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O rock nunca nem esteve vivo no Brasil, comercialmente falando

Que o gênero está nas últimas globamente num é novidade. Mas no Brasil, até os anos 2000, o rock nunca chegou nem perto de dominar as paradas de sucesso.

por Amanda Cavalcanti; ilustrado por Vinicius Trigo
13 Julho 2018, 10:00am

No fim de maio desse ano, a famigerada banda carioca de metal Matanza anunciou o fim de seu Matanza Fest, que chega à sua sexta e última edição em 2018. Em companhia de Olho Seco, Golpe de Estado e Panic, o grupo fará quatro derradeiros shows em capitais diferentes do país e o tom solene da carta de despedida publicada no site dos cariocas levantou a questão: estaria o Matanza realizando o verdadeiro funeral do rock no Brasil?

Sim, como sabemos, o rock morreu. Isso já foi dito, escrito e demonstrado diversas vezes ao longo dos últimos anos — o próprio Noisey gringo declarou o óbito há algumas semanas, explicando que o som não mais alcança os jovens entusiastas de música e frequentadores de festivais. Desde que o rap (principalmente ele), a música eletrônica e o pop tomaram conta das paradas, da cultura pop e dos memes – ferramenta importantíssima de divulgação musical hoje em dia –, as guitarras têm sido jogadas para um canto empoeirado da indústria musical. E não só figurativamente: a Gibson, uma das mais icônicas marcas de guitarra no mercado mundial, declarou falência em maio desse ano.

No Brasil, a situação é parecida. Ao invés de rap e música eletrônica, nossas paradas são dominadas pelo funk, o sertanejo, e um ou outro hit pop em língua inglesa do Ed Sheeran ou da Dua Lipa; e a importação de guitarras no país caiu em 80% nos últimos cinco anos. Mas quisemos elaborar esse atestado de óbito e fomos atrás de números que comprovassem por A+B que, realmente, o rock não é mais o que está em voga entre os jovens brasileiros.

Nessa busca, descobrimos o improvável. Não apenas o rock está definitivamente morto no Brasil como, falando em números de vendas, ele nunca nem chegou a estar plenamente vivo.

Para chegar a essa conclusão, usamos os números de estatísticas de vendas de discos elaboradas pelo Nelson Oliveira Pesquisas de Mercado (Nopem) entre 1965 e 1999, e reproduzidos pelo artigo Segmentação e consumo: a produção fonográfica brasileira – 1965/1999, do Doutor em Ciências da Comunicação pela USP Eduardo Vicente. A Nopem foi criada por Nelson Oliveira, que anteriormente tinha trabalhado no Ibope e criou o instituto para registrar dados da indústria fonográfica. Para isso, ele colheu informações de discos vendidos em lojas do Rio de Janeiro e São Paulo.

A pesquisa tem algumas limitações: ela não trabalha com quantidade de discos vendidos, apenas o número e posição deles em rankings dos 50 mais vendidos, e abrange só grandes lojas no Rio de Janeiro e em São Paulo — o que, na época, representava dois terços do mercado fonográfico. Os dados contarem as vendas dos discos, porém, ao invés de a distribuição, representa uma vantagem, porque entra na pesquisa somente o que foi de fato adquirido pelo consumidor final.

E a pesquisa nos mostra que, desde 1965, o rock representa apenas uma pequena parcela da música que os brasileiros consomem. De 65 a 79, por exemplo, o rock chegou a representar apenas no máximo 4 dos 50 discos mais vendidos durante aquela década e meia. Até mesmo entre os artistas internacionais, que chegaram a tomar mais da metade do ranking, o rock nunca foi uma presença expressiva: discos dos Beatles (e, posteriormente, discos solo dos ex-Beatles) apareceram seis vezes durante os anos, e Elvis Presley alcançou uma única citação na lista, segundo o autor. Bandas como Rolling Stones, Pink Floyd, Led Zeppelin e The Who jamais apareceram entre os discos mais vendidos.

Ao invés disso, os brasileiros consumiam muita música romântica, música negra norte-americana (como Stevie Wonder e Michael Jackson) e samba.

Até 1981, os únicos roqueiros brasileiros a figurar na listagem eram Erasmo Carlos, Renato & seus Blue Caps, a banda The Fevers (os demais companheiros de jovem guarda foram encaixados na categoria 'romântico'), os Mutantes, assim como a carreira solo de Rita Lee, e Raul Seixas. Mas com a década de 80 veio a conhecida "explosão do rock" brasileiro essa lista se expandiu — mas, pelo que podemos concluir pela lista da Nopem, nem tanto assim.

Os discos de rock, durante os anos de 1980 e 1989, chegaram a representar no máximo 16% dos 50 mais vendidos. Em seus melhores anos (de 84 a 87), ficavam empatados ou, ainda, atrás de números feitos pelos discos românticos, de MPB e samba. O último — ou, pelo menos, o mais importante — bastião do jornalismo roqueiro no Brasil, André Barcinski, chegou a fazer uma matéria utilizando os mesmos dados para o R7 em 2016, que levava o título "O rock brasileiro estourou de vendas nos anos 80… só que não!".

O que aconteceu na suposta década de ouro do gênero no Brasil foi que as bandas, que aproveitaram um excesso de casas ociosas com o fim da febre disco, atraíram o interesse de grandes gravadoras que procuravam novas faixas etárias de consumidores (o que motivou, também, o investimento na música infantil na mesma década). Com a ajuda de megafestivais (como o Rock in Rio, que surgiu em 1985) e rádios especializadas, o gênero conseguiu uma tração que trouxe muitas bandas aos holofote — isto é, Blitz, Kid Abelha, Ritchie, Barão Vermelho, Legião Urbana, Biquíni Cavadão e outros —, mas se refletiu pouco em vendas.

A atenção recebida durou pouco. De 91 a 94, nenhum nome novo figurou nas listas de mais vendidos e, a partir de 95, o gênero só apareceu de novo de forma bem discreta através de nomes como Skank e Cássia Eller, ou pela reciclagem de antigos trabalhos de bandas da geração anos 80, com Acústicos MTV ou gravações ao vivo.

Os dados na Nopem cobrem só até 1999, mas, de acordo com os rankings de 20 CDs e DVDs mais vendidos da Pró-Música Brasil (antiga Associação Brasileira dos Produtores de Discos – ABPD), nenhum outro movimento do rock brasileiro teve forças para sair do underground. Com possível exceção do emo do fim dos anos 2000 — o NX Zero chegou a aparecer nas listas de 2008 e 2011 com o DVD 62 Mil Horas Até Aqui —, o gênero evaporou das listas e dos olhos e ouvidos do mainstream.

A guitarrada brasileira tem longa vida. Disso eu não tenho dúvidas visto que, depois de tantos anos vivendo na penumbra da indústria musical, o rock brasileiro continua a produzir bandas e discos que valem a pena ouvir e fazem algum barulho, mesmo que este não seja tão alto — as cenas carioca e mineira influenciadas pelo rock dos anos 90, o afro-indie, o metal alternativo de São Paulo e a veia experimental de bandas como Rakta e maquinas são bons exemplos disso.

Talvez uma superação ínfima do complexo de vira-lata e o conservadorismo ligado a figuras uma vez expressivas do rock brasileiro — acho que não preciso ir mais longe do que Lobão e Roger — tenha afastado boa parte dos jovens do gênero, mas uma parte significativa dessa faixa etária ainda, com certeza, se identifica com o rock. Portanto, sim, o rock no Brasil sempre esteve morto, mas sempre teve quem comparecer ao enterro e empunhar uma guitarra em cima do túmulo.

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