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Como o decreto de Bolsonaro pode estragar sua cerveja

A adição de corantes e outros produtos está longe de ser um problema apocalíptico, mas a sua saúde pode ser sim prejudicada pela lei que já entrou em vigor.

por Paulo Marcondes
16 Julho 2019, 2:39pm

Foto: Unsplash

Recentemente, um decreto do governo Bolsonaro alarmou os cervejeiros (povo brasileiro), já que muitas das restrições pra produção da bebida alcoólica preferência nacional foram suspensas. Liberado tá o uso vários corantes e também a adição de produtos de origem animal, por exemplo. Ao menos nas redes, pessoal ficou em choque. A cerveja virará corote? A vossa ressaca será prejudicada com a flexibilização das fórmulas? Como ficam as pequenas cervejarias? Temos que ir por partes, por isso conversamos com Patrick Dias, mestre cervejeiro e químico responsável por uma microcervejaria em Minas Gerais, que nos explica o que de fato pode acontecer.

O decreto é uma grande faca de dois gumes. Ele possui pontos positivos para quem curte saborear uma cerveja diferente e também para quem produz essas bebidas, mas também pode acarretar uma concorrência desleal, já que as grandes produtoras devem baratear ainda mais o custo de seus produtos. O lado bom da lei, diz Patrick, tem relação com a criatividade que agora pode ser empregada pelas pequenas cervejarias, que poderão abusar de outros sabores e da adição de produtos de origem animal, como mel e leite, já que antes, bebidas com esses produtos não eram consideradas cervejas. "Existiam muitas classificações defasadas. Não existia a classificação de hidromel, cidra, de muitos destilados e que meio que foram condicionadas lá. Isso é legal, porque você pode aumentar o número de produtos que faz. Esse ponto aumenta a criatividade das microcervejarias. O ponto problemático do decreto é que ficou muito aberto: não diz quais corantes podem ser usados ou a quantidade”, diz.

Patrick considera que, em geral, quem produz cerveja artesanal ficou contente – e ressabiado. "Os donos de cervejarias, em princípio, comemoraram uma flexibilidade na lei que era muito restritiva pro pequeno fabricante por algumas questões, principalmente na hora de registrar produtos. Existia uma classificação antiga de cerveja leve, forte, extra, que estava um pouco defasada. Não é todo mundo que viu com bons olhos, tem muita gente com a pulga atrás da orelha, porque tem a desconfiança com o governo, acha que não tem sentido de uma hora pra outra o governo mudar isso aparentemente pro pequeno produtor. Está tendo muita conversa e análise. Dá pra ver que o texto foi feito para cativar o pequeno produtor, mas às vezes pode beneficiar mais as grandes."

Um dos benefícios que Patrick fala para as grandes indústrias tem a ver com ingredientes. Imagine que uma das marcas populares de cerveja vá vender a bebida dizendo que ali tem laranja. Para isso, pega um extrato sintético que é usado na produção de balas, pinga duas gotinhas lá dentro e pronto, coloca no rótulo que é cerveja com laranja. O pequeno produtor quando quer usar alguma fruta tem todo um processo de colheita, desidratação e tratamento da casca. Na prática, o custo de produção e o valor de venda serão bem mais baixos para a grande cervejaria. “Acho que faz parte do processo do pequeno produtor conscientizar o público. É uma briga de Davi contra Golias, mas não pode deixar de ter esse compromisso, de informar. No mercado americano rolou muito isso. Os microcervejeiros bateram de frente a ponto dos grandes produtores dizerem: é verdade, nossa cerveja tem muito milho”, analisa o químico, que acredita que também cabe ao governo a responsabilidade de informar e fiscalizar.

Apesar de ser cedo para cravar que com a flexibilização as cervejas vão virar um bolo de aniversário mal feito com uma explosão de corantes e outras adições que prejudicarão ainda mais a qualidade das marcas populares, é bom ter um pé atrás sim. "É muito difícil responder o que muda para o consumidor. Na prática, pode ser que não mude nada. As grandes cervejarias podem continuar fazendo o que elas fazem e as pequenas também. Cada uma vai trabalhar seu marketing", conta Patrick.

Aumentar indefinidamente o uso de corantes e outros aditivos pode zoar grandão o seu organismo sim. Mas tem um ponto nessa questão de bem-estar mais preocupante que o que vem com o decreto e já está aí há um tempo: os agrotóxicos. Como a cerveja é um produto que tem como origem o agronegócio, a bebida preferida dos brasileiros também está exposta aos riscos do uso desenfreado desses micropoluentes. “Em questão sensorial [aroma e sabor], a pessoa não vai sentir que tem agrotóxico na cerveja, mas o consumo frequente do produto que possuí pesticidas vai fazer com que a taxa de admissão desses agrotóxicos no organismo seja alta. Muitos deles não são eliminados facilmente. A pessoa vai sofrer consequências ao longo da vida, principalmente de efeitos mais crônicos, como o câncer, a desregulação hormonal, a teratogênese e vários outros danos”, explica Patrick.

Se antes a ressaca daquela cerva que é popularmente conhecida como uma alternativa ao laxante já era ruim, imagina agora, você deve ter pensado, né? “Boa notícia”: isso não deve mudar muito. O processo de ressaca provavelmente não sofrerá nenhuma alteração significativa com o decreto do governo chefiado pelo nosso campeão de flexão com o pescoço. "Isso é um problema que vai existir com ou sem o decreto. O processo de fermentação é muito complexo e complicado de se monitorar. Vários tipos de subprodutos são gerados com ele, como aldeídos, cetonas, álcoois superiores e um pouco de metanol, alguns compostos que estão na via metabólica de formação de álcool e que podem estar ali presentes se a pessoa não souber conduzir corretamente a fermentação", conta Dias. "As cervejarias artesanais tentam ter esse cuidado de controlar a fermentação, respeitando o tempo ideal. É uma filosofia dos pequenos produtores. As grandes tentam contornar esses subprodutos na escala de produção, mas via de regra, a adição de corantes ou qualquer outro produto não mudaria muito o que é hoje..

Outra questão envolve a quantidade dos mal vistos cereais não maltados que vão em boa parte das cervejas que encontramos nos bares mais baratos de nossas cidades. Neste ponto, a lei continua a mesma: a quantidade não poderá exceder 45%, já que isso continua na Instrução Normativa 54/2001. "Acho que acabamos demonizando muito isso. É meio que um consenso na comunidade cervejeira que o problema não é ter uma grande quantidade de cereais não maltados como arroz ou milho. Se você parar pra pensar, o trigo, usado em pequenas cervejarias, não é maltado. A princípio, eles não são um vilão. A questão é o propósito. Posso fazer uma cerveja com aveia, centeio ou outro cereal não maltado se eu quiser um aroma ou um sabor característico desse cereal, mas as grandes acabam fazendo isso para baratear a produção. É muito mais fácil ela pegar xarope de milho, colocar lá com um pouco de extrato de malte e transformar isso em cerveja, um fermentado a base de açúcar de cereais. A questão é que a fonte de açúcar utilizada é de qualidade muito baixa", revela Patrick.

Ainda é muito cedo para podermos afirmar com 100% de certeza que a cerveja daquele bar de litrão barato abarrotado de universitários ficará muito pior por causa do novo decreto. Só que você sabe como funciona o jogo: se tem como baratear para conseguir mais lucro, o olho gordo do mercado brilha. Resta aos meros mortais e beberrões, ficar ligeiro, já que é na boca e no corpo que vem os efeitos dessas mudanças. Você também tem a opção de viver pensando que o livre-mercado e as promessas de grandes cervejarias são completamente confiáveis, mas até aí, azar o teu, colega.