Crédito: Larissa Zaidan

Um papo cheio de re-sentimentos com Diomedes Chinaski

Conversamos com o pernambucano que é um dos MCs mais importantes da atualidade e faz seu primeiro show solo em São Paulo nesta sexta (23).

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22 Março 2018, 11:00am

Crédito: Larissa Zaidan

O Diomedes Chinaski é uma força da natureza. Sua energia no palco nos últimos dois shows do Don L em São Paulo faz crer que estamos diante de um grande MC, desses que sabem conduzir a massa, têm carisma e muito vontade de estar ali em cima. No dia 23 de março, nesta sexta-feira, ele estará na quarta edição da festa Rap Clandestino e dará, pela primeira vez, a oportunidade dos paulistanos verem o seu show solo.

No fim do ano passado ele lançou o EP Ressentimentos II, com beats do DJ Caíque e uma feliz combinação de rimas. Em tempos de escama só de peixe, Chinaski chega escamoso, galeroso e pesado. Trocamos uma ideia cheia de sentimentos com um dos MCs mais significativos desta geração.

NOISEY: Como rolou o lance com o Caique?
Diomedes Chinaski: O Mazilli é muito bom de trap, tá ligado? Não que ele não seja bom no estilo de Caique, mas ele não ouve, não gosta e não tem hábito. Não é o lugar natural dele o sample. Eu escuto muito Tyler, the Creator (inclusive fez um som recentemente pra ele) e eu já tinha feito Young Baby. Tava querendo fazer algum bagulho para mostrar a sonoridade que eu gosto de ouvir, independente da comercialidade.

Eu percebi que eu não ia ter um disco pronto, ia passar o ano batido. Eu tava com pouco dinheiro, então gravei tudo no quarto/estúdio de um amigo. Eu queria ter regravado milhões de coisas, mas não regravei, porque eu ia gastar muito mais.

Além disso, ele me chamou pra mixtape dele e me enviou uns 20 beats. De todos que ele me enviou, eu tirei só os melhores. Só as coisas raras.

Como nasceram as letras?
A maioria ou eu escrevi na hora que gravei ou escrevi antes de ir. Mas quase todas são rascunhos que eu vou editando com a mente quando vou lendo no celular. Faz muito tempo que eu não gravo uma letra que eu tenho decorada, eu só decoro depois que sai. Tem um bocado de música minha que eu não sei cantar.

Quais são os ressentimentos que você soltou neste álbum?
Ele aconteceu num momento muito ruim da minha vida em relação à família e à pessoas próximas. Muitas atribulações.

E por quê chamá-lo de Ressentimentos II ?
O meu primeiro EP, Ressentimentos, eu fiz quando era só um moleque. Vendi o celular pra gravar e minha mãe pensou que eu tava fumando crack. Qualquer jovem da época que vendia celular a família pensava isso, porque tava todo mundo fumando crack. Eu tava vomitando ódio e revolta de várias coisas. Eu falo palavrão pra caralho, falo “minha rôla”. E por incrível que pareça, depois que minha carreira seguiu, tem uma parcela dos meus fãs que ficou. “Eu gosto de Ressentimentos”. Então eu quis dar esse presente a esses fãs.

Foi a necessidade de lançar um disco no ano, essa amargura e essa necessidade de dar um presente a esse público, que ficou carente desse meu primeiro estilo.

E quem influenciou este estilo do seu primeiro EP?
Eminem e Tyler. Primeiro o Eminem, depois o Tyler.

Você tem os contatos dos seus amigos que estão nas fotos que ilustram as canções no Youtube? Sabe quem daquelas imagens está vivo?
Os das fotos eu não tenho contato mais, porém eles moram num bairro próximo. Eu nunca mais soube deles. Como minha mãe sempre morou de aluguel, a gente se mudava muito. Aquelas fotos são de um tempo em que minha mãe e meu pai eram casados. Eu nasci ali, mas logo depois das fotos eles se separaram e eu morei em vários lugares diferentes, na casa dos outros. Morei em vários bairros em Paulista (região metropolitana do Recife). Eu não tenho mais contatos.

Os meus amigos que morreram e que são significativos pra mim são os de Jardim Paulista. Eu mudei pra lá no auge dos grupos de extermínio. Esse grupo matou quase todos os meus amigos de infância e muitos parentes meus.

Sabe por que se morria?

A cor da pele?
A pele com certeza, mas o jeito de andar. Fumar maconha. Ser maconheiro nessa época já era ser bandido por esses caras. Era bairro pequeno, tinha uma mentalidade de coronelismo. Muitas letras que eu canto têm mais a ver com essa época do que com hoje.

Mano, você abre o EP com um sample de MC Troia e Dreadegg e Luiz Gonzaga. Tem algum motivo?
O brega funk é unanimidade na favela. O rap não chega nem perto do que é o brega lá. É a ideia do trânsito e de que você tá em Recife, porque só lá rola o brega funk. No final daquele verso de Luiz Gonzaga ele fala. “O santo Padin Ciço mandou a gente rezar”, eu não deixei o resto dele de propósito, porque é só pra quem sabe. No final ele fala. “E a maldade dos homens nos obrigou a matar”. A ideia é esse. Tu tás em Recife, o baguio tá doido, ouvindo brega e Luiz Gonzaga.

E nesse som tem o Miró da Muribeca.
Que pra mim é o maior poeta de todos os tempos. Eu nunca vi um bagulho daquele. Ele tá quase morrendo de cachaça, ele já até escreveu um livro sobre essa luta contra o vício. Há uma cultura dos poetas de Pernambuco que viver por aqueles bares, bebendo cachaça pra caraio, pegando bacurau no cais de Santa Rita (ônibus da madrugada), Carnaval, mulheres.

Miró é sensacional pelo mesmo motivo do Costa a Costa, porque ele escreve os versos da forma como o pernambucano fala. Tem um verso dele que diz: “urinei no Capibaribe, inundei o Recife”. Ele fala o popular, quando ele vai recitar um poema os olhos deles se enchem de lágrima e ele começa a chorar. É muito tocante vê-lo recitando o bagulho. Eu não consegui contato com ele, porque é difícil achá-lo mesmo.

Em "Herança Emocional" você fala, entre outras coisas, da dificuldade de chorar. Isso é uma herança? Você tem essa dificuldade?
Eu tenho. Isso é horrível.

Por que você tem essa dificuldade?
Porque eu já vi muita coisa ruim e acaba que você vai ficando frio, entende? Já mataram meu tio com 21 tiros, mataram meu primo, minha amiga, meus amigos, mataram uns três na minha rua.

E quando eu era mais jovem minhas roupas eram muito velhas, eu tinha a autoestima muito baixa. Como eu não tinha a mesma disposição dos moleques pra conseguir a Cyclone e a Sea Way. Não é que eu não tinha disposição, é que eu sempre via os moleques se foder e achava que não era vantagem. Eu pensava: "não vou tomar uns tiros na cabeça não."

Você tem que ter pelo menos um chapéu.

[Ele levanta a barra da calça e mostra uma meia camuflada]

Isso aqui é Cyclone. Original.

"Cocada de Sal, a Teoria" já nasce com cara de clássico e você dá essa ideia na intro. Como você ficou quando ouviu o beat a primeira vez?
Que beat, velho. Ela ainda tem um caráter introdutório, mesmo não sendo a primeira música. É um cenário. Essa música para os moleques que gostam de mim no Pernambuco é importante. Eu vejo isso pelas mensagens que eles me mandam, do jeito que eles escrevem, porque eles não sabem escrever direito. Eu sou esse mesmo moleque, mas só não sou assim, porque em algum momento da minha vida eu comecei a ler uns livros. Meu pai pegava reciclagem, trouxe uns livros, eu não tinha o que fazer e comecei a ler.

A música trata de explicar isso. Como é que eu vou exigir que esse moleque seja além daquilo? Eles não têm como fazer uma redação. Às vezes eles me mandam textos por Facebook e falam. “E comparsa, vê aí se tá massa pra eu postar?” Pra eu editar. É foda.

Agora eles estão sofrendo pra caralho com as feministas lá. Elas têm razão das cobranças que fazem, mas ao mesmo tempo elas deviam saber o caminho para chegar neles. É foda eu dizer o que acho desse assunto, tá ligado? Mas falando sobre eles. É preciso explicar muitas coisas para eles antes. Eles falam absurdos, porque não têm noção daquilo. Uma menina feminista de classe média geralmente não consegue ensinar ninguém.

"Nem Tudo É Só Dor" foi uma feliz surpresa pra mim. Qual foi a inspiração para esse som?
Assim como o Tyler faz no meio do disco, eu fiz. No meio da parada ele começa a "jazzar", a ficar gostoso. Eu ouço música gostosa de ouvir. A princípio era só o Luiz [Lins] fazendo o refrão, o instrumental e acabava. Pra mim esse beat é tão sensacional que era pra ser só isso, mas o Caíque não aceitou o fato do beat ser sensacional e eu não rimar no beat. Aí eu botei um verso pequenininho.

A ideia de Roger Waters é bem foda também. O rap é que nem o rock? E os boys, como eles atrasam o seu lado?
Não são os playboys aleatórios que estão nas ruas. O rap em Pernambuco é um circuito bem pequeno, tem o Arvoredo que é uma casa sagrada, porque são realmente as pessoas que viveram e vivem o hip hop. É a essência, mas existem os playboys que fazem umas festas e trazem os artistas daqui [São Paulo] pra tocar lá. Eles não queriam pagar 200 reais. Uma vez anunciaram o Chave Mestra e não tinha microfone no palco. Tudo era ruim. Pra pagar, eles faziam você ficar esperando e às vezes ainda queriam te pagar menos. “Sulicídio” foi muito mais por isso aí do que pelos rappers.

O ódio pelos playboys não era por uma classe. O pernambucano que vem de favela, quando ele está em um ambiente em que as pessoas não são de favela também, elas ficam com medo, com desprezo, com nojo.

Em "Memórias Póstumas de um Liricista" você dá uma breve ideia sobre algumas referências literárias. Fala da Flor de Lácio (língua portuguesa), cita Camões. O quanto a literatura é importante para suas rimas?
Eu lia muito e fazia rap. Aí eu percebi que era a mesma coisa. Comecei a ler os poetas latinos. Horácio, Camões. Aí eu vi a métrica de Dante Alighieri na Divina Comédia e achei um absurdo. Fui ver as traduções dos raps gringos e vi que os caras faziam um monte de multissilábica e fiquei fascinado.

Quando eu tô rimando, além de me imaginar competindo no mundo dos rappers, eu me imagino competindo no mundo dos poetas também. Porque eles também faziam diss. O rap é o último estágio da poesia.

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