Sexo

Experimentei bondage japonês para aprender sobre a beleza de ser amarrada

Também aprendi muito sobre dor, hematomas e o quanto meu ombro aguenta antes de ser deslocado.

por Djanlissa Pringels; fotos por Sabine Rovers; Traduzido por Marina Schnoor
27 Julho 2018, 10:00am

Bondage japonês, também conhecido como kinbaku ou shibari, é uma forma centenária de BDSM, focado na estética de ser amarrado com cordas e no tesão de estar completamente à mercê da pessoa manuseando essas cordas. Com o shibari, você basicamente se transforma numa escultura humana enquanto também é sexualmente estimulado – pelo menos essa é a ideia. É arte, mas também é sexo!

Sempre fui fascinada pela ideia do bondage, mas nunca considerei seriamente pedir para alguém me amarrar e pendurar no teto. Para mim, um corpo nu amarrado pode parecer sexy, mas também me parece extremamente doloroso para a pessoa amarrada – doloroso demais para ser realmente excitante.

Para descobrir por que as pessoas curtem shibari, entrei em contato com Bob Roos, que comanda o site de fetiche Ropemarks. O homem de 48 anos de Amsterdã realiza oficinas de BDSM há 20 anos e é especialista em bondage japonês, então parecia ser a pessoa certa para me mostrar todo o processo.

Primeiro passo.

Alguns dias depois de entrar em contato com ele, estou no apartamento de Bob, onde as paredes são decoradas com desenhos de super-heróis de quadrinhos amarrados. Antes de começarmos, nos sentamos no terraço dele e ele me dá uma rápida aula sobre seu fetiche favorito.

“O bondage japonês começou com policiais tendo que amarrar as pessoas que estavam prendendo”, ele diz. “Séculos atrás, a polícia japonesa tinha que usar cordas para transportar criminosos, e os oficiais tinham que aprender nós complicados para restringir os movimentos desses detidos. Esses mesmos oficiais depois levaram esse conhecimento para o quarto.”

Spring, a parceira de Bob, se junta a nós no terraço; a reconheço imediatamente das fotos promocionais do Ropemarks. A realidade crua das fotos em que ela aparece me faz pensar em como o BDSM é sanitarizado em filmes como Cinquenta Tons de Cinza. Bob me diz que odeia como o soft porn dá uma impressão falsa da verdadeira natureza do bondage. “As pessoas assistem esses filmes e chegam querendo amarrar e suspender os parceiros do teto, mas não percebem que é muito mais difícil do que parece. As cordas podem arrebentar muito fácil”, ele explica.

Bob então decide que é uma boa hora para me contar histórias de pessoas que se machucaram quando suas cordas arrebentaram, e começo a imaginar se ter vindo aqui foi uma boa ideia. Aparentemente, danos aos nervos é um grande risco associado ao bondage japonês. E enquanto é mais fácil notar quando algo dá errado em outras formas de BDSM, Bob acrescenta que pode ser mais complicado ver quando um nó shibari não está funcionando direito, até ser tarde demais.

Bob me colocando em posição.

“Mas segurança vem em primeiro lugar”, me garante Bob, provavelmente sentindo minha relutância. Especialmente para recém-chegados, “é importante ter certeza que nada está sendo beliscado... cada segundo que você passa sem se comunicar com a parte do corpo que está amortecida pode causar danos sérios aos nervos.”

É hora de começar. Primeiro, Bob tem que testar minha flexibilidade puxando meus braços para trás. Isso vai ser confortável, pergunto. “Não”, ele ri, acrescentando que bondage de suspensão é principalmente sobre dor – não necessariamente das cordas, mas das posturas. “Você tem que se manter respirando e esperar passar”, diz Spring. Fazendo isso, em algum ponto, você entra no chamado “espaço da corda” – um tipo de transe onde as endorfinas começam a inundar seu cérebro.

Enquanto uma música eletrônica toca ao fundo, Bob começa a amarrar minhas mãos atrás das costas de maneira controlada e rítmica. Noto que ele está começando a assumir uma postura mais dominante. Não sei o que está acontecendo atrás de mim, mas sinto as cordas se apertarem.

Bob me amarra até um ponto onde só consigo mexer a cabeça. Enquanto estou parada lá, quase completamente incapacitada, ele calmamente descreve como desenvolveu seu fetiche. Tudo começou com uma fascinação por super-heróis. “Quando eu tinha oito anos, minha vó me deu um quadrinho com a imagem da Mulher-Aranha amarrada”, ele diz, dando algum contexto para a arte pendurada nas paredes. “Depois disso, comecei a procurar quadrinhos que mostravam mulheres amarradas.”

Quando ganhou seu primeiro quadrinho, Bob era muito novo para associar sua fascinação com sexo, mas depois que começou a assistir pornô quando era adolescente, ele acabou topando com essa categoria de BDSM. Desde então, ele me conta, ele se abre com todas as suas namoradas sobre seu gosto em bondage.

Não consigo me mexer, mas estou gostando da conversa. De repente, Bob me puxa para cima por um lado do meu corpo. Grito. Minha maior preocupação nesse ponto é meu ombro, que desloquei quando tinha 14 anos, mas felizmente meu braço continua no lugar certo. Estou começando a ficar tonta quando Bob me instrui a manter meus dedos se movendo para ele verificar se nenhum vaso sanguíneo está sendo bloqueado.

O Bob gosta mesmo de surpresas. Momentos depois, sem nenhum aviso, ele contorce meu corpo em várias posições diferentes, completamente à escolha dele. Estou sendo suspensa cada vez mais alto, até mal conseguir tocar o chão, depois sou descida de novo. Me sinto como um móvel antigo, pendurada por um sistema de polias, sendo levantada por vários andares. É como se eu fosse uma personagem no jogo do Bob, e não tenho certeza se a dor que estou sentindo é boa ou ruim.

“Essa sensação é exatamente o que gosto nisso”, me diz Spring, enquanto toma chá numa mesinha perto de nós. “Enquanto sou lentamente amarrada, vou me rendendo à dor devagar e, eventualmente, a aceito de corpo inteiro.”

Bob me suspendendo.

Pergunto ao Bob se isso tudo não é um pouco complicado demais, especialmente quando ele e Spring só querem dar uma rapidinha. “Nem sempre estamos com vontade de fazer bondage, mas nosso sexo sempre é meio kinky”, ele responde.

Bob amarra algumas cordas ao redor dos meus ombros. A dor e a pressão estão lentamente ficando mais suportáveis, até um ponto em que me sinto bastante confortável, como receber uma massagem firme num músculo tenso. Bob percebe isso e pergunta se estou gostando. Digo que sim, o que ele entende como uma deixa para puxar minhas pernas para cima até eu ficar pendurada em certo ângulo, o sangue se acumulando na minha cabeça. A dor volta.

Meu rosto está vermelho como um pimentão e o Bob não é meu namorado, então a atmosfera na sala não é exatamente sexy, mas pelo menos estamos todos nos divertindo. Agora que estou suspensa, consigo entender melhor por que algumas pessoas se excitam em ficar completamente sem controle. Você tem que dar o controle total para alguém que pode fazer qualquer coisa com você, porque resistir fisicamente dói.

Aí, Bob me diz, as pessoas podem escolher ir um passo além. “Sexo pode ser uma parte importante do bondage”, diz Bob. “Por exemplo, as mulheres podem pedir para ter as pernas amarradas numa certa posição, para serem penetradas enquanto estão suspensas. Também há jogos de bondage japonês específicos, onde a mulher é colocada no que é tradicionalmente considerada uma pose humilhante, como com os braços amarrados para trás e os seios pressionados para frente. Essa pose não é vista exatamente assim no Ocidente, mas geralmente é considerada uma pose humilhante no Japão.”

Bob me vira de novo. Estou me acostumando com as manobras dele e agora começo a me sentir bastante bem. Bob nota isso e libera a corda sustentando minha cabeça, me fazendo virar de cabeça para baixo.

A tontura retorna, mas dessa vez tento relaxar meu corpo e gradualmente me sinto mais leve. Não consigo me mexer, mas – diferente de antes, quando isso me deixou ansiosa – agora sinto uma sensação de liberdade. Sei que certos exercícios de respiração durante o sexo podem prolongar e intensificar o orgasmo, e aposto que esses orgasmos podem ser explosivos quando você está no “espaço da corda” – apesar de ainda não estar me sentindo particularmente excitada.

As marcas de corda depois da minha sessão.

Bob dá um último passo além – ele desprende meu cabelo e o amarra de novo com uma corda. Aí ele puxa meu cabelo para cima, forçando meu pescoço num ângulo difícil. Meu corpo inteiro está tenso, estou me sentindo hiperconsciente do meu cabelo e músculos. “Tenho que admitir que realmente gosto de estar no controle”, diz Bob.

Aí é hora do Bob me soltar. Consigo sentir o fardo deslizando dos meus ombros, literal e figurativamente. Posso finalmente me mover de novo e estou aliviada em sentir o chão sob meus pés. A corda deixou marcas no meu braço – marcas que viram hematomas no dia seguinte.

É fácil entender como bondage pode melhorar sua vida sexual – é algo desafiador, imprevisível e exige que você se entregue totalmente ao parceiro. Além disso, o aspecto visual é incrível. Mas não acho que vou levar essa experiência para o meu quarto. Apesar de gostar de como as marcas da corda e a ligeira dureza no meu pescoço parecerem uma chupada de amor, acho que sou muito impaciente para bondage japonês. Leva um tempo para ser completamente amarrada, e quando eu finalmente estiver suspensa, já vou ter perdido o interesse em qualquer ato sexual.

No geral, foi divertido experimentar, mas quando estou no clima, estou mais preocupada em fazer sexo do que em criar uma arte suspensa humana.

Matéria originalmente publicada pela VICE Holanda.

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