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#MarceloD2Racista versus #NegãodoBolsonaro: Racismo, incoerência ou alienação?

"Ser racista é algo mais complexo que ofender ou questionar uma pessoa negra".

por Gislene Ramos
01 Novembro 2018, 10:11pm

Nesta semana os bolsominions subiram nos TTs do Twitter a hashtag #MarceloD2Racista. O rapper é visivelmente e declaradamente negro. Hélio Negrão, como assim se denomina foi eleito deputado federal pelo PSL e em diversos comunicados oficiais, aparece ao lado de Jair Bolsonaro, que ao longo da campanha e depois dela segue sendo acusado de ser racista. Um bom exemplo é a frase "Eu fui em um quilombo em Eldorado Paulista. Olha, o afrodescendente mais leve lá pesava sete arrobas.", dita pelo próprio Bolsonaro.

Em concordância com Marcelo D2, logo surgiu a hashtag #NegãodoBolsonaro de pessoas comentando inclusive a semelhança com a figura do bom negro ou capitão do mato. Diversos sites veicularam o ocorrido, mas sem muito aprofundamento sobre o caso, obviamente entre eles o propagandista MBLNews, acusando o rapper de injúria racial.

A primeira questão é se um negro pode ser considerado racista. O antropólogo africano Kabengele Munanga diz que não há negro racista, e sim alienado. Mas optei por conversar com quem entende do assunto para escurecer as coisas.

Reprodução_Twitter
Tweet de Marcelo D2 / Reprodução

A presença de uma pessoa negra apoiando candidato de extrema-direita com ideologias racista, sexista, homofóbica, dentre outras, é algo incoerente, como explica Ricardo Alexino, professor da Escola de Comunicações e Artes (USP) e pesquisador em Educomunicação e Relações Étnico-raciais. “Estar ao lado dos grupos dominantes é um ideal perseguido na história brasileira desde pelos mais pobres à classe média. Durante a escravidão, a figura do capitão do mato estava nessa aliança com os senhores de engenho”, comenta Alexino.

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Deputado Helio Negrão ao lado de Jair Bolsonaro

Para o pesquisador, a fala do Marcelo D2 chama a atenção para o aspecto histórico do brasileiro e está fazendo uma crítica interessante ao caráter do brasileiro e das instituições. Por outro lado, ele rebate que “as aparições do deputado federal eleito Hélio Negão ao lado de Bolsonaro remete mesmo a algo decorativo para balizar que o referido presidente eleito não é racista”.

“Em São Paulo, a figura do vereador Fernando Holiday é uma boa representação simbólica disso. O referido vereador é negro e assumidamente homossexual, mas tem um discurso ideológico racista e homofóbico”, acrescenta Alexino.

Até o momento Marcelo D2 não responde a nenhum processo de injúria racial, que de acordo com o Art. 140 do Código Penal, configura injuriar alguém, ofendendo-lhe a dignidade ou o decoro e se a injúria utilizar elementos referentes a raça, cor, etnia, religião, origem ou a condição de pessoa idosa ou portadora de deficiência, pena de reclusão de um a três anos e multa.

Ser racista é algo mais complexo que ofender ou questionar uma pessoa negra, sobretudo quando se é negro também. Então, dizer que o D2 foi racista é passar vergonha e, bom, isso a internet adora.


Assista ao Questionário Noisey da Vida: Marcelo D2