Guia Noisey para curtir um Napalm Death

Os vanguardistas do som extremo se reinventaram inúmeras vezes ao longo das últimas três décadas, do grind ao death metal e de volta ao grind.

por David Anthony; Traduzido por Mariana Miyamoto
28 Agosto 2018, 10:00am

Foto por Martyn Goodacre / Getty Images

Quando uma banda é incluída no Guinness Book of World Records, é fácil enxergá-la como uma banda inovadora. Títulos desse tipo geralmente são dados a artistas que tentam coisas absurdas como tocar com baquetas gigantes ou que aumentam os volumes dos amplificadores no talo para ser a banda alta do mundo, mas para a Napalm Death, sua honra veio de forma orgânica. Embora já sejam os detentores do recorde da música mais curta já gravada com “You Suffer”, a banda ainda tem muito mais do que esse som de 1,316 segundo indica. Ao longo dos seus 16 álbuns e 14 EPs, o Napalm Death provou que é uma banda ambiciosa, mesmo que, superficialmente, isso seja algo antiético em relação ao próprio ethos da banda.

Como uma das bandas fundadoras do grindcore, o Napalm Death foi classificada como a banda mais pesada do mundo antes mesmo de definirem sua formação exata. O famoso e único baterista Mick Harris tocou nos lados A e B no álbum de estreia da banda, Scum, em 1987 e nenhum outro dos membros fundadores chegou a fazer o lado B. Mas, como resultado dessas constantes mudanças, não havia uma única voz conduzindo a banda. Por nunca terem conquistado um status quo, eles garantiram a si mesmos uma certa liberdade — nunca tiveram nada a preservar.

Olhando de fora, é fácil ver todo o repertório da Napalm Death e dizer com desprezo que todas suas músicas soam iguais, mas isso não só é redutivo, é evidentemente falso. Depois de definir o grindcore em seus dois primeiros álbuns, a introdução do vocalista Mark “Barney” Greenway e dos guitarristas Mitch Harris e Jesse Pintado, assim como o baixista Shane Emburry, fez com que o Napalm Death fugisse do seu som clássico assim que ele finalmente passasse a existir. No começo dos anos 90, eles se mudaram para o mundo do death metal, adicionando solos de guitarra, uns riffs mais técnicos e um vocal levemente mais discernível, cortesia de Greenway.

Semelhantemente, na metade da década, a banda lançou quatro álbuns consecutivos que alienaram ainda mais seus fãs. Começando com Fear de 1994, Emptiness, Despair e terminando em 1998 com Words from the Exit Wound, esses álbuns já não continham a velocidade que era assinatura da banda, e em seu lugar, um som mais grooveado entrou em cena. Esses álbuns são geralmente classificados como um tipo de precursor do nu-metal, mas olhando por uma perspectiva mais atual, eles demonstraram a habilidade da banda de se adaptar, pegando o que está rolando na atual grande cena do metal e encontrando um jeito de fazer isso funcionar de alguma maneira pra eles.

Apesar de terem uma mão cheia de álbuns recentes que são certamente glorificados como clássicos, o Napalm Death provou ter um dos mais fortes segundos atos do metal. Após o retorno ao seu som clássico no anos 2000, a banda lançou alguns de seus melhores materiais na última década. Com um foco maior em melodia, atmosfera e muita coisa experimental, o Napalm Death se recusou a entrar na onda, expandindo seu som numa época em que a maioria das bandas focava em tocar os hits.

Então como um novo ouvinte percorre por uma discografia densa de uma banda que ainda usa “You Suffer” como um punchline? É abraçando todo o universo da banda, desde o segundo som mais longo até as músicas mais melancólicas — e toda a política à esquerda no meio. Sabendo disso, não importa a época, sempre tem algo que vale a pena encontrar.

Pioneiros do grindcore

Assim como muitos outros álbuns que serviram de base para um gênero inteiro, Scum é mais importante do que agradável. Embora muitas bandas estivessem aumentando sua popularidade nos anos 80, como o Siege, Extreme Noise Terror, Discharge, ou G.I.S.M., nenhuma delas alcançou o Napalm Death. Isso devido em grande parte ao DJ da BBC John Peel que defendeu a banda desde o começo, ajudando o Scum a chegar em sétimo lugar nas paradas indie no Reino Unido, e permitindo que o segundo álbum da banda, From Enslavement to Obliteration, chegasse ao topo apenas um ano depois.

Embora Scum tenha algumas faixas de destaque, no fundo são dois diferentes grupos de crianças tentando empurrar os limites do punk e do metal ao seus pontos finais lógicos. No lado A, sons como “Scum” e “Siege of Power” mostram versões rudimentares de coisas que se tornariam características da banda, como o baixo grosseiramente distorcido e a batida adjacente frenética e D-beat, que 30 anos depois ainda soa potente. E, é claro, tem as empolgantes músicas curtas como “You Suffer” e “The Kill”, que, mesmo tão curtas, parecem completas.

O lado B faz proezas semelhantes, com músicas como “Life?”, “Success?” e “M.A.D.” com a banda utilizando uma pegada mais dual-vocal com Harris contrabalanceando os vocais guturais de Lee Dorrian com alguns gritos estridentes de fundo. Esse estilo vai-e-vem dos vocais deu super certo em From Enslavement to Obliteration, já que o novo disco não só soava melhor — você realmente conseguia ouvir cada um dos instrumentos nesse álbum — mas também a banda ficou mais deliberadamente agressiva. Ouvindo músicas como "It's a MANS World", "Lucid Fairytale" e "Practice What You Preach”, um Napalm Death mais afiado vem à tona, um que ainda permitia Harris jogar tudo em um redemoinho caótico, mas ele estava se tornando capaz de recuar um pouco e deixar a banda embalar um groove de vez em quando.

Playlist: “The Kill” / “Scum” / “You Suffer” / “Siege of Power” / “Its A MANS World” / “Lucid Fairytale” / “Practice What You Preach” / “Inconceivable” / “Worlds Apart” / “Mentally Murdered” / “Musclehead”

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Death Metal

Embora a produção de Dorrian com o Napalm Death tenha sido escassa, é considerada por muitos fãs como o auge da produção da banda. Enquanto Greenway muitas vezes é considerado o catalisador da mudança da banda para o death metal, as raízes desse som já estavam presentes em From Enslavement to Obliteration. “Unchallenged Hate” e “Display to Me” já tem uma pegada com mais riffs de death metal e grooves de bateria, mas foi o EP Mentally Murdered de 1989 que cimentou a fascinação da banda com esse novo sabor do metal extremo. Com músicas como "Rise Above" e "Cause and Effect", Dorrian cantava em seus tons mais baixos e a banda entrava no embalo, enquanto Harris mandava uma pegada mais lenta de baixo e os riffs evidenciavam a habilidade técnica da banda.

Mentally Murdered foi o último disco de Dorrian com a Napalm Death, e quando Greenway entrou, tudo permitiu que a banda largasse o grindcore sem pensar duas vezes. Harmony Corruption de 1990 foi um choque para os fãs, já que a banda foi de um álbum com 27 faixas em apenas meia hora, para dez sons em quase 40 minutos. Tem uma boa dose de peso em Harmony Corruption, já que alguns dos melhores sons parecem bem inchados, mas “Suffer The Children” e “Extremity Retained” mostram a banda se estabelecendo nessa nova pegada. Utopia Banished de 1992 levou vantagem sobre o Harmony Corruption em quase todos os aspectos. O disco se encaixava melhor na banda, e Harris cedeu o trono da batera a Denny Herrera. Ainda que Harris fosse fundamental em estabelecer o som da banda, assim como o própria estética do grindcore, seu apelido de “Human Tornado” sempre caiu como uma luva, e em Harmony Corruption, sua propensão a nunca se adaptar a uma batida fez o álbum ser caótico de uma maneira desagradável e bagunçada.

Em Utopia Banished, o Napalm Death mostrou o quão poderosos eles poderiam ser nessa nova cena, já que sons como “I Abstain” e “Dementia Access” mostraram que essa pegada death metal era algo que eles realmente sabiam fazer. Mas foram sons como “Judicial Slime” e o corretamente entitulado “Idiosyncratic” que deixaram claro o interesse do Napalm Death em ir além das barreiras do metal extremo. Claramente, a banda cansou de ser rotulada e procurou novas maneiras de agredir seu público.

Playlist: “Unchallenged Hate” / “Display to Me” / “Rise Above” / “Walls of Confinement” / “Cause and Effect” / “Suffer The Children” / “Extremity Retained” / “I Abstain” / “Dementia Access” / “Idiosyncratic” / “Judicial Slime”

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Nu-Napalm

O meio dos anos 90 foi um período estranho para o metal. O death metal bombou, invadindo o mainstream e rapidamente se tornando um estilo que, com exceção de um punhado de bandas, ficava cada vez mais mecânico. Simultaneamente rolou o nascimento do groove metal, um gênero que, junto com Rage Against The Machine, serviria de base para o nu-metal. Foi uma época extremamente criativa e selvagemente confusa, com bandas antigas brincando com novas ideias e muitas vezes fazendo merda no processo. O material que o Napalm Death produziu no meio dos anos 90 é geralmente rotulado como uma grande merda insuportável, mas isso é um pouco exagerado. Fear, Emptiness, Despair de 1994 é o mais fraco dos quatro álbuns dessa época da banda, e embora todos eles soem um pouco ultrapassados, não são tão ruins quanto parecem.

Talvez a abominável arte da capa seja a culpada, mas o disco Diatribes de 1996 mostra que o Napalm Death estava mantendo seu peso enquanto se tornava um pouco mais gostoso. “Greed Killing” teve tudo que era necessário para um som alcançar o sucesso mainstream — bom, exceto os vocais de Greenway — e criativamente, eles romperam barreiras. “Ripe for the Breaking” e “Dogma” tem os clássicos movimentos do Napalm Death e se contorcem até se sentirem renovados, e no Inside the Torn Apart de 1997 e Words from the Exit Woundde 1998, o Napalm Death soava ainda melhor. Sons como “Breed to Breath,” “Reflect on Conflict” e “The Infiltrator” pegam pesado ainda hoje, soando de um jeito que bandas como Code Orange passaram alguns anos explorando depois.

Playlist: “Twist the Knife (Slowly)” / “More Than Meets the Eye” / “Greed Killing” / “Ripe For the Breaking” / “My Own Worst Enemy” / “Dogma” / “Breed to Breathe” / “Reflect on Conflict” / “Drown in the Zero” / “Prelude” / “The Infiltrator” / “Cleanse Impure” / “Clutching at Barbs”

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De volta ao grind

Embora a opinião popular sugira que após seus quatro álbuns de pura experimentação o Napalm Death retornou às suas raízes, mas isso não é cem por cento verdade. Apesar de Enemy of the Music Business de 2000, Order of the Leech de 2002 e The Code is Red… Long Live the Code, terem sido um retorno a um som mais agressivo, o grindcore evoluiu no tempo em que a Napalm Death esteve fora da cena. Não só isso, a banda também teve mudanças na formação pela primeira vez em uma década. Enemy of the Music Business foi o último álbum com Pintado tocando guitarra e o primeiro da banda fora da Earache Records. É um álbum de puro veneno cuspido na direção da gravadora e embora os sons sejam legais, poucos são marcantes. O mesmo pode ser dito sobre Order of the Leech, que vem com Mitch Harris tocando todas as partes de guitarra depois da saída de Pintado e tentando entender como fazer isso dar certo, enquanto The Code Is Red é o momento em que eles começam a voltar para seu groove.

Após essa sequência de três álbuns de decente-porém-esquecível material, Napalm Death voltou cheia de energia, lançando uma série de álbuns que batem de frente com seu trabalho anterior. Smear Campaing de 2006 mostrou que Napalm Death era capaz de fazer um grind ao lado de bandas com metade de sua idade, mas também mostrou que eles teriam chance de novo. “When All Is Said and Done” é sua versão de um rock honesto que incorpora todos os tipos de elementos que os levaram de volta aos anos 90, mas com um estilo de produção que se encaixava melhor neles. Similarmente, músicas como “Sink Fast, Let Go” e “In Defence” mostram que a banda ainda é capaz de dar socos no estômago, tendo aprendido a escrever sons que vão em milhares de direções diferentes mas nunca saem do controle.

Time Waits for no Slave de 2009 é o mais árduo de todo o material da banda desse período, mas também o mais consistente. Nele, Napalm Death manda uma peça magistral de grindcore moderno, escrevendo sons que, se tratando de composição, são completamente alienígenas com relação ao seu começo. Começando com “Strong-Arm,” o disco mostra a banda no auge, compondo músicas verdadeiramente caóticas que, mesmo quando dão uma segurada, ainda são completamente destrutivas. Não há uma faixa ruim no álbum, fazendo com que seja não apenas um de seus álbuns mais coesos, mas possivelmente o melhor deles. Utilitarian de 2012 e Apex Predator, Easy Meat não são diferentes, já que a banda mantém seus pés firmes na cena do grind, porém agora mais confiantes em se arriscar fora dela, gravando álbuns mais versáteis do que nunca sem precisar se preocupar em serem chamados de vendidos nunca mais.

Playlist: “Thanks for Nothing” / “Out of Sight, Out of Mind” / “Silence is Deafening” / “Sink Fast, Let Go” / “When All Is Said and Done” / “In Deference” / “Strong-Arm” / “Work to Rule” / “On the Brink of Extinction” / “Errors in the Signals” / “Analysis Paralysis” / “Will By Mouth” / “Smash a Single Digit” / “How the Years Condemn”

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Art-rock

Apesar do fato de a banda ser propensa a mudar seu estilo, eles ainda tem vários sons que claramente não se encaixam em nenhuma das categorias anteriores. Sejam eles sons dos anos 90 que parecem únicos, ou “Everyday Pox”, sua colaboração com o fã de longa data John Zorn, tem muita coisa fora da caixa. Esse é um lado da Napalm Death que raramente é falado e quase nunca recebe os créditos que merecem. Sons como “Smear Campaing” e “Atheist Runt” são peças influenciadas por Swans que mostram a habilidade de diminuir o ritmo e se prolongar, enquanto sons como “Time Waits For No Slave,” com seu estranho e cantado refrão, mostram sua habilidade de ainda se jogar em um limbo. São essas faixas que tornam a Napalm Death tão envolvente e, até agora, inigualável. Eles estão dispostos a sair do padrão e se arriscar por esses novos movimentos, de uma maneira que poucas bandas estão dispostas a fazer.

Playlist: “Contemptuous” / “Indispose” / “Just Rewards” / “Lifeless Alarm” / “Morale” / “Smear Campaign” / “Atheist Runt” / “Time Waits for No Slave” / “Everyday Pox” / “Fall on their Swords” / “Apex Predator - Easy Meat” / “Dear Slum Landlord…” / “Caste as Waste”

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Matéria originalmente publicada no Noisey US.

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