Presidente das Filipinas, Rodrigo Duterte. Foto via Ted Aljibe/Getty Images.

É extremamente perigoso ser jornalista nas Filipinas de Rodrigo Duterte

Mas pessoas corajosas estão trabalhando muito para manter uma imprensa independente.

por Gianna Toboni; Traduzido por Marina Schnoor
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13 Novembro 2018, 7:43pm

Presidente das Filipinas, Rodrigo Duterte. Foto via Ted Aljibe/Getty Images.

Quando Rodrigo Duterte assumiu a presidência das Filipinas em 30 de junho de 2016, ele imediatamente lançou sua maior promessa de campanha: uma guerra às drogas. Desde então, homens mascarados, que muitos acreditam ser policiais, já mataram de 7 mil a 9 mil pessoas. Muitas das vítimas são pequenos traficantes ou usuários, enquanto algumas famílias insistem que as vítimas não tinham nenhuma ligação com drogas. Mas antes de Duterte ser empossado como presidente eleito, ele mandou uma mensagem sombria numa entrevista coletiva: “Só porque você é jornalista, isso não te exclui de assassinatos, se você for um filho da puta”, ele disse casualmente na entrevista. “Liberdade de expressão não vai te salvar, querido.”

Discussões sobre jornalistas sendo oprimidos geralmente se focam na Rússia, China, Turquia, Síria e México. O que muita gente não sabe é que fora de zonas de guerra, o lugar mais mortal para ser jornalista é as Filipinas.

Apesar de ser a democracia mais antiga do Sudeste Asiático e ter uma imprensa livre e independente, o jornalismo nas Filipinas tem uma história sangrenta. A versão resumida dessa história é que a imprensa livre nasceu da colonização espanhola e chegou à sua era dourada depois da libertação do controle japonês no final da Segunda Guerra Mundial. “Historicamente, foi a imprensa revolucionária que obrigou os filipinos a expressarem sua insatisfação com os poderes coloniais”, me disse Melinda Quintos de Jesus, jornalista filipina veterana e diretora executiva do Centro de Liberdade e Responsabilidade de Mídia, em seu escritório em Manila em janeiro. “Então acho que o papel histórico está profundamente incorporado com nosso senso próprio como comunidade democrática.”

Em 1972, o presidente Ferdinand Marcos declarou lei marcial, iniciando um período em que todas as mídias eram severamente controladas. Cory Aquino, a esposa de um líder da oposição assassinado, derrubou Marcos em 1986, e proteções constitucionais para jornalistas foram reestabelecidas. Desde então, os jornalistas geralmente conseguem fazer seu trabalho — apesar de algumas vezes colocarem suas vidas em risco para isso.

Mas em 2009, outra rodada de eleições trouxe o evento mais mortal para jornalistas na história do mundo em Mindanau, uma ilha no sul das Filipinas. Um grupo de repórteres cobrindo a candidatura de Esmael Mangudadatu, líder do partido de oposição da então presidente Gloria Macapagal Arroyo, estava viajando com a esposa para a Comissão Eleitoral, onde Mangudadatu faria sua inscrição como candidato. Antes do comboio chegar ao seu destino, um grupo de homens armados sequestrou e matou o grupo de 58 pessoas, que incluía mais de 30 membros da mídia. Os corpos foram desovados numa vala comum, e apesar de haver provas contra os perpetradores, ninguém foi condenado pelo crime até hoje. Mesmo com esse histórico nacional, as Filipinas nunca viu um presidente como Duterte, que ascendeu ao poder em 2016 e parece ter surfado também a atual onda de movimentos nacionalistas pelo mundo.



A abordagem de Duterte para lidar com o público pode parecer familiar: Quando tomou posse, ele só permitiu que a mídia estatal cobrisse o evento; repórteres independentes foram obrigados a ficar de fora. Em toda sua campanha, ele usou as redes sociais para divulgar sua agenda e assediar qualquer um que apoiasse seu oponente.

“A equipe de comunicação dele é muito inteligente — eles usam as redes sociais, manipulação da mensagem”, explicou de Jesus. Muitos suspeitam que a administração de Duterte contratou centenas de milhares de trolls para promover e assediar por ele. Jornalistas que desafiam o presidente encaram uma torrente de abusos, acrescentou de Jesus. “Eles podem esperar uma tempestade de respostas horríveis, incluindo ameaças, xingamentos, ser chamado de 'vendido' e de ser parte da 'imprenstituta'. Mas o pior é quando eles basicamente dizem 'Sabemos onde você mora. Sabemos seu número de telefone. Sabemos a escola que seus filhos frequentam. Sabemos onde sua família está'.” De Jesus continuou: “Você sabe que está sendo observado não só por pessoas comuns que te odeiam, mas por pessoas com poder para te investigar e rastrear."

Duterte se vende como um antielitista, o candidato do povo que não tem medo de falar o que pensa em público. Ele conseguiu apoio através de seu discurso ofensivo. Respondendo um repórter que perguntou sobre a saúde dele, Duterte disse: “Como vai a vagina da sua esposa? É fedida? Não é? Me passe o relatório."

Quando a União Europeia disse que ele deveria acabar com sua guerra às drogas, num discurso na televisão ele disse: "Li as condenações da União Europeia. E digo 'Foda-se'". Depois que o presidente Obama falou sobre suas preocupações com a violência da guerra às drogas, o presidente filipino chamou Obama de “filho de uma prostituta” numa entrevista coletiva. Quando o Papa Francisco visitou o país católico, Duterte reclamou: “Quero dizer: 'Papa, seu filho da puta, volte pra casa. Não nos visite nunca mais'."

Embora essa retórica possa parecer insana para um chefe de estado, ela está funcionando. No ano passado, a taxa de aprovação de Duterte era de 86%. Ele conseguiu intimidar grande parte da imprensa e fazer sua mensagem efetivamente chegar ao público.

Durante minha visita a Manila, participei do que achei que seria uma entrevista coletiva em que o chefe de polícia faria uma declaração sobre os esforços antidrogas no país. Mas na verdade, a cena foi mais parecida com um festival de música. Milhares de pessoas com pulseiras fluorescentes tiraram fotos de seus astros pop favoritos que se apresentaram no palco. Minutos depois que cheguei, ouvi gritos empolgados seguidos de uma debandada de policiais, protegendo alguém que achei que seria a Beyoncé filipina. Em vez disso, eles apresentaram “Deem as boas-vindas ao chefe de polícia Ronald 'Bato' dela Rosa!” Aí começaram gritos e flashes de celular. Execuções extrajudiciais, como milhares que aconteceram nos últimos sete meses, provavelmente estavam acontecendo na mesma noite em que milhares de adolescentes aplaudiam dela Rosa, a mente por trás da guerra às drogas de Duterte.

Logo ficou claro que aquele homem rechonchudo usando um uniforme policial largo estava ali para se apresentar. Acompanhando uma melodia parecida com uma música romântica dos anos 90, ele cantou “Se você precisa de progresso, se precisa de alguém para simpatizar, estarei aqui, estarei aqui."

No final de sua balada, dela Rosa falou com a multidão. “Espero que vocês apoiem a guerra às drogas. O presidente Rodrigo Duterte não tem outra intenção que não seja limpar as Filipinas”, ele exclamou, enquanto a multidão explodia em gritos de “Duterte! Duterte! Duterte!”

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A senadora filipina Leila de Lima numa entrevista coletiva no Senado. De Lima se manifestou contra o suposto uso de esquadrões da morte pelo presidente Rodrigo Dutere, apesar das ameaças contra ela. Foto via Ted Aljibe/Getty Images

A senadora filipina Leila de Lima tem sido uma das poucas vozes a desafiar publicamente o presidente. Quando Duterte era prefeito de Dávao, de Lima, então secretária da justiça, o criticou publicamente e investigou por seu suposto uso de esquadrões da morte. No mesmo dia que Duterte assumiu a presidência, de Lima foi eleita senadora, e 13 dias depois, ela introduziu uma resolução no Senado para investigar as já desenfreadas execuções extrajudiciais. Como resultado, dois meses depois dela assumir o posto, Duterte a depôs como presidente da Comissão de Justiça e Direitos Humanos do Senado. Na frente da imprensa, ele disse que ela devia se enforcar.

Sobre a campanha de sucesso de Duterte, a senadora de Lima disse: "É uma questão de propaganda. Eles são muito bons nisso. Eles estão condicionando, moldando e influenciando as mentes das pessoas, as fazendo aceitar o que é inaceitável."

Durante nossa entrevista, o telefone dela tocou, e vendo um número desconhecido ela disse: “Tenho recebido muitas mensagens de ódio e também ameaças de morte desde que a Câmara de Representantes divulgou meus números de telefone e até meu endereço”. Duterte tem atacado de Lima implacavelmente. Recentemente ele disse que ela estava comandando uma operação de drogas e fez uma acusação formal. Durante nossa entrevista, ela disse que sabia que Duterte podia realmente silenciá-la, seja por prisão ou morte. “Bom, eles estão dizendo que vão me destruir em um ano”, ela me disse. “Então digo a eles, se vou cair, vou cair lutando.”

Em 23 de fevereiro, um mês depois que a entrevistei, de Lima foi presa por acusações de tráfico de drogas e está na prisão desde então. Com a voz mais forte da dissidência atrás das grades, e a campanha para massacrar milhares de pessoas a pleno vapor, nunca houve uma época mais importante para ser jornalista nas Filipinas.

Aie Balagtas See é uma repórter policial em Manila, investigando os assassinatos registrados todas as noites entre 22h e 5h. Estranhamente, seu escritório fica dentro de uma delegacia. Na parede há uma frase dizendo a quem passa que nesse pequeno mundo, homens sabem como morrer. Tudo indica que esse é o slogan oficial do Departamento de Polícia de Manila.

Em janeiro, acompanhei See em seu expediente como abutre. Quando as ligações começam a chegar, os repórteres correm para suas caminhonetes e aceleram para a cena de um tiroteio. Os motoristas passam por sinais vermelhos e cortam enormes caminhões, sabendo que se não chegarem ao local em 30 minutos, a polícia vai remover os corpos e todas as provas, deixando pouco para os repórteres investigarem.

Quando chegamos numa cena de crime, a polícia já tinha passado a fita, e o corpo estava a uns 15 metros de distância. O porta-voz da polícia falou com os repórteres, explicando que o morto era um traficante armado que atirou nos policiais antes de ser baleado. Os repórteres locais chamam isso de “narrativa padrão”, sugerindo que a polícia usa uma história pronta em cada cena de crime. Os repórteres não puderam chegar perto do corpo, então não podiam corroborar a declaração da polícia, mas havia uma arma perto da mão da vítima. Depois de alguns minutos, uma fotógrafa sussurrou para See sobre as testemunhas da esquina, cujos quintais ficavam de frente para a cena do crime. Testemunhas disseram a ela que antes dos detetives aparecerem, não tinha uma arma perto da mão da vítima. Depois que a polícia cercou o corpo, a arma apareceu. As testemunhas tinham fotos de antes e depois 3 do corpo sem a arma e depois com ela — claras o suficiente para a Human Rights Watch publicar em um relatório sobre as execuções extrajudiciais em março. No final, See escolheu não publicar o que as testemunhas alegavam; ela não achou as imagens claras o suficiente.

"Tenho um enorme respeito pelos jornalistas filipinos. A razão para eles se autocensurarem é porque estão com medo... Eles não querem ser as próximas vítimas", me disse Peter Bouckaert, diretor de emergências da Human Rights Watch. Ele continuou: "Quando o presidente diz 'Só porque você é jornalista, isso não te protege de ser assassinado', ele está falando sério."

See diz que não teme por sua vida, mas entende a ameaça e acredita que o risco vale a pena. “Agora, somos historiadores diários”, ela me disse. "Como historiador, você é um espelho. Você coloca um espelho diante do rosto da sociedade e diz 'Olha, é isso que está acontecendo no nosso país, você gosta? E se não gosta, o que vai fazer a respeito?'"

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Aie Balagtas See, uma repórter, tenta chegar às cenas de crime o mais rápido possível para poder fotografá-las. Foto de Michael Lopez

Ameaças contra a imprensa em outros países nem sempre são tão descaradas quanto assassinatos. Nos EUA, o presidente Trump já assediou jornalistas individualmente em público e particular, chamando a imprensa de “inimiga”, e impedindo organizações de notícia consolidadas de cobrir entrevistas coletivas — atos mais leves de intimidação. Depois que ele tuitou que a mídia de “fake news” — onde ele incluiu as “fracassadas” New York Times, NBC News, ABC News, CBS News e CNN — é a inimiga do povo americano, o senador John McCain disse: "Se você quer preservar a democracia como conhecemos, você tem que ter uma mídia livre e muitas vezes adversária, e sem isso, temo que vamos perder muitas das nossas liberdades individuais com o tempo. É assim que ditaduras começam."

Os EUA sempre foram o padrão de ouro do jornalismo mundial, e defensores da liberdade de imprensa em países opressores usavam isso para pressionar seus líderes. Em muitos casos, as lideranças mudaram como resultado. Sem os EUA como exemplo, a situação para repórteres locais ao redor do mundo provavelmente só vai piorar.

Dois meses depois que deixei as Filipinas, homens armados em motos mataram Joaquin Briones, um colunista de jornal. A Força Tarefa Presidencial de Segurança da Mídia está investigando e já disse que presume que a morte teve relação com o trabalho dele. Até agora, ninguém foi formalmente acusado. Segundo o Centro de Liberdade e Responsabilidade de Mídia, só dois perpetradores de violência contra jornalistas já foram condenados na história das Filipinas.



O Comitê para a Proteção dos Jornalistas, uma organização global que defende liberdade de imprensa, respondeu ao caso dizendo: "Condenamos o assassinato descarado de Joaquin Briones e pedimos às autoridades para identificarem e trazerem os responsáveis à justiça. O presidente Rodrigo Duterte deve mandar uma mensagem clara de que sua administração não vai tolerar o assassinato de jornalistas."

“Uma sociedade democrática precisa de uma imprensa livre para funcionar”, me disse Balagtas See quando nos conhecemos. “Se você não tem um corpo independente — gosto de pensar que os jornalistas são o corpo independente cobrindo o governo — como as pessoas vão realmente saber o que está acontecendo atrás de portas fechadas?”

Gianna Toboni é uma correspondente da VICE na HBO. Alyse Walsh, Rica Concepcion, Emma Moley e Hendrik Hinzel contribuíram com essa matéria.

Matéria originalmente publicada na edição de junho da Revista VICE nos EUA.

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