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Por que a sua "opinião" sobre cabelos crespos é racismo?

Sob o pretexto de dizer "apenas o que pensa" ou fazer "só uma piada" sobre pessoas que têm cabelos crespos, muita gente acaba metendo o pé na lama do racismo.

por Amauri Eugênio Jr.
08 Março 2018, 3:47pm

Foto: Agência Brasil. 

Imagine ouvir pais, parentes, colegas de classe e até mesmo professores dizendo que o seu cabelo é “ruim”. Tente pensar em como a sua vida seria se algum colega de classe metido a zoeirinho dissesse que o seu cabelo é perfeito para colocar em pontas de antenas de TVs e que tem 1001 utilidades, pois é igual a palha de aço. Pior: quem consegue conceber que pessoas percam oportunidades de emprego porque os cabelos delas são “inadequados” para as atividades que deverão exercer?

Como é de se esperar, sempre aparecerá alguém para dizer se trata de vitimismo – e seguramente alguém dirá isso sobre esta reportagem. Mas a real é que quem reduz reclamações de quem tem cabelo crespo a um mero mimimi e que se sente oprimido porque não pode opinar ou fazer “brincadeiras” a respeito está sendo racista. Sim, sem meias palavras, está cometendo r-a-c-i-s-m-o. Para usar um exemplo recente, se você riu ou justificou o preconceito ao falar da jovem Yasmim Stevam, 22, quando ela disse em rede nacional que teve dificuldade para encontrar emprego por causa do cabelo crespo, você foi babaca pra caralho. Ah, sim: ela está bem e, provavelmente, bem melhor do que você.

Para começo de conversa, vitimismo negro não existe, assim como os de demais minorias. Além disso, a sua “piada” retroalimenta a exclusão de mulheres negras na sociedade. Basta dizer que, em média, elas têm salários 59% menores em comparação com homens brancos. De quebra, é cruel pensar que elas têm negadas a identidade e a chance de serem elas mesmas desde a infância.

“A gente invisibilidade de pessoas negras em várias instâncias sociais e a gente tem resistência por parte desses mesmos lugares, a padrões e questões que remetam à estética negra. A gente tem predominância de estética branca, em que se privilegia traços como cabelo liso e claro, olhos e peles claras. Sempre que houver pessoas fora desse padrão, isso se reverte em discurso de incômodo, que vem do racismo estruturante, mas as pessoas que o fazem não se veem como pessoas racistas e acham que colocam como ‘opinião’”, explica Jacqueline Moraes Teixeira, docente da FESPSP (Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo) e Pesquisadora do Laboratório do Núcleo de Antropologia Urbana, da USP (Universidade de São Paulo).

A raiz da questão

É possível dizer que a formação sociocultural brasileira foi pautada no embranquecimento da população, passando pela questão capilar, inclusive – coincidência ou não, há diversos produtos e técnicas para alisar cabelos crespos. De quebra, quem adotasse características eurocêntricas para se dar bem na questão da “passabilidade”, como ter traços faciais finos e cabelo liso, mais tinha chances de ser aceito em esferas sociais dominadas por pessoas brancas. Ou seja: a identidade negra era – e ainda é para uns e outros – uma treta das grandes.

“[O foco era] inviabilizar traços afros, ao tentar fazer isso por meio de tecnologias e produtos químicos, como alisar o cabelo, para a pessoa ser reconhecida como morena. Na esfera pública da construção da nação brasileira, não havia espaço para a estética negra”, reforça Jacqueline, sobre o fato da maioria das pessoas que dá mancadas do gênero dificilmente ter consciência de que isso tudo é racismo.

Qual é o efeito disso tudo? Mulheres negras, em especial, têm a autoestima abalada. “A questão do racismo trabalha com uma série de questões da pessoa, o que é incorporado e internalizado por ela, e resulta em complexo de inferioridade muito grande. Por exemplo, ela crê que espaços públicos não são legítimos para ela e que se deve ocupar espaços privados – profissões domésticas, por exemplo –, sem nenhuma visibilidade. Há sempre uma linguagem que mantém a ideia de que o espaço público não é adequado para ela”, reforça a docente.

Apesar desse rolê bizarro, há luz no fim do túnel racista. Faz alguns anos que elas têm quebrado a barreira do racismo e, mesmo aos poucos, estão passando a assumir suas origens, inclusive por meio do cabelo crespo (SPOILER: vai ter cabelo crespo, sim, amigo). Mas você achou que isso tudo é modismo? Achou errado, otário! “A venda de produtos voltados para cabelos crespos é o código para a valorização. O cabelo é meu, mantenho e faço o que e como quiser, e isso é um movimento de resistência que está crescendo. Pensar em linhas de cosméticos para isso é algo fundamental [para o empoderamento de mulheres negras] e grandes empresas perceberam que é um nicho importante. No entanto, deve-se estar muito atento também para o modo como o mercado absorverá isso e entender como o movimento político lidará com isso”, completa Jacqueline Moraes Teixeira.

“A transição acaba por ser de dentro pra fora”

A community manager Ellen Rodrigues, 26, começou a fazer relaxamento capilar por volta dos 12 anos. Mesmo sendo alérgica ao procedimento a ponto de ter ficado com o couro cabeludo sensível por diversas vezes, a insatisfação com o resultado era sempre notória, mas foi o modo encontrado por ela para se sentir integrada à realidade que vivia. “Sempre estudei em escola particular e lembro de umas duas crianças próximas que eram parecidas. Apesar da minha mãe sempre demonstrar cuidado com meu cabelo, incentivando penteados, aos 9, 10 anos, eu já o odiava e queria alisar, mas ela não deixava”, descreve a jovem.

Foto: Arquivo pessoal

A coragem de mudar veio em 2014, quando passou a se informar ao máximo sobre o processo de transição capilar. Oito meses após o último alisamento ela fez o big chop, ou seja, cortou a parte alisada do cabelo. “Foi a minha melhor decisão. Hoje amo meu cabelo. Claro que há dias que é mais difícil, porque de fato dá trabalho, mas é aquele trabalho que no fundo é vaidade de manter sempre bonito e bem cuidado. Muito me alegra ver que muitas meninas também amam seus cabelos. Ando na rua e vejo todas elas orgulhosas. Às vezes fico até emocionada”, relata.

E, sim, Ellen crê que assumir os cabelos crespos é um ato político. “Eu diria que é uma decisão única e um momento incrível da relação de você consigo mesma, que a transição acaba por ser de dentro pra fora. Conhecer histórias, resistência e exemplos de outras mulheres fortes e cheias de personalidade com seus cabelos me ajudou muito a aceitar o meu. É maravilhoso se sentir bem com algo tão nosso e tão representativo”, ressalta.

“O cabelo é minha coroa”

A cantora e relações públicas Larissa Alves, 35, cresceu vendo pessoas mais velhas ao seu redor alisando o cabelo crespo e, desse modo, recebendo referências de que não era normal. Além disso, ela passou a conviver com pessoas “poderosas” – leia-se brancas – quando entrou no mercado de trabalho e, assim, passou a sentir inadequação por causa de seu cabelo. Resultado: ela passou a alisá-lo e o fez por dez anos, por mais que o processo fosse muito doloroso.

Contudo, a vontade de mudar começou a falar mais alto. “Sempre tive consciência negra muito forte e o feminismo foi o ponto de virada. Eu queria o meu cabelo [natural] de volta e, por isso, cortei e chorei muito, pois o cabelo é muito representativo e nunca tive cabelo curto”, descreve, ao comparar o episódio à cena em que Camila (Carolina Dieckmann) raspou a cabeça na novela “Laços de Família” – está liberado ler esse trecho com “Love by Grace”, de Lara Fabian, rolando ao fundo.

Crédito: Helen Salomão

Apesar de a vontade de mudar ter falado mais alto, Larissa passou por alguns perrengues emocionais, em especial causados por familiares e amigos que não sacaram quão significativo esse lance era para ela. “O que mais doeu foi ouvir que ‘cabelo duro está na moda, né?’ É um processo do caralho, para passar por anos de construção mental até parar de alisar e mais dois ou três anos se acostumando com o cabelo natural”, desabafa. Mas, apesar de lidar com gente escrota, a autoaceitação falou mais alto.

Se antes a história era sobre alisar o cabelo para se sentir adequada em meio a gente preconceituosa, hoje o lance capilar passou a ser sinônimo de poder e valorização as raízes. “O cabelo é a minha coroa. Hoje tenho orgulho do cabelo que tenho e é uma maneira de mostrar de onde estou vindo.”

Desconstruir para reconstruir

A consultora de moda Vanessa Aquino, 26, passou por altos perrengues para lidar com o fato de ter cabelo crespo. Para começar, sua mãe costumava cortá-lo curto – se você pensou em tretas por estar fora do padrão estético feminino, infelizmente acertou. “Resumidamente, minha infância foi sonhando em ser a garota branca de cabelo liso.”

Foto: Arquivo pessoal

Como se não bastasse isso, Vanessa tinha de recorrer às sobras de produtos para alisamento usados pela irmã e passar na franja – “o sonho de toda crespa/cacheada é ter franja”, relata a jovem, que também molhava e prendia o cabelo. Mas isso começou a causar problemas. Após pedir para irmã cortá-lo e ela tê-lo deixado em estilo chanel, a jovem passou a fazer chapinha em um salão do bairro onde morava. O efeito colateral foi ficar quebradiço até cair em menos de um ano, e isso a fez cortá-lo.

“Quando cortei, no auge do ensino médio, quis morrer e não estou sendo metafórica. Era muito difícil sair, encarar a todos no colégio e procurar emprego. Tudo melhorou quando arrumei um namorado. É muito triste dizer, mas sentir que era capaz de ser atraente me fez dar início ao meu processo de aceitação”, conta Vanessa.

O processo para a construção da autoestima foi extremamente doloroso, mas o cabelo de Vanessa é, hoje, fruto de quem ela se tornou. Além disso, a representatividade, seja por meio da mídia ou do desenvolvimento de produtos específicos para cabelos crespos, foram importantes para ela “renascer a cada dia”. “Saber que já servi e sirvo de para pessoas como minha irmã, que atualmente está em transição, ou para minha sobrinha de apenas 5 anos, ao dizer que o meu cabelo é igual ao dela e é lindo, me faz ter coragem de me olhar no espelho e armá-los ainda mais e amá-los ainda mais.”

I did it my way

A jovem Giovanna Assis, 22, que é formada em TI e hoje é babysitter nos EUA, tem cabelo crespo e se sente bem com cabelo liso. “Tenho o livre arbítrio de escolha e não vejo como se estivesse ‘negando as minhas origens’. Uma das formas de vivermos numa sociedade livre é nos livramos de julgamentos internos e do medo de termos isso dos outros”, pondera, ao falar sobre a preferência capilar e preconceito.

A jovem começou a fazer relaxamento ainda na infância. Como se pode imaginar, muita gente dava um show de babaquice ao vê-la, o que deixou marcas inegáveis. “Quando eu tinha uns 12 anos, o cabelo estava enorme e, naturalmente, chamava atenção. Além do mais, eu era nerd e tirava uma das melhores notas da turma, e isso incomodava alguns colegas. Em dia ouvi que eu parecia o [personagem] Bob Esponja e aquilo acho que marcou muito a maneira como eu comecei a lidar com o meu cabelo. Fiz a primeira vez e nunca mais parei de fazer.”

Foto: Arquivo pessoal

Para quem pensa que se trata de uma negação às origens, não é o caso – a jovem tem orgulho dos ancestrais, mas cada pessoa passa por uma construção específica, o que passa pelo cabelo. Tanto que, para Giovanna, o cabelo liso é uma imposição social dentro de um contexto predominantemente branco e, claro, tudo o que foge desse padrão deve ser descartado. “Já ouvi uma história de uma amiga que trabalhou em multinacional que durante um treinamento de dress code, as moças de cabelo afro foram orientadas a manterem o cabelo ‘domado’ e preso ao irem encontrar com cliente. Tenho certeza de que se eu preferisse meu cabelo crespo ao liso, eu estaria muito mais ‘vulnerável’ a fechar oportunidades profissionais por causa disso.”

Empoderada e livre

A professora Tatiane Oliveira, 30, passou por tretas com o cabelo desde que se entenda por gente e, não por acaso, a sua relação com ele foi traumática. Para se ter uma ideia, ela começou a escová-los no início da adolescência, mas o efeito artificial do procedimento a induziu a alisá-lo aos 13 anos de idade – e ela o fez por 14 anos. Mesmo passando por uma porrada de problemas como queda, queimaduras causadas pelos produtos e alergias a componentes, a vontade de se encaixar em um padrão socialmente aceito a fez suportar isso tudo.

Foto: Arquivo pessoal

A profissão e a postura em sala de aula a fizeram repensar muitas coisas. “O meu discurso durante as aulas não condizia com a minha imagem. Passei a questioná-lo e aí veio a dor de reconhecer que sem imagem não há identidade. Com a estética negra tão negada, as minhas alunas negras nunca acreditariam no meu discurso emancipador e resistente enquanto estivesse dentro de padrão que silenciava minhas características negras”, conta Tatiana.

“Após um longo processo de transição, a minha relação com o meu cabelo é de amor, liberdade, autoaceitação e resistência. Não consigo mais me reconhecer com o cabelo alisado, pois agora vejo como ele foge totalmente das minhas características. O aprofundamento das discussões sobre o racismo perpassa a questão estética, sobretudo o cabelo crespo, ver o crescimento desse movimento empoderador, me fazem acreditar que estamos em um caminho sem volta de construção da imagem preta, empoderada e livre”, finaliza, sobre o empoderamento e a construção da autoestima de mulheres negras.

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