Igrejas negras nos EUA estão considerando armar seus fiéis

Numa era de Trump e Dylann Roof, alguns líderes evangélicos estão preparados para tomar medidas drásticas para se defender.

por Issac J. Bailey; ilustrado por Duane Bruton; Traduzido por Marina Schnoor
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jun 18 2018, 7:17pm

Antes de ouvirmos falar num homem branco magricelo chamado Dylann Roof, minha esposa e eu ríamos de uma história da Igreja M.E.A. Mt. Zion em Georgetown, Carolina do Sul. Essa é a igreja que minha esposa frequentava quando criança, onde nos casamos no verão de 1998, e que recentemente recebeu o funeral para o pai de 82 anos dela.

M.E.A significa igreja Metodista Episcopal Africana, uma denominação fundada por um ex-escravo cansado de ser discriminado por cristãos brancos. Nos dois séculos desde sua fundação, ela se tornou uma congregação de quase 7 mil pessoas, além de ser associada a universidades e instituições de teologia. O Conselho Mundial de Igrejas estima que seus membros chegam a 2,5 milhões.

A área que cerca a Mt. Zion é cheia de história. Ela fica a uma hora de carro de onde cadetes dispararam contra o Fort Sumner em 1861, desencadeando a Guerra Civil Americana. A igreja fica a 15 minutos de uma siderúrgica fechada e aberta várias vezes na última década, onde, nos anos 70, alguns dos supervisores brancos analfabetos exigiam que seus inferiores negros lessem as instruções de segurança em equipamentos perigoso. O lugar fica escondido numa floresta de pinheiros com dezenas de casas modestas e bem cuidadas, propriedades principalmente de negros. Também há antigas fazendas onde escravos trabalhavam, e que ainda pertencem a famílias ricas brancas que dependiam de trabalho negro para mantê-las funcionando.

Foi lá que, cerca de uma década atrás, um estranho branco desgrenhado apareceu do nada num culto numa manhã de domingo, se sentando num banco no fundo. Sua presença causou uma comoção, e alguém acabou chamando a polícia. A mera presença dele era algo fora do normal, perturbadora.

Essa era uma história engraçada de que rimos muitas vezes — até que Roof entrou na Igreja A.M.E. Emanuel, a cerca de uma hora de Charleston, e massacrou nove pessoas negras numa tentativa de começar uma guerra de raças.

Agora, quando me sento com pastores negros da Carolina do Sul e ouço suas histórias sobre ficarem nervosos com estranhos brancos (e às vezes com pessoas brancas que não são totalmente estranhas) aparecendo em suas igrejas, não rio mais. Eu ouço. Eles têm preocupações sérias: Seria bom instalar equipamentos de segurança? Trancar as portas? Ou até permitir armas em seus espaços de adoração?

“Não posso falar por igrejas de outras etnias, mas como líder de uma igreja negra, fico muito preocupado”, me disse o reverendo James Cokley da Igreja Batista Missionária Cherry Hill. “Desde que nove pessoas foram mortas em Charleston, nossa igreja instalou câmeras de segurança e tudo mais, porque já tivemos indivíduos entrando e sentando no meio do culto, e depois se levantando e indo embora sem mais explicações.”

Cokley é pastor desde antes de Roof nascer, começando 36 anos atrás, quando “trancávamos a igreja simplesmente para impedir pessoas de entrarem do nada”. Agora, segundo ele, “Ninguém é impedido de entrar... Mas temos vigilância sobre os presentes. Nossos membros não ficam totalmente confortáveis com visitantes brancos que não estejam acompanhados de conhecidos da congregação”.

Outras igrejas tomaram medidas mais ativas. O reverendo Joe Washington, da Hope Church em Conway, vem considerando seguranças armados à paisana, um policial uniformizado e outras medidas. Ele escolheu, mesmo desconfortável com isso, algumas táticas. Um porteiro fica basicamente de guarda na entrada da igreja durante o culto, e muitas vezes tranca as portas da frente e laterais (enquanto recebe amigavelmente membros e visitantes). Washington pediu à filha, que também é pastora, e à esposa, uma conhecida médica local, para aprenderem a atirar. Elas inicialmente recusaram a ideia, assim como a noção de ter armas na igreja. Mas pelo menos duas pessoas com porte de armas estão presentes na igreja de Washington, armadas, todo domingo.

“Não sabemos quem são e não anunciamos quem são essas pessoas”, ele disse. “Sofro com isso. A congregação é minha primeira preocupação. Não sei como isso soa, mas é algo real. Precisamos ser capazes de neutralizar um atirador.”

Quando era pastor numa área perigosa de Nova York, ele entendia que havia perigos — ele tinha que mandar traficantes de drogas deixarem as crianças da igreja em paz — mas “nunca me ocorreu que algum imbecil pudesse entrar atirando na igreja”.

É difícil dizer quão grande é essa dúvida nas igrejas entre receber bem e ficar hesitante com estranhos. Mas é algo real.

Antes de Roof entrar na Emanuel, violência racial dentro de igrejas era uma preocupação menor na mente de muitos pastores negros. Ninguém se esqueceu das quatro meninas negras explodidas pela Ku Klux Klan em 1963 na frente de uma igreja do Alabama. Ninguém se esqueceu do surto de igrejas incendiadas no Sul nos anos 90, uma possível tentativa de aterrorizar os negros. (Uma das igrejas incendiadas na Carolina do Sul era uma M.E.A Mt. Zion diferente, a de Williamsburg.) Mas chegou um tempo de distanciar as memórias da realidade.

Os assassinatos de Roof acordaram todos esses medos, que só cresceram com a ascensão de supremacistas brancos que se sentem estimulados pela presidência de Donald Trump.

Apesar de todo líder de igreja ter que equilibrar a melhor maneira de manter sua congregação segura e uma atmosfera convidativa, pastores negros têm preocupações únicas. Eles têm que pensar na bagagem racial que vem com discussões sobre o papel das armas. Ao mesmo tempo, eles geralmente são ignorador por aqueles que defendem uma versão extrema da Segunda Emenda americana, e ficam em conflito pensando em ter máquinas de matar em suas igrejas, mesmo quando o objetivo é evitar o próximo Dylann Roof. Muito do debate recente sobre armas nos EUA se centra em armar professores ou ensinar alvos a “se defenderem”. Mas igrejas negras sempre foram pensadas como lugares de paz para aqueles buscando consolo num mundo cruel. Tirar isso delas é manchar sua principal missão.

A Igreja M.E.A. Emanuel em Charleston. Foto por BRENDAN SMIALOWSKI/AFP/Getty.

A decisão de Barack Obama de participar do memorial para as vítimas de Roof e oferecer uma versão muito elogiada de “Amazing Grace” serviu como um bálsamo para as feridas emocionais dos negros americanos. Mas cicatrizes mentais permanecem, mesmo que Roof deva passar o resto da vida numa prisão federal.

É algo que nenhum pastor negro quer passar, um sentimento com que eles lutam, mas que sentem mesmo assim.

“Minha mãe ficou assustada com um jovem branco que veio para um culto de domingo”, disse Cheryl Adamson, pastora da Igreja Batista Missionária Palmetto em Conway. “É muito triste. Deveríamos ser o reino de Deus, mas ficamos desconfiados.”

E Adamson e a mãe não se assustam fácil. Na escola, elas encararam estudantes brancos armados com tomates brancos e xingamentos — estudantes que atacavam estudantes negros, os faziam tropeçar por diversão e tentavam assustá-los para voltar para suas escolas sem financiamento — quando elas e outros começaram a frequentar colégios integrados. Ainda assim, estranhos brancos perturbam Adamson e a mãe. Como quando uma família branca de férias em Myrtle Beach apareceu bem-vestida num culto. “No começo, achei dissonante.”

Suspeitas similares fazem membros da igreja Palmetto ficarem com um olho na porta, outro na pregação e nos hinos do coral. Suspeitas fazem as portas ficarem trancadas durante o culto da noite, ensaios e reuniões.

Mas a resposta de Palmetto aos assassinatos de Roof é relativamente moderada. “Provavelmente estamos mais do lado 'simples como a pomba'”, em vez do conselho bíblico de ser “astuto como a serpente”, disse Adamson. “Não fizemos nada concreto quanto a medidas de segurança.”

Adamson não gosta de armas. Apesar de ter um rifle “para atirar em animais”, ela também faz doações para o Everytown for Gun Safety, uma organização sem fins lucrativos que defende o controle de armas. Como outros pastores negros, ela luta com a ideia de permitir que membros com porte de armas frequentem os cultos com revólveres na cintura ou dentro da bolsa.

Ela deveria proibir armas por todo o dano que elas causam aos jovens negros que ela tenta alcançar? Segurança armada é a opção certa? E a segurança dela? Ela ouvir rumores de que pastoras negras são um alvo. Ameaças pós-Roof na área dela são reais, incluindo o caso de Benjamin Thomas Samuel McDowell, um homem de Conway com laços com supremacistas brancos, que fez uma série de ameaças contra não brancos e judeus no começo de 2017. McDowell foi preso depois de comprar balas de ponta oca e uma Glock calibre 40 de um informante disfarçado do FBI. Apesar de não ter “treinamento” e não ter escolhido um local, McDowell disse que queria fazer algo “numa escala grande” e “no estilo de Dylann Roof”. (McDowell se declarou culpado de posse de armamento no começo deste ano.)

Considerando o que Roof fez, pastores como Adamson não podem deixar de levar qualquer ameaça em potencial a sério. Discussões sobre armas, para proteção, estão sempre na mente dela. Ela sabe que pelo menos um membro de sua igreja tem porte de arma e pode ter uma arma na cintura durante o culto.

“Mas o que você faz se essa pessoa não estiver presente?”, ela perguntou. “É realmente uma caminhada de fé. Esperamos que não seja uma caminha estúpida.”

Participantes do memorial para o reverendo Clementa Pinckney, morto por Dylann Roof. Foto por Andrew Lichtenstein/Corbis via Getty.

Apesar do medo de outro Roof estar obviamente presente, atentados em igrejas são relativamente raros. Segundo dados do criminologista Dallas Drake do Centro de Pesquisa de Homicídios, foram cerca de 147 atentados com armas de fogo em igrejas entre 2006 e 2016. Muitos desses incidentes envolviam pessoas ligadas a igreja ou a seus membros, geralmente com problemas mentais ou histórico de violência doméstica. E não estão limitados a igrejas negras.

Alguns exemplos recentes: Em novembro, Devin P. Kelley matou 25 membros da Primeira Igreja Batista, uma igreja branca de Sutherland Springs, Texas. (Kelley tinha um histórico de ameaças de violência contra superiores quando estava na Força Aérea, e batia no filho e na ex-mulher.) Um mês depois de Sutherland Springs, um adolescente armado tentou assaltar a Igreja Batista Grand Strand em Carolina Forest, perto da igreja de Adamson, mas foi impedido numa troca de tiros com um segurança no estacionamento.

Esse tipo de atentado com arma de fogo é mais um resultado de problemas na comunidade se infiltrando nas igrejas, em vez de igreja e religião serem alvos. O ataque de Roof, que foi motivado por ódio racial e sem dúvida um ato terrorista — mesmo não se encaixando exatamente na definição do governo americano — parece um caso bem isolado. Ainda assim, pastores como o reverendo Washington de Conway não querem que sua igreja seja o local de um evento assim, ou estarem despreparados se algo acontecer.

“Não concordo com o NRA sobre a história de 'um cara bom armado', e não quero que minha igreja se torne como o Velho Oeste”, ele disse. “Eu nunca imaginaria viver numa época como essa. Mas o que Roof fez parece um momento seminal. E não sou o tipo de cara em que você atira e vou dar a outra face.”

" Quando um homem negro tem uma arma, ele é visto como um criminoso... E se a polícia aparecesse e eu tivesse um fuzil nas mãos?” - Reverendo Washington

E ainda assim, Washington sabe o que armas significam para os negros americanos. Apesar de Harriet Tubman ter ajudado dezenas de escravos negros a escapar com uma pequena pistola, armas frequentemente são usadas para manter os negros presos. As “milícias bem armadas” mencionadas na Segunda Emenda geralmente eram gangues de patrulheiros brancos, cujo trabalho era manter escravos africanos na linha ou acabar com rebeliões negras. Quando grupos como os Panteras Negras começaram a se armar nos anos 60, para mostrar força contra a polícia que estava espancando e destratando negros, políticos brancos que resistiam ao controle de armas, como o governador da Califórnia Ronald Reagan, acabaram aceitando a ideia. Quando Philando Castile foi morto em Minnesota por um policial — mesmo depois de informá-lo que tinha porte de armas — o NRA disse pouco em defesa de Castile. Era fácil perceber que Castile era negro e a maioria dos membros do NRA são brancos, e que pela história, a questão da posse de armas sempre esteve embaraçada com a questão de raça, um jeito dos brancos controlarem e subjugarem pessoas não brancas.

Armas causaram infinitas perdas na comunidade negra, enquanto jovens homens negros são sempre representados como aqueles cometendo crimes com armas, além daqueles vitimizados pela violência armada. Esse é exatamente o grupo que pastores como Washington querem ajudar. Ele acredita em programas de entrega de armas e outros pensados para reduzir o número de armamento nas ruas, mas também acredita que é vital que os negros possam se defender. Ele não é o único. Nos últimos dois anos, mais e mais pessoas negras estão considerando ter uma arma como um jeito de barrar ataques em potencial.

Mesmo isso apresenta um dilema. Washington contou um acidente recente onde o alarme de sua casa disparou e o caseiro não conseguia desligar. “Quando um homem negro tem uma arma, ele é visto como um criminoso”, ele disse. “E se a polícia aparecesse e eu tivesse um fuzil nas mãos?”

Como outros pastores, Washington também luta contra o impulso de suspeitar de pessoas brancas; alguns membros no começo de sua igreja eram brancos e um dos princípios da congregação é ser interracial. Antes de Roof e outros atentados com armas de fogo, estranhos de todos os tipos eram bem-vindos, disse Washington. Esse é um dos aspectos mais importantes do evangelismo. Mas agora, apesar de todos serem bem-vindos, “Tenho muito, muito cuidado”.

Quando um estranho branco apareceu numa série de palestras sobre finanças na igreja, Washington passou tempo extra conhecendo o homem, perguntando como ele tinha ouvido falar das aulas.

“É triste”, ele disse. “Mas vamos encarar os fatos. Quem pensaria que um Dylann Roof participaria de um estudo bíblico?”

Matéria originalmente publicada na VICE US.
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