Sexo

Por que pinto pequeno pode voltar à moda

O “tamanho ideal de pênis” aumentou e encolheu durante a história.

por Mark Hay; Traduzido por Marina Schnoor
16 Agosto 2019, 10:00am

Foto cortesia de Marie-Lan Nguyen e Museu Nacional de Arqueologia de Nápoles via Wikimedia Commons.

O mundo Ocidental adora um pau grande e grosso. Além das normas do pornô e glorificações na cultura pop, vários estudos indicam que a mulher média que faz sexo com homens prefere um pênis maior que a média. (Há bem menos pesquisa sobre o tipo de pênis que os homens que fazem sexo com homens preferem na média.) A ideia do pau maior tendo valor maior é tão enraizada que alguns biólogos evolutivos têm tentado encontrar uma razão mais profunda pra isso. Esse senso duradouro de que o valor do homem pode ser medido pelo seu comprimento e largura leva muitos homens, que, na média, têm pênis de 12 a 15 centímetros, a se sentirem inadequados. (17 centímetros não é algo tão incomum assim, mas qualquer coisa acima disso é.) Essa ansiedade, por sua vez, abastece a indústria de suplementos duvidosos e cirurgias experimentais.

Então pode ser uma surpresa descobrir que a Grécia Antiga, a progenitora da cultura e valores estéticos ocidentais, abominava paus grandes. “[Na cultura da Grécia Antiga], o pênis bonito era pequeno e delicado”, disse John Clarke, estudioso de arte erótica antiga, sobre a visão de mundo na época. “Um humano com genitais muito grandes, especialmente genitais masculinos, era considerado grotesco, ridículo.” Essa preferência por pênis pequenos foi até pelo menos o século 8 DC, como refletido nas estátuas da era, apontou Timothy McNiven, professor da Universidade Estadual de Ohio, que estudou retratos penianos antigos, e essa tendência continuou através da maior parte da arte e literatura clássicas da Grécia.

Segundo Clarke, essa preferência durou, até certo ponto, até a era cristã, e se estendeu além da pátria grega, tocando muito da história e cultura ocidentais. Tudo isso levanta a questão: por que os gregos antigos e outros curtiam tanto paus pequenos, e quando e como exatamente a cultura moderna passou a louvar paus grandes?

É possível, disse a historiadora de arte Ellen Oredsson, que os gregos valorizassem a estética dos pênis modestos porque “seus ideais artísticos eram uma questão de equilíbrio, nada podia ser grande demais”. Buscas similares por equilíbrio podem ser responsáveis pelo encolhimento e aumento de características anatômicas, incluindo do pênis, em outras tradições culturais. Também é possível, apontou McNiven, que os gregos pudessem estar refletindo uma erotização enraizada e aceitável do homem jovem em todas as imagens dos corpos masculinos ideais. “Os genitais ainda não desenvolvidos se alinham com a falta de pelos corporais, padrões masculinos de pele lisa, etc., no desenvolvimento do tipo corporal ideal, mesmo para adultos”, ele disse.

Mas a interpretação comum mais aceita, concordaram os especialistas entrevistados pra esta matéria, é que os gregos antigos viam pênis pequenos como um sinal de modéstia, racionalidade, autocontrole, que eles valorizavam muito, e pênis grandes como um sinal de luxúria idiota e animalesca – de uma completa falta de controle. Ele podiam associar falos perigosamente grandes com animais, que tendiam a seguir suas ereções acima de qualquer coisa. Criaturas meio-humanas como sátiros, que eram bodes da cintura pra baixo, costumavam ser retratados com grandes ereções, às vezes do tamanho do torso – e geralmente bêbados. Eles eram, disse McNiven, “os garotos-propaganda do descontrole”.

Seria fácil desconsiderar isso como uma metáfora artística, ou um valor da elite que a população grega mais ampla podia não compartilhar nas suas preferências sexuais da vida privada. Mas, apontou Oredsson, algumas peças atenienses – o entretenimento popular da época – claramente articulavam o louvor a paus pequenos, como evidenciado pela importância dada ao que Oredsson traduz como “pênis pequenos” na obra As Nuvens de Aristófanes e o uso de grandes pênis eretos como piada em sua Lisístrata. Então esses valores provavelmente eram bem familiares para a maioria dos gregos com os séculos, e aceitos como algo mais que apenas convenção artística ou artifício literário.

Não se sabe se os gregos eram os únicos de sua época e região em termos de preferências penianas. Um famoso papiro egípcio retrata homens feios com paus compridos e pontiagudos, sugerindo um senso similar de humor que pode nos surpreender hoje, mas essa é uma imagem isolada. Na maior parte, apontou McNiven, culturas vizinhas não mostravam tanta nudez em sua arte, ou falavam sobre seus conceitos de corpo ideal nos textos sobreviventes.

Mas tropos genitais similares continuaram nas culturas subsequentes. Digno de nota, os romanos, cujas elites tiravam muito da cultura grega em sua própria arte e academia, continuaram fazendo estátuas com pintos pequenos. Como os gregos, eles achavam pênis gigantes ridículos. Amuletos esculpidos de grandes pênis, às vezes com asas, para homens jovens ou ter pessoas desfilando pelas ruas com pênis gigantes esculpidos, visavam espantar forças malignas com o poder do riso. Clarke apontou que eles gostavam particularmente do deus Priapus, “basicamente um espantalho com um grande falo, um guardião originalmente de jardins e pomares... [que] punia invasores com penetração de seu elemento ridículo e desproporcional”. Ele era uma grande piada.

Artistas medievais da mesma maneira ocasionalmente usavam pênis grandes para retratar o mal, heresia ou, alguns estudiosos acreditam, para provocar o riso. Nas eras artísticas da Renascença e Neoclássico, disse Oredsson, esculturas de estilo grego de tamanhos modestos continuaram a aparecer. E, como acrescentou o classicista Kirk Ormand, é possível encontrar traços dessa antiga crença na luxúria impulsiva e absurda associada com pênis grandes na cultura moderna, mesmo que pênis pequenos não apareçam na nossa arte com tanta frequência. (Pense no escárnio ligado a pessoas que “pensam com o pinto”, mas também visões racistas de homens negros, comumente estereotipados como bem-dotados, como subumanos selvagens e cheios de luxúria – um tropo assustadoramente persistente e às vezes ainda explícito em parte da cultura ocidental moderna.)

Mas quando paus grandes passaram de itens de humor grotesco e curiosidade para ídolos de desejo e admiração? Historiadores de arte e críticos culturais já fizeram todo tipo de especulação, da Renascença com suas gravuras explicitamente eróticas, como o I Modi do começo do século 16, até a era moderna e o etos de "quanto maior melhor" da nossa pornografia hardcore.

Provavelmente não ouve uma guinada definitiva porque nossos conceitos de tamanho de pênis sempre foram fluídos e multifacetados. Como Joseph Slade, historiador de retratos culturais de sexo e sexualidade, apontou, pênis muitas vezes encarnam um senso de poder na arte e mitologia; eles agem como símbolos de potência, fertilidade e força. Quando são um pouco ridículos, eles geralmente ainda retêm um senso de força admirável. “Mesmo no mundo grego”, acrescentou Ormand, “há momentos e situações onde um membro maior podia ter conotações positivas”.

Nenhuma cultura, segundo os especialistas com quem falei, parecia tão diretamente enamorada com pintos pequenos como os gregos antigos. (Há contraexemplos na arte oriental, africana e indígena, onde genitália altamente estilizada ou exagerada pode ser encontrada em obras como as gravuras Shunga japonesas, estátuas da fertilidade do Congo, e os potes Moche peruanos, respectivamente.) Romanos e outras culturas ocidentais apenas seguiram os tropos esculturais gregos, ou desconsideraram pênis em conjunto com o conservadorismo cristão. Os romanos, seguidores ardentes dos gregos de muitas maneiras, riam de Priapus de um lado, mas de outro exaltavam ereções enormes como sinal de masculinidade. David M. Friedman, em sua história cultural do pênis A Mind of Its Own, apontou que generais romanos às vezes promoviam soldados com base no tamanho de seus genitais. Na vida privada, alguns romanos aparentemente viam o apelo sexual de um pênis prodigioso: “Há indícios”, apontou Ormand, “de que havia prostitutos em Roma valorizados pelo tamanho de seus genitais”.

“Os conceitos romanos de corpo eram diferentes” das ideias dos gregos sobre tamanho, disse McNiven, “Mas a elite estava tão envolvida na cultura grega que a mudança não é muito óbvia”.

Essa gangorra na visão de paus grandes como absurdos e nojentos, ou poderosos e desejáveis, dentro da mesma cultura se repetiu pela história. Obras medievais mostravam monstros de pênis, mas também braguilhas demostrando o poderoso pacote de alguns lordes como sinal de virilidade. Hoje em dia, paus grandes podem representar humor, ameaça ou desejo dependendo de como são enquadrados. “Mesmo hoje, acho que nossas percepções culturais do pênis são muito complexas”, disse Oredsson.

É possível, disse Clarke, “que sempre tenha existido indivíduos que desejavam pênis longos, independente da implicação negativa disso nos pensamentos grego e romano”. Do mesmo jeito, apesar do que o pornô e a cultura pop podem nos ensinar hoje, nem todo mundo realmente deseja uma gigantesca ereção. Histórias de terror abundam sobre a dor e as armadilhas do sexo com um órgão muito grande. A atração real das pessoas se alinha com sua própria anatomia, e as sensações que as excitam, se você conseguir ultrapassar os retratos da cultura pop e entrar em contato com seus próprios desejos. O desejo é flexível – ele não depende tanto do tamanho do pau como muitos homens temem.

A ideia sobre um pau ideal e culturalmente desejável sempre foi complexa. O que ocupa mais espaço cultural provavelmente depende de quem possui poder cultural e os pensamentos com que eles estão obcecados. “Definitivamente não é um caminho linear”, acrescentou Oredsson. “Não houve um ponto onde as percepções sociais de pênis viraram... Muitas percepções diferentes existiram e coexistiram durante a história.”

Considerando tudo, não há uma razão real para se agarrar ao tamanho do pau ou dar muita importância para os retratos de pau grande no pornô e na cultura pop. Essas coisas não são o evangelho, mas momentos culturais passageiros. Não importa o tamanho do seu pau, em certos momentos da história seu pinto foi risível e grotesco, ou admirável e desejável. Hoje, também, vale as duas coisas. Depende de como você olha pra ele. Ou entalha, para a posteridade.

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Matéria originalmente publicada na VICE EUA.

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