Blac Chyna, a Vênus do nosso tempo
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Blac Chyna, a Vênus do nosso tempo

A trajetória de uma mulher em busca da singularidade.
11 Julho 2017, 6:57pm

Esta matéria foi originalmente publicada na i-D .

Lembra da Vênus de Willendorf? Você aprende isso nas aulas de história do colégio — uma pequena estatueta de uma mulher desenterrada na Áustria nos anos 20, conhecida tanto por sua idade (30 mil anos) como por seu corpo. Seus seios são grandes, como sua barriga. Suas pernas são curtas. Ela não tem braços ou rosto.

O propósito da Vênus ainda é algo que os estudiosos gostam de debater. Alguns suspeitam que ela era um totem para ser enfiado no chão, outros, uma ferramenta ritual. Os mais lascivos a chamaram de ferramenta de masturbação. Mas todos concordam sobre o que a Vênus deveria ser — e um dia com certeza foi — linda. Naquele momento, naquela época, ela tinha o corpo perfeito.

Se a Vênus de Willendord aponta a forma ideal de 25.000 A.C., onde encontramos a Vênus de hoje? Tente atrás dos muros de um condomínio fechado em Calabasas, lar de Blac Chyna: a Vênus de Los Angeles.

Hoje, conhecemos Blac Chyna como mãe, uma celebridade das redes sociais que promove kits de branqueamento dental no Instagram e é manchete de tabloides dia sim, dia não. Seu nome ganhou novamente as manchetes depois que seu ex-noivo Robert Kardashian expôs fotos nuas de Chyna em seu Instagram e Twitter. Em entrevista à ABC News na última segunda (10), ela falou pela primeira vez sobre o caso: "Estou devastada, ele [Rob] era uma pessoa em quem eu confiava." Agora, Blac Chyna pediu uma ordem de restrição contra Rob Kardashian.

No nascimento, ela era Angela White, uma garota de Washington D.C. que começou a fazer strip sob o codinome Cream aos 18 anos — mesma época em que começou a melhorar seu corpo. Em 2006 (ou por volta disso) ela aumentou os seios, depois o bumbum (esse último procedimento era ilegal, então Chyna se recusa a detalhá-lo). Ela diz que foi a comunidade trans de D.C. que a viciou em cirurgias: "Através da minha proximidade com elas, tive a ideia", disse a Andrew Richardson numa rara entrevista. "Você tem que ser legal com as trans queens; elas não dão suas dicas para qualquer garota." Claro, Chyna não era qualquer garota.

"Eu não estava fazendo algo do nada", explicou Chyna sobre o procedimento, era só que ela queria mais; "Eu queria algo extra notável".

Aos 20, Chyna estava morando em Miami e dançando no King of Diamonds, o maior clube de strip-tease de todos. Ela deixou sua identidade como Cream de lado e adotou o pseudônimo Blac Chyna, nos dizendo sua origem étnica mista, o que garantiu a ela mais atenção dos homens no clube. Basicamente, ela mudou a si mesma até que tudo estivesse grande o suficiente para preencher a forma de uma estrela.

Ela rapidamente se tornou a rainha do King of Diamonds. Na entrevista a Richardson, ela fala: "Foi fácil para mim, acho, porque eu me destacava das outras garotas: meu corpo, minhas tatuagens, meu cabelo era loiro na época". Rappers, revistas e blogs desenvolveram uma fascinação por Chyna que mais ninguém conseguia saciar, simplesmente porque ninguém mais parecia com ela. Mesmo aqueles que não achavam Chyna linda tinham que admitir que ela era memorável, o que a tornou poderosa.

E assim, a ascensão de Chyna o que rendeu aparições no Keeping Up with the Kardashians, cinco milhões de seguidores no Instagram e artigos no Daily Mail parecia inevitável.

A jornada de Chyna rumo a Hollywood acelerou no final de 2010, quando Drake cantou "Call up King of Diamonds and tell Chyna that it's worth the flight". O verso deixou claro para todo mundo que Chyna não era só uma dançarina, ela era A dançarina. Logo depois do lançamento da música, ela começou a namorar o rapper Tyga, trocou Miami por Los Angeles, apareceu em vários clipes da Nicki Minaj e formou uma amizade com Kim Kardashian, aparecendo em alguns episódios do seu reality. Chyna tinha chegado.

E isso não quer dizer que Drake a "descobriu". Nem Tyga, ou Nicki ou Kim. Ninguém a descobriu, Chyna exigiu ser reconhecida, porque ela era única. Isso até todo mundo começar a parecer com ela.

Ela não inventou a figura de ampulheta, claro — ela mesmo deu crédito à comunidade trans pela ideia. Mas ela introduziu em Hollywood o conceito do corpo aumentado empreendedoramente.

"O corpo de Chyna não é o mesmo com que ela nasceu, foi o corpo que ela escolheu ter, o que o torna ainda mais significativo."

É justo imaginar, inicialmente, por que Chyna exemplifica esse novo ideal norte-americano mais que qualquer outra mulher que se tornou famosa no mesmo período. Mas mesmo dentro da rede interconectada de mulheres-ampulheta hiper-realista que cerca Chyna e povoa Calabasas, ela brilha ainda mais. A escala de sua visão foi sempre diferente da de suas contemporâneas. Ela nunca se preocupou em criar algo real. Como ela disse a Richardson: "Eu queria ser dramática". Algo mais ambicioso que um 36-24-36.

Dizer que o corpo dela é falso é não entender o ponto aqui: o corpo de Chyna não é o mesmo com que ela nasceu, foi o corpo que ela escolheu ter, o que o torna ainda mais significativo.

Considere a época em que Chyna passou por sua primeira plástica, em 2006. Muito antes da VICE cobrir injeções ilegais para o bumbum, antes das Kardashians se tornarem onipresentes, antes de Nicki Minaj assinar com uma gravadora. (Quando Richardson sugeriu que Minaj poderia ter se inspirado a mudar seu corpo depois de conhecer Chyna, ela respondeu "Sim, eu acho".)

Agora, a maioria das mulheres no King of Diamonds fazem injeções na bunda. Fusion, que dança lá, disse à VICE que o número fica entre 75 e 80%. É só olhar as revistas de fofoca para notar que as mulheres de Hollywood devem estar fazendo transferência de gordura em números similares. Norte-americanas comuns estão morrendo na busca clandestina pela ampulheta impossível.

Enquanto isso, o fantasma de Chyna antes da fama vive online. Você ainda encontra, com alguma facilidade, filmagens tremidas de celular dela dançando no começo da carreira. Em um vídeo, Chy se gravou ensaiando com botas Ugg e moletom enquanto o clube estava fechado. E assim, a Vênus do nosso tempo não será desenterrada por arqueólogos, mas armazenada em cache.

Fotos cortesia de Blackmen Magazine e Dimepiece Magazine .

Tradução: Marina Schnoor

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