é uma música incrível sobre terminar uma relação, In This Life presta homenagem aos amigos e colaboradores de Madonna levados pela AIDS. "Todo mundo sabe como a AIDS afetou Madonna porque todo mundo sabe quanto a comunidade gay ajudou a moldá-la", lembra o escritor e comentarista cultural Paul Flynn. "Essa música é a coluna vertebral do disco. Ela dá um propósito ao álbum e vai além disso ser apenas o disco de sexo da Madonna ao lado de seu livro Sex. E o fato dela ter feito Erotica e o livro Sex naquela época é importante. Por causa da AIDS, o sexo estava nas manchetes — era notícia na vida das pessoas. Quando a AIDS aconteceu, as pessoas perderam o controle dessa coisa que deveria ser positiva e prazerosa."

Para comemorar os 25 anos do disco, a i-D falou com pessoas que ajudaram Madonna a fazê-lo: seus coprodutores Shep Pettibone e André Betts, o co-compositor Tony Shimki, e sua backing vocal de longa data Donna De Lory. Essa é a história de Erotica nas palavras deles.

"Erotica"

Tony Shimkin [co-compositor]: O Shep e eu trabalhávamos nas faixas e mandávamos para ela. Ela juntava suas ideias, depois todo mundo trabalhava na faixa juntos num estúdio de Nova York. A gente colocava os vocais, as melodias e desenvolvíamos ainda mais as faixas. A Madonna sempre tinha um caderno com ideias de letras e melodias que ela queria incorporar em sua música, então ela só precisava de uma inspiração para desencadear uma faixa. Nessa época em particular ela estava trabalhando no livro Sex, e acredito que ela sempre teve uma visão pra esse álbum. Ela é altamente criativa, determinada e sabia exatamente o que queria fazer. Acho que ela nunca vai para o estúdio por acaso, só para ver o que acontece.

Shep Pettibone [coprodutor]: O objetivo com essa faixa era a "crueza". Erotica era muito "musical" em certo ponto. Passamos por muitas adaptações até chegar na versão final do disco. O sample do The Kool and the Gang é que dá essa vibe sombria e misteriosa. Sendo DJ antes de tudo, eu ouvi a faixa deles Jungle Boogie na minha cabeça por cima da música. Fui procurar e achei o disco na minha biblioteca, rodei por cima da faixa que já tínhamos de Erotica e deu certo!

"Bye Bye Baby"

Shep Pettibone: Tinha muita experimentação rolando — a Madonna queria que sua voz não soasse natural, e o filtro era exatamente o que ela estava procurando.

Tony Shimkin: Ah, essa foi divertida! Tínhamos essa faixa bem crua e alugamos alguns equipamentos para brincar com ela. Não foi como se a Madonna tivesse terminado de gravar o vocal e depois dito "Vamos colocar esse filtro para parecer uma conversa de telefone". Colocamos o filtro no vocal enquanto ela estava gravando, então o efeito já estava na fita e não tinha mais volta. Tudo meio que começou daí — o efeito inspirou a performance da Madonna, porque ela ouvia sua voz enquanto estava gravando. Acho que essa música é o equivalente a terminar com alguém por mensagem de celular hoje!

"Deeper and Deeper"

Tony Shimkin: Acho que essa música é uma grande referência ao começo dela como artista. A sensação disco é ela voltando aos dias de Danceteria e Jellybean. As outras músicas do disco são mais sensuais e emocionais, mas essa é um verdadeiro hino de festa.

Donna De Lory [backing vocal]: Niki [Haris] e eu fomos para Nova York para trabalhar no disco da Madonna. A gente já tinha cantado com ela antes então era uma relação muito confortável. E meu Deus, essa música! Tudo que eu e a Niki queríamos fazer era cantar "SWEETER AND SWEETER AND SWEETER". E a Madonna só dizia "Mais alto!" E foi muito divertido!

Tony Shimkin: Quando você tem a Madonna entusiasmada com alguma coisa, a determinação dela, ela não é alguém para quem você consegue dizer não! Você meio que tem que entrar de cabeça, então acho que o Shep abraçou a ideia. Ele disse "Se vamos fazer, vamos com tudo". Aí as castanholas entraram no jogo.

"Where Life Begins"

André Betts: Essa foi a primeira música que Madonna e eu escrevemos [para o disco]. Acho que você sabe sobre o que ela é, né? Ela explica logo no começo, quando diz "Dining out can happen down below". Não fiquei surpreso por ela ser tão explícita — não vou mentir, fiquei até feliz. Olhei pra música e pensei "Ela é a Madonna, ela pode dizer o que quiser". E eu saquei o conceito do álbum desde o começo. Uma vez ela me trouxe um monte de Playboys antigas para procurar ideias. E eu pensei "Cara, ela é louca, mas amei."

"Bad Girl"

Tony Shimkin: Nesse disco, tanto "Bad Girl" quanto "In This Life" são músicas muito emocionais para Madonna. Mas só fui perceber como "Bad Girl" era emocional para ela quando terminamos de gravar. Assistindo os clipes dela, você tem um sentido ainda mais profundo do que ela colocou na música. E essa é uma dessas músicas, tipo "Oh Father" ou "Papa Don't Preach", onde ela realmente fala de suas emoções e experiências. Ela nunca teve medo de se expôr emocionalmente.

"Waiting"

André Betts: Para essa faixa, na verdade sampleei coisas de "Justify My Love". Eu também tinha trabalhado naquela faixa então tinha as gravações originais. A parte "waiting" na verdade é um vocal da Madonna em "Justify My Love". Foi fácil fazer a Madonna comprar a ideia: quando você toca algo para ela com os vocais dela já na música, ela vai responder. Sabe, a gente se divertiu muito. Não era um ambiente de trabalho rígido, nem um pouco. Nunca vou esquecer, ela estava usando um casaco de pele comprido e sentou no chão para escrever alguma coisa quando um rato passou correndo! Ela só olhou pra mim e disse "O que foi, Dré? Não me diga que você tem medo de rato. Sou de Detroit, cara, posso lidar com um rato."

"Rain"

Shep Pattibone: Pensei na música uma noite antes dela vir [para o estúdio]. Era domingo, estava chovendo — há! — e ela escreveu a letra, cantou, fez as hamonias e tudo mais. "Rain" saiu muito rápido. Ela também cantou o começo de "This Used To Be My Playground" no mesmo dia.

"Why's It So Hard"

Donna De Lory: Gostei muito de gravar essa música porque é uma mensagem muito universal. É tudo sobre paz e amor.

Tony Shimkin: Durante uma pausa na gravação, todo mundo saiu de férias. Fui para as Ilhas Cayman e o Shep foi pra Jamaica, então ouvimos muito reggae. Quando voltamos, estávamos inspirados por isso, e montamos a faixa para "Why's It So Hard". Um dia depois da Madonna sair do estúdio, comecei a brincar com algumas das ideias de vocais de fundo, sem esperar que ela fosse realmente ouvir. Mas no dia seguinte ela veio sem eu notar e disse "O que é isso?" Toquei para ela e ela disse "Gostei, vamos gravar". Não sou cantor, mas esses vocais etéreos são algo que consigo fazer, e eles acabaram no disco. Foi uma música muito divertida de se trabalhar porque é muito diferente do resto do álbum, mas ao mesmo tempo se encaixa.

"In This Life"

Shep Pettibone: Na verdade foi ideia minha gravar uma música para o amigo dela, o Martin [Burgoyne, bartender do Studio 54 que morreu de AIDS]. Eu tinha pensado em alguns acordes antes dela chegar naquele dia, e quando entrou, ela disse: "Isso é lindo, mas não sei se pode se encaixar no disco". Mas ela logo pensou na letra, em 15 minutos, e essa se tornou "In This Life".

Donna De Lory: Eu também tinha perdido um grande amigo para a AIDS. Acho que hoje em dia as pessoas não têm realmente noção do que estava acontecendo naquela época. E tinha tanta coisa de que a gente não falava. Mas lá estava ela, falando sobre isso. É uma canção muito triste e bonita. A gravação, sabe, foi um tanto sombria. Ela não precisava explicar sobre o que era a música; a gente sabia.

"Did You Do It?"

André Betts: Um dia, Madonna saiu para jantar com os caras do livro Sex. Eu e ela tínhamos um jeito meio de brincadeira de falar, então algum cara do estúdio perguntou para a Madonna e eu se a gente tinha feito, sabe, sexo. E eu fiz um freestyle: Gravei um cara dizendo "Did you do it?" e depois dizendo "You know I did it". Mesmo não tendo feito! Quando ela voltou do jantar com os caras de terno, ela disse "Quero que eles ouçam 'Waiting'". Mas em vez disso toquei 'Did You Do It?". Mais como piada, porque ela começa de um jeito parecido com "Waiting". Quando ela ouviu o que eu tinha feito, ela riu até chorar. Uns dias depois, ela me ligou e disse que queria a música no disco. E eu disse "Não, não, não, Madonna. Não sou rapper, fiz a coisa espontaneamente". Ela colocou o empresário dela no telefone e ele explicou que eu ganharia uma porção bem generosa dos lucros. Então eu disse "OK, coloque a música no disco!" E por causa de "Did You Do It?" o disco ganhou o adesivo de conteúdo explícito. Quem mais faria uma coisa assim?

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