Política

Será que os presidenciáveis estão levando o jovem a sério?

Vasculhamos os programas de governo dos 13 candidatos para saber como eles pensam em melhorar a vida da juventude brasileira.

por Eduardo Ribeiro
28 Setembro 2018, 4:35pm

Estudantes ocupam escola pública em Brasília, em 2016. Foto: Wilson Dias/Agência Brasil

“Eu vejo na tevê o que eles falam sobre o jovem não é sério, o jovem no Brasil nunca é levado a sério”, denunciou com muita propriedade o Chorão na letra de “Não é Sério”, do álbum Nadando com os Tubarões (Charlie Brown Jr.), no ano 2000. Era a voz popular do jovem do novo milênio atualizando o discurso de “Geração Coca-Cola”. De lá para cá tudo indica que o jovem continua não sendo levado a sério. Segundo uma pesquisa recente da Secretaria Nacional da Juventude, as maiores preocupações da juventude de hoje são segurança, emprego e saúde. Três pilares dos mais fragilizados no Brasil. Aí preocupa.

O levantamento mostrou que 67% dos entrevistados apontam a corrupção como um dos problemas que mais incomodam no país, seguido pelo poder dos traficantes, na opinião de 46% dos entrevistados. Além disso, 51% dos respondentes disseram já ter perdido um parente de forma violenta – homicídio ou acidente de carro.

Diante dessas tensas revelações, analisamos os programas de governo dos 13 presidenciáveis nas eleições 2018 para saber se eles pretendem, caso eleitos, levar o jovem mais a sério.

Álvaro Dias (Podemos)

Ao final de quatro anos, garante Álvaro Dias, a população vivenciará um aumento significativo na quantidade de empregos ofertados pelo setor privado, uma melhora substancial na segurança em todas as suas esferas, e poderá contar com um sistema de saúde eficiente e sentir os efeitos de uma significativa inclusão social e efetiva ascensão econômica do segmento mais pobre da população, que atualmente corresponde a quase 15 milhões de pessoas, segundo pesquisa recente do IBGE.

A eficácia da segurança pública é uma meta a ser atingida no que ele chama de “refundação da República”, assim como a sustentabilidade do ciclo de desenvolvimento econômico por meio da reconstrução de seus fundamentos.

Cabo Daciolo (Patriota)

Políticas públicas para a área da educação serão elaboradas em conjunto com políticas na área da economia, saúde, emprego e renda e assistência social. Embora não dê muitos detalhes, o programa de Daciolo afirma que as ações surgirão a partir de uma ação conjunta de políticos e técnicos e por meio da realização de audiências públicas nas diversas regiões e municípios do país a fim de adequar políticas às realidades da população.

Ciro Gomes (PDT)

Ciro vai oferecer cursos de curta duração voltados a “Nem-Nems” (jovens entre 15 e 29 anos que nem estudam, nem trabalham; 23% dos jovens nessa faixa etária encontravam-se nessa situação em 2017). As políticas em relação a este grupo terão um de seus componentes na criação de cursos de capacitação para facilitar a inserção no mercado de trabalho, revisão das atuais leis trabalhistas para que se adaptem às novas tendências do mercado de trabalho, alavancamento do empreendedorismo e incentivo para que empresas e trabalhadores realizem contratos de trabalho mais longos.

Entre as políticas específicas para o desenvolvimento e transformação dos jovens em cidadãos plenos, o candidato propõe:

- Implementação de espaços e mecanismos que ampliem a participação da juventude nos temas da gestão pública relacionados a ela e a sociedade, bem como a promoção de uma maior transparência e participação social;

- Estímulo à participação do jovem no planejamento nacional e elaboração das legislações orçamentárias, por meio do fortalecimento dos Conselhos de Juventude.

- Oferta de aprendizado profissionalizante para que os jovens tenham uma melhor inserção no mercado.

Eymael (DC)

O democrata cristão bota fé no ensino inclusivo, que descreve como “educação qualificada abrangendo todas as crianças e jovens portadores de necessidades especiais: mentais, motoras, auditivas e visuais”. A “sociedade do conhecimento” defendida por ele propõe acesso em todo o país, no plano escolar, ao uso de equipamentos de informática, internet e banda larga. O objetivo é preparar as crianças e jovens para serem “cidadãos do mundo”.

Eymael acredita no esporte como gerador de valores e oportunidades. Pensa em implantar o Pró-Amador – Plano Nacional de Apoio AO ESPORTE Amador Competitivo, reconhecendo sua importância na formação do caráter dos jovens e no combate às drogas. O programa de governo diz que vai promover também políticas públicas para integração da criança e do adolescente na prática do esporte em suas várias modalidades.

No pacote do DC, está a implantação de um sistema solidário de apoio à infância e juventude, compreendendo ações do Governo Federal em parceria com estados e municípios. Também pretende realizar parceria com a iniciativa privada e mecanismos para criação de empregos para jovens.

Fernando Haddad (PT)

As políticas para a promoção dos direitos das juventudes serão orientadas, no governo Haddad, pela busca permanente da autonomia e emancipação dos jovens, pela valorização e promoção da participação social, o reconhecimento do jovem como sujeito de direitos universais, geracionais e singulares, e pelo respeito à identidade e à diversidade individual e coletiva das juventudes, garante o programa.

O desemprego, diz a equipe do PT, é um dos grandes problemas que afetam os jovens. O governo petista, se eleito, promoverá o Plano Emergencial de Empregos, com foco na juventude, e investirá na inclusão qualificada no mercado de trabalho por meio da implementação da Agenda Nacional do Trabalho Decente Para a Juventude. Será retomada a expansão de matrículas no ensino superior e nos ensinos técnico e profissional. O governo também ampliará a participação da União no ensino médio, de modo a transformar essas escolas em espaços de investigação e criação cultural e em pólos de conhecimento, esporte e lazer, garantindo educação integral. Serão retomados, fortalecidos e ampliados os programas que valorizem e promovam os direitos das juventudes nos seus territórios rurais ou urbanos.

Haddad também propõe pacto nacional para elaboração e implementação do Plano Nacional de Redução da Mortalidade da Juventude Negra e Periférica. O paradigma de guerra às drogas, diz, será superado com mudanças nas políticas de segurança pública e com a abolição dos autos de resistência, além de programas e ações que compreendam o tema como uma questão de saúde pública, com forte atuação na educação, visando a prevenção do uso de drogas ilícitas.

Geraldo Alckmin (PSDB)

O tucano acha que o Brasil precisa voltar a crescer para que os brasileiros possam empreender, trabalhar, inovar, prosperar e criar suas famílias e negócios com segurança.

Para melhorar a educação, Alckmin garante um sério investimento na formação e qualificação dos professores. “Vamos transformar a carreira do professor numa das mais prestigiadas e desejadas pelos nossos jovens”, afirma o plano de governo.

Em relação à segurança, ele informa que vai atuar na prevenção primária e secundária ao crime nas áreas mais violentas do país, com atenção especial aos jovens, que são sua maior vítima.

Além disso, para geração de emprego entre a juventude, informa que vai fortalecer o ensino técnico e tecnológico, qualificando os jovens para atuar na nova economia.

Guilherme Boulos (PSOL)

Boulos tem um longo e detalhado plano para os jovens. A começar pelo alto índice de inadimplência no seio da juventude beneficiada com empréstimos do FIES, seu governo proporá uma moratória de um ano para as dívidas estudantis, seguido de um Programa de Refinanciamento das Dívidas a ser discutido com os/as próprios estudantes. O candidato não considera justo que os jovens, que segundo ele são os que menos possuem oportunidade de emprego em meio à crise, também sejam vítimas de penalizações dos bancos públicos.

Ele também propõe o programa Juventude Quer Viver, a ser aplicado nos 80 municípios que concentram a maior parte dos homicídios de jovens, em parceria com prefeituras, estados, ministério público, polícias civil e militar, órgãos de saúde com foco em proteção social e intervenção estratégica, com ações de: atendimento (oficinas, atendimento psicossocial e grupos de jovens), acolhimento e trabalho em rede.

Figura em seu programa de governo uma política de prevenção ao suicídio jovem, estrategicamente pensada a partir das condições que levam ao sofrimento psíquico, articulando transversalmente as políticas de saúde e assistência social com as demandas da juventude. O candidato do PSOL vai criar os Centros de Referência da Juventude, com gestão democrática e menos burocrática, pautada nos direitos humanos. Ele também pretende reverter os cortes do governo Temer nas bolsas de estudantes indígenas e quilombolas, com ampliação do acesso e das bolsas de permanência desses estudantes, e garantir o direito ao passe livre irrestrito.

Henrique Meirelles (MDB)

O programa do ex-ministro da Fazenda é bem sucinto em relação a uma política para a juventude. Diz apenas que vai “facilitar a inserção dos jovens no mercado de trabalho, expandindo a oferta de vagas no ensino técnico e incentivando o primeiro emprego”.

Jair Bolsonaro (PSL)

Bolsonaro quer implementar, em dois anos, um colégio militar em cada capital de Estado. Fora isso, também diz que vai fomentar o empreendedorismo para que o jovem saia da faculdade pensando em abrir uma empresa. São ideias que, segundo ele, mudaram países como Japão e Coreia do Sul.

“As universidades, em todos os cursos, devem estimular e ensinar o empreendedorismo. O jovem precisa sair da faculdade pensando em como transformar o conhecimento obtido em enfermagem, engenharia, nutrição, odontologia, agronomia, etc., em produtos, negócios, riqueza e oportunidades. Deixar de ter uma visão passiva sobre seu futuro”, diz o texto de seu programa de governo.

Jair Bolsonaro também pretende criar uma nova carteira de trabalho verde e amarela, voluntária, para novos trabalhadores. Assim, todo jovem que ingressar no mercado de trabalho terá de escolher entre um vínculo empregatício baseado na carteira de trabalho tradicional (azul) – mantendo o ordenamento jurídico atual –, ou uma carteira de trabalho verde e amarela (onde o contrato individual prevalece sobre a CLT, mantendo todos os direitos constitucionais).

João Amoêdo (Novo)

Educação de qualidade e conhecimento para que as crianças e os jovens possam construir seu futuro em um mundo em transformação. Assim descreve João Amoêdo sua meta para a juventude. O candidato promete ampliar o ensino médio-técnico para atrair e melhor formar os jovens para o mercado de trabalho. Ele acredita que é preciso criar alternativas para que cada vez mais pessoas deixem os programas assistenciais e passem a conseguir manter sua vida e sua família sem a dependência do Estado.

João Goulart Filho (PPL)

O candidato tem como compromisso a universalização do ensino médio e a criação das condições para melhorar a qualidade da educação básica pública. Para isso, visa adotar as seguintes medidas: 1) equiparar, ao longo dos quatro anos de mandato, o piso salarial do ensino básico ao piso dos Institutos Tecnológicos: R$ 6.064 para titular com graduação (dado de 2018); 2) unir os esforços da União, Estados e municípios para implantar a educação integral em tempo integral em todas as escolas, nos moldes dos CIEPS construídos por Leonel Brizola no Rio de Janeiro.

Marina Silva (Rede)

A escola deve ser um lugar atrativo para nossos jovens, na visão de Marina Silva. Ela pretende investir em infraestrutura adequada, salas de aula e locais de convivência e apoio didático, como quadras esportivas e bibliotecas. “Nossas escolas devem promover atividades que estimulem o interesse dos jovens e seu desenvolvimento integral, por isso, o uso de novas tecnologias nos processos de aprendizagem será incentivado, bem como o ensino de linguagens artísticas, como teatro, música, dança, audiovisual, promovendo uma forte aproximação entre educação e cultura.”

A candidata vê o acesso a espaços e atividades culturais como uma das principais demandas dos jovens e, por isso, precisa ser democratizado. Para isso, sua gestão pretende promover a educação artística, transformando a escola em espaço de ensino e difusão de arte e cultura, e revitalizar os pontos de cultura. “A produção cultural e artística será estimulada e apoiada, com a intensificação dos percursos de circulação de artistas pelo país, o fomento à produção cultural por meio de editais, bolsas e premiações e o estímulo à produção audiovisual.”

Consta também a promessa de investimentos em políticas de prevenção e combate à violência, priorizando ações específicas para frear o alto índice de homicídios de jovens negros no Brasil e o combate aos crimes de ódio ligados ao racismo. “Promoveremos a valorização da cultura negra e sua importância na história do país, a partir da ação conjunta de ministérios e entidades da sociedade civil.”

Vera Lúcia (PSTU)

Vera é partidária da descriminalização das drogas para pôr fim ao tráfico e à desculpa para se matar e encarcerar jovens negros. Para ela, “o controle da produção e distribuição deve estar nas mãos do Estado, e o vício e a dependência devem ser tratados como casos de saúde pública”.

“A juventude pobre e negra sofre um verdadeiro genocídio nas periferias”, argumenta no texto do programa. “Defendemos o combate ao racismo e ao mito da democracia racial: por reparação histórica, fim da superexploração e do genocídio da juventude negra e pobre, e o fim das desigualdades sociais entre negros e brancos.”

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