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Mulheres estão liderando a última reinvenção do pornô

Falamos com quatro mulheres que estão comandando sets pornô e fazendo a curadoria de seu próprio conteúdo.

por Laura Bell; Traduzido por Marina Schnoor
22 Agosto 2019, 10:00am

Venus Lux, na foto, diz que ouvir as vozes das trabalhadoras sexuais na frente e fora das câmeras é uma grande mudança. Foto cortesia de Venus Lux.

“Eu nunca fui de assistir pornô.” Sei que muita gente já disse isso de maneira não muito sincera, mas é sério. Nunca realmente gostei de pornô.

Pra mim, a ideia de pornografia era inseparável das hordas de homens do outro lado das câmeras – diretores, produtores, estagiários que trazem o café – dizendo para as atrizes para onde olhar, o que dizer e quando começar a gemer naquele orgasmo mitológico que está muito longe de algo que poderia me excitar.

Enquanto a história do pornô tem sido predominantemente masculina – o que em grande parte explica meu desconforto – o futuro da indústria parece ser bem mais feminino. Desde a minha experiência num set pornô com a produtora e atriz Samantha Mack, estou fascinada com como essas mulheres poderosas estão tomando e mudando a indústria, incluindo Mack. Os atores falaram sobre conseguir treinamento valioso. Eles participaram de uma discussão de 90 minutos sobre consentimento. O set de Mack não era intimidador; era um lugar divertido e acolhedor, tanto que eu nem queria ir embora.

Agora que mais mulheres estão comandando a indústria e sendo reconhecidas por sua contribuição, estou começando a me perguntar se isso vai me deixar, assim como a toda uma geração de mulheres, mais confortável assistindo pornô.



Como essas mulheres em posições de poder estão instigando mudanças e, mais importante, experimentando essas guinadas contemporâneas? Abordei quatro mulheres incríveis que estão sacudindo a indústria para descobrir.

“Você não pode simplesmente chegar aqui, me mostrar sua boceta e esperar ficar rica”

Samantha Mack in VICE's 'Porno Bootcamp'
Samantha Mack no Porno Bootcamp.

Samantha Mack, atriz e produtora pornô e CEO da Mack Models.

VICE: Oi, Samantha, você trabalha em sets comandados principalmente por mulheres. Como é essa experiência?

Samantha Mack: É divertido e fácil estar num set só com garotas. Vemos que há mais preocupação com segurança, há formulários de consentimento e discussões antes das filmagens. Diretoras e produtoras já estão acelerando essa narrativa – insistindo em consentimento antes, durante e depois das filmagens.

Por que você acha que é assim?

Boa parte das mulheres na indústria que agora são produtoras e diretoras já foram atrizes. Se você já trabalhou nas trincheiras, você sabe como torná-las mais receptivas para a próxima geração.

Quão importante é essa empatia para garantir que suas artistas estejam confortáveis?

Muito. O que faz uma grande diferença é que já estive ali; venho de um lugar onde simpatizo com elas. E isso deixa as pessoas mais confortáveis, algo que homens geralmente não podem fazer. Ensinar e estimular te dá uma performance muito melhor do que dizer pra uma pessoa que ela está fazendo errado. Já tive homens explicando meu trabalho pra mim; sei como é isso.

Mansplaining? Nossa.

Ah sim, muitas vezes encontrei diretores querendo me explicar como uma vagina funciona...

Ai. E o conteúdo criado por mulheres? Como isso está mudando?

Isso definitivamente leva a um ambiente mais ético, porque a maioria de nós já esteve naquela posição. Não trabalho com temas tabu. Não quero fazer pornô que vai te fazer trair ou atacar alguém, ou transar com uma pessoa menor de idade. Essa não é uma narrativa que quero colocar na cabeça do meu público. Pode haver repercussões. Quero que a fantasia seja algo plausível pra mim.

Você acha que falta esse nível de responsabilidade em outros sets?

Sim. Sinto muito responsabilidade no meu set. Posso abandonar minha visão no meio da tomada se a atriz não está confortável; quero que a pessoa tenha uma experiência de sucesso. Mas para muitos outros produtores, esse não é o caso. Isso se resume a pessoas que querem fazer arte e pessoas que querem fazer dinheiro, e que acabam se jogando na indústria pornô sem levar nada a sério.

Você ensina atrizes e atores amadores no seu centro de treinamento pornô. Como isso está ajudando a criar mudanças?

Isso empodera uma geração mais jovem. Especialmente para as mulheres – ensino a elas que você não pode chegar aqui, me mostrar sua boceta e esperar ficar rica. É um negócio. Estamos ensinando a elas como tomar o controle, ser incríveis, ser seu próprio chefe e sua própria marca. Se as pessoas têm esse conhecimento desde o começo, elas vão continuar a incentivar outras pessoas e crescer muito mais rápido.

“Se você precisar parar uma cena por qualquer razão, ainda vamos te pagar”

Ela Darling, atriz, produtora e CMO da PVR.

VICE: Como são os seus sets?

Ela Darling: Queremos criar um ambiente onde nada inapropriado é tolerado Convidamos os artistas para falar, e ensinamos a eles como se expressar. Estabelecemos códigos de conduta no set e seus direitos como artista, e deixamos claro que se em algum ponto você estiver desconfortável ou ter que parar uma cena por qualquer razão, você ainda será pago pela sua parte.

Você acha que as pessoas podem se surpreender com o que acontece no seu set?

As pessoas ainda pensam no set pornô como um lugar onde um monte de homens assediam ou são escrotos com mulheres, e pode ser o caso. Mas agora há muito mais produções com diretoras, e produtoras.

Como essa influência feminina pode provocar mudança?

Já fui atriz e estive em sets onde não me sentia confortável, então isso me ajuda a entender como criar a atmosfera certa num set.

No geral, há um grande movimento de pornô ético agora. Quando as pessoas descobrem uma companhia agindo de maneria inapropriada, elas param de apoiá-la. Quando conscientizamos o público da nossa ética, das nossas exigências no set, e o fato de que somos testados, temos agência, que somos humanos autônomos e gostamos do que fazemos, isso ajuda as pessoas a ficarem mais confortáveis com o que consomem, e a entender nossa indústria um pouco melhor.

Você acha que isso significa que mais mulheres agora estão confortáveis assistindo pornô?

Sim, com certeza. Acho que o que faz uma mulher se sentir mais atraída por um tipo de pornô que outro é quando o prazer feminino é mostrado de maneira correta e autêntica. Se mostramos algo que não acontece na vida real, isso te faz perder o interesse. Com as mulheres dando as ordens no set, autenticidade é uma prioridade.

Como você garante a criação de um conteúdo mais autêntico?

Com o trabalho que estou fazendo agora com realidade virtual, um sentido autêntico de presença é importante; e isso cria um alto padrão para produções. Queremos trazer a RV para a cena adulta de um jeito que seja interessante e envolvente. Nosso objetivo é dar uma afeição recíproca para as pessoas, e ajudá-las a se conectar com o artista em níveis emocionais e cerebrais, além do erótico. Para fazer isso, pedimos aos artistas para mostrar a versão mais autêntica deles, porque quando algo não é autêntico, é muito fácil perceber.

“Não tem nada mais sensual que ver uma mulher ou homem realmente excitados”

Anna Lee, diretora e COO da PVR.

VICE: Quão comum é ser uma diretora de filmes adultos?

Anna Lee: É algo em ascensão agora, mas ainda é muito raro encontrar uma mulher segurando a câmera e também dirigindo.

Como isso pode mudar o clima no set?

Sets comandados por mulheres criam um ambiente onde os artistas se sente mais seguros para ir mais fundo emocionalmente, o que se traduz em sexo mais autêntico e realista na frente das câmeras. Tento criar um espaço onde, se você é um artista, você estará feliz trabalhando nele.

Como você busca autenticidade no conteúdo que faz?

Não tem nada mais sensual que ver uma mulher ou um homem realmente excitados. Quero que a pessoa assistindo o conteúdo que crio seja afetada – que sinta como se estivesse envolvida na experiência. No momento filmo principalmente em realidade virtual, e com RV todo momento em que você está filmando o espectador está na sala com você, ele é um participante ativo na cena, e você tem que abordá-lo e incluí-lo.

Como conteúdo criado por mulheres pode ser diferente das produções lideradas por homens?

Não acredito em filmar nada com que eu tenha um problema pessoalmente. Eu nunca filmaria algo onde você está mentindo ou escondendo, ou qualquer coisa que envolva incesto, mesmo que essas histórias vendam. Só filmo coisas que considero éticas.

“Artistas trans não estão limitadas a ser o fetiche de alguém”

Venus Lux
Venus Lux. Foto cortesia de Venus Lux

Venus Lux, atriz e CEO da Venus Lux Entertainment.

VICE: Fale um pouco sobre como a indústria mudou nos últimos anos.

Venus Lux: Quando entrei para a indústria em 2012, eu me sentia desconectada; eu me sentia como uma modelo que estava sendo empurrada de um lado para o outro, e era difícil construir minha própria voz e saber como causar um impacto. Não havia muitas mulheres trans em posição de poder para garantir que os personagens e roteiros fossem adequados e não ofensivos. Felizmente, estamos vendo essa mudança agora.

Que outras grandes mudanças você tem visto?

Temos muito conteúdo agora que humaniza o artista trans e ajuda a conscientizar sobre a comunidade trans em vez de fetichizá-la. Muitas grandes produtoras como a Grooby estão até mudando suas narrativas, e termos como “she male” e “traveco” estão se tornando datados. Estou feliz pela nova geração de garotas entrando na indústria agora, porque elas não precisam mais nadar tanto contra a corrente. Elas estão aprendendo que artistas trans podem ser o que quiserem, e não estão limitadas a ser o fetiche de alguém.

O que você acha que teve o maior papel nessas mudanças?

Poder ouvir nossas vozes e preocupações como trabalhadoras sexuais trans na frente e fora das câmeras. Acho que tenho sorte de me encontrar numa posição que me permite corrigir e educar as pessoas sobre como abordar e tratar pessoas trans. Ter essas conversas com pessoas no poder, e poder dizer “Sou uma artista e isso não é OK”. ou “essas são as minhas preocupações”, ou perguntar “o que vocês estão fazendo para trazer mais inclusão para o mercado trans?” está expandido esse mercado e conscientizando sobre a comunidade trans.

Mas isso é algo novo. Só recentemente descobrimos como combinar nossos poderes e vozes para não nos sentir como pedaços de carne. Entendo que somos trabalhadoras sexuais, mas também somos humanas.

O que mais é preciso ser feito para tornar a indústria realmente inclusiva para artistas trans?

As pessoas no poder são tudo. Elas controlam as finanças e dizem quem é pago e quem não é; elas dizem como o conteúdo é vendido e controlam a narrativa para a população geral de trabalhadoras sexuais trans.

Deveríamos ter mais espaço de fala. Precisamos de mais pessoas trans e não-brancas no poder. Precisamos tomar espaço porque há muito, e precisamos que mais pessoas se levantem para acabar com essa ideologia de que somos apenas corpos e não temos voz.

As entrevistas foram editadas para melhor entendimento.

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Matéria originalmente publicada na VICE Canadá.

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