Screenshot do clipe de "APESHIT"

Artistas negros fizeram as mais relevantes obras audiovisuais da década

De “No Church in the Wild” a “APESHIT” e “This Is America”, eles têm discutido a subjetividade do negro e uma nova visão cinematográfica em seus clipes e além.

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jun 18 2018, 7:57pm

Screenshot do clipe de "APESHIT"

No último sábado (16), dois dos maiores nomes da música pop hoje surpreenderam todo mundo que resolveu curtir o fim de semana em casa com o lançamento de um disco que estava prometido pelo menos desde o ano passado. Unidos sob a alcunha The Carters, JAY-Z e Beyoncé finalmente deixaram EVERYTHING IS LOVE, o primeiro álbum colaborativo do casal que está junto desde 2002, ver a luz do dia — primeiro exclusivamente no TIDAL, mas o disco já se encontra no Spotify — junto com o clipe de um primeiro single, “APESHIT”.

O clipe, que abre com uma imagem dos dois com uma expressão impassível à frente da Mona Lisa, se passa no Museu do Louvre em Paris e mostra Beyoncé e Jay dançando e posando ao lado de diversas importantes obras europeias, como A Coroação de Napoleão (1807), de Jacques-Louis David, a Vitória de Samotrácea e a Vênus de Milo (ambos de 200 a.C.), além de reencenando o Sarcófago dos Esposos (600 a.C.). Junto a bailarinas negras, um dos casais mais poderosos da indústria do entretenimento ostentam seu reinado e ofuscam as obras de arte que foram construídas e glorificadas pela supremacia europeia.

Talvez não seja preciso explicar o impacto que um clipe e disco novos da Beyoncé teriam por si só, mas é bom notar que “APESHIT” é importante não apenas como som, mas também como obra audiovisual, e faz parte de uma nova leva de videoclipes que vêm retratando ser negro nos Estados Unidos com um olhar muito mais subjetivo e profundo que o da maioria dos artistas pop.

A própria Beyoncé fez isso pela primeira vez lá em 2016, com o clipe de “Formation”. Durante os quase cinco minutos de vídeo dirigidos pela norte-americana Melina Matsoukas, ela faz referências ao Furacão Katrina, violência policial, racismo e a cultura da mulher negra do sul dos Estados Unidos, discutindo as histórias de origem de seus pais. Tudo isso é construído por uma combinação de imagens que seriam comuns a um clipe de cantora pop (como takes de dança coreografada e dublagem da música) e imagens semi-estáticas fortes e simbólicas, como a da Beyoncé deitada num carro de polícia que se afunda na água lentamente.

A questão de violência policial e protestos, muito em voga desde um pouco antes da formação do movimento Black Lives Matter, em 2013, também foi abordada em “No Church in the Wild”, de JAY-Z, Kanye West e com participação de Frank Ocean. O clipe foi dirigido por Romain Gravas, que também colaborou com a M.I.A no vídeo de “Bad Girls”.

Essa estética impactante e específica aparece em uma gama de outros clipes ao longos dos últimos anos, e pode ter começado a ganhar forma pelas mãos de Kahlil Joseph, que trabalhou com, entre outros, FKA Twigs, Sampha e Flying Lotus em sua recente carreira como diretor de videoclipes. O primeiro deles foi o curta-metragem que promove o álbum Black Up do Shabazz Palaces, lançado em novembro de 2011.

Joseph, que começou a trabalhar com clipes inspirado pelo diretor Hype Williams, disse numa entrevista para o The Guardian em outubro de 2017 acreditar no que ele chama de “talento negro”:

“O talento negro é exponencialmente impulsionado por outros talentos negros. Quando qualquer talento conhece outro talento, se instala uma natureza competitiva saudável e inata. Mas o talento negro tem uma especificidade cultural. Temos um gênio particular para a improvisação, de pregadores no púlpito a pianistas.”

O diretor também é responsável pelo álbum visual de Lemonade, também da Beyoncé, Until the Quiet Comes, do Flying Lotus e um curta-metragem inspirado pelo good kid, m.A.A.d city, do Kendrick Lamar. Seu trabalho de imagens semi-estáticas e narrativas pouco baseadas em cenas de causa e efeito, em especial nestes dois últimos, inspirou o empresário de Kendrick e o próprio rapper a colaborarem no clipe de “ELEMENT.” , sob a alcunha de Jonas Lindstroem & the Little Homies.

O clipe, embora mais narrativo, se relaciona às imagens de Joseph por tentar recriar fotos com imagens em movimento. As fotos em questão são do fotógrafo e diretor Gordon Parks, que durante os anos 1950 documentou questões de segregação racial, pobreza e direitos civis nos Estados Unidos para a revista Life.

Mas, pra muito além de questões políticas, os clipes vêm representando a profundidade da experiência negra com retratos de situações culturais mais específicas dentro da negritude norte-americana. Um bom exemplo é o clipe de “Don't Touch My Hair” da Solange, lançado em 2016 e dirigido por ela mesma e seu marido Alan Ferguson. Em cores pastéis, Solange e uma série de dançarinos se movem vagarosamente e balançam diversos estilos de cabelo negros, como tranças, dreads, cachos, afros e tranças.

Em “Never Catch Me”, clipe de Flying Lotus com participação de Kendrick Lamar e dirigido por Hiro Murai em 2012, a espiritualidade negra é retratada pelos olhos de duas crianças que, antes mortas, saem de seus próprios caixões e dançam pelos corredores de uma igreja. Ainda falando em Murai, diretor japonês que inclusive dirigiu alguns episódios de Atlanta, de Donald Glover, seria impossível não citar o próprio Childish Gambino e seu “This Is America” que, apesar dos temas de violência e racismo, é acima de tudo uma afirmação do artista negro.

A importância de todas essas representações da subjetividade negra não vem só do volume de clipes sendo feitos nesta estética, como também por seu impacto ativo na indústria da música. “This Is America”, apenas um mês depois de seu lançamento, conta com mais de 200 milhões de visualizações; “APESHIT”, já com seus de 16 milhões, deu a JAY-Z e Beyoncé o privilégio de poder ter o mundo parar o que estava fazendo para observar os dois. E, pensando rápido, não consigo lembrar de nenhum artista branco que tenha tal impacto artístico e comercial hoje na música pop.

É um sinal também de que, desde que negros tomaram as rédeas da indústria musical, sua representação ficou mais subjetiva e menos estereotipada. Mas, para além das questões de impacto político, essa nova leva de videoclipes nos deu obras de arte com camadas de profundidade que provavelmente só serão entendidas em sua completude com anos e anos de distância.

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