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Negra Li se sente livre para assumir suas 'Raízes'

A cantora fala sobre seu primeiro álbum de estúdio em seis anos como um recém-adquirido sentimento de liberdade pra falar de suas origens.

por Amanda Cavalcanti
29 Novembro 2018, 9:00am

Negra Li no clipe de 'Raízes'. Foto: Divulgação

A primeira lembrança que eu tenho da Negra Li é a dela subindo ao palco para cantar "Não É Sério" junto ao Charlie Brown Jr. no Acústico MTV da banda, em 2000. Depois disso, eu a via com uma certa frequência entre os clipes que passavam no canal, fosse com o grande hit do R&B brasileiro nos anos 2000 "Você Vai Estar na Minha", fosse com seu dueto com o cantor D'Black, "1 Minuto".

Mas foi só anos depois que eu fui entender que a história de Negra Li ia pra muito além disso: em 1996, ela já fazia parte do grupo RZO, no qual permaneceu até 2004 antes de enveredar por sua carreira solo, onde também trabalhou o R&B e a MPB. Hoje, ela conta toda essa história no álbum Raízes, lançado na última sexta (23).

Primeiro álbum de estúdio da cantora desde Tudo de Novo, de 2012, Raízes é, segundo Negra Li, um disco sobre um recém-adquirido sentimento de liberdade pra falar de suas origens, de sua família e de tudo que a trouxe onde ela está hoje. E, seguindo a onda de gringas como Solange e brasileiras como MC Soffia, Negra Li fala de sua feminilidade e negritude usando seu cabelo como símbolo — o título Raízes, então, ganha ainda outro significado.

Por e-mail, entrevistei a cantora sobre suas diversas raízes e o processo de conceber o disco. Leia e escute Raízes abaixo:

Noisey: Você não lançava um disco de inéditas desde 2012. De onde veio a vontade de lançar Raízes?
Negra Li: O disco nasceu da liberdade que eu senti ao perceber que eu poderia fazer as músicas que eu gostava, da forma que eu gostava. Depois de passar por dentro de todos os estilos musicais, senti que poderia jogar tudo dentro de um caldeirão e quebrar as barreiras. Raízes é uma ode, é meu canto de liberdade. Nele eu consigo identificar todas as minhas experiências, todas as minhas vivências, me tempo de RZO, minha passagem pela MPB, minha família e meus filhos. O nome também não foi escolhido à toa, ele é um forte símbolo do que quero passar, queria que impactasse a primeira vista e já pudesse falar o que as pessoas vão ouvir.

Qual foi o primeiro vislumbre de Raízes que você teve — a primeira ideia pro disco, a primeira música?
Eu já tinha uma ou duas músicas encaminhadas há algum tempo, mas posso dizer que o primeiro momento do disco foi quando entrei em estúdio com os produtores e todos os compositores. Foi quando começamos a revisar as batidas, rever letras e colocar as ideias em ordem. Ali eu percebi que tinha sido abençoada e que seria um trabalho revolucionário. Aos poucos “Malandro Chora” foi tomando forma e se tornou o primeiro single, uma música com a batida leve e uma mensagem de empoderamento. Em todo o processo de produção e gravação eu só tinha uma coisa em mente, pensava a todo o momento “quero as coisas do meu jeito”.

Como funcionou o processo de composição e gravação do disco?
Foi um turbilhão de emoções e muito trabalho intenso. Lembro de um dia em que eu estava no estúdio gravando uma música, os compositores em outra sala revendo composições e em uma terceira sala alguns dos meus produtores produzindo os beats para a música seguinte. No final foram sessões muito leves, mas cheias de surpresas. Muitas coisas aconteceram de forma espontânea, sem serem calculadas no papel, acho que isso deu o clima do disco.

No disco, você cita Beyoncé e Lauryn Hill. Além delas, quem foram e são suas inspirações na música?
Acho que se eu for colocar no papel todas as minhas influências vamos ter que lançar um livro a parte da revista. Mas gosto sempre de dizer que me inspiro em todos os artistas que cruzaram meu caminho e que com certeza agregaram a minha carreira. Sou multifacetada, nos meus fones toca de tudo um pouco. Desde de SZA à Aretha Franklin.

Fale mais sobre o título e faixa-título do disco, "Raízes". Quão importante é essa representação da negritude pelo cabelo?
Não existe nada que identifique mais a raíz da mulher negra do que o cabelo black. O nosso cabelo é a nosso cartão de visitas. Uma mulher com o cabelo black bem armado não chama a atenção? Pois é, ter a noção de que esse diferente é lindo é importante, vejo tantas meninas que alisam os cabelos por terem vergonha. Sabe como é, sempre tem alguém que fala que tem que dar um jeito no “cabelo ruim”. Eu vejo a importância de quebrar esse estigma e celebrar, afinal de contas, a coroa que carregamos na cabeça é o cabelo.

Como rolaram as participações do Gaab, Seu Jorge, Cynthia Luz e Rael?
Como disse anteriormente, foi tudo muito natural. O Seu Jorge foi um convite que eu fiz, quando terminamos de compor “Eclipse Lunar” e ouvimos eu já tinha a certeza de que a voz dele seria perfeita. No começo achei que fosse daqueles sonhos que não seriam alcançados, ainda mais que agora ele mora nos Estados Unidos, mas ele ouviu a música e me chamou de volta, fazendo questão de participar. Já o Gaab foi ao contrário, ele passou na gravadora e mostrou uma música que tinha escrito pra mim. Eu amei e resolvi que deveríamos gravar juntos. Com a Cynthia Luz, fizemos a música na hora dentro do estúdio e ouvi a voz dela, naquela hora eu quis ela no meu disco e ela aceitou.

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Negra Li e Seu Jorge. Foto: Divulgação

Se reafirmar como mulher e, principalmente, como mulher negra é mais fácil hoje do que quando você começou sua carreira?
Acho que não é questão de ser mais fácil ou difícil. Ainda temos um problema inerente na sociedade, ainda tem muita gente que acredita que o racismo não existe, tem muita gente que não percebe o que os negros na periferia passam mas, hoje em dia, existe uma exposição maior dos problemas e uma rede maior de pessoas que lutam juntas para que possamos nos libertar e nos assumir como mulheres e negras sem medo do preconceito. Sei que tem muita gente que me apoia, isso torna mais leve essa reafirmação, por que sei que não estou sozinha nesta luta.

Você disse que, com esse disco, está tentando alcançar os jovens. De que forma você tenta fazer isso? O que acha que falta na geração atual da música popular no Brasil?
Neste disco tentei falar mais com o coração, falar daquilo que me fazia feliz e de tudo aquilo que me incomodava. Eu vejo que os jovens tem se mostrado mais abertos para esse tipo de linguagem. Juntamente com a mensagem, modernizar a produção das minhas músicas e trazer pessoas que nasceram numa época diferente e que vivem um momento diferente me ajudam a dar esse impacto, abrir esse canal de comunicação com os mais jovens. O Brasil tem uma produção quase em massa de novos artistas, temos muita gente boa que ainda não ganhou espaço na mídia tradicional, mas que já revoluciona a maneira como fazemos música.

No último ano, tivemos a ameaça diversos retrocessos em questões raciais e de gênero (e inclusive o assassinato da mulher negra, política e ativista Marielle Franco, que você cita no disco). Como ter forças para continuar na luta neste momento? E qual a importância da música e arte nessa luta?
Me peguei pensando a poucos dias sobre isso, e percebo que é este o momento que mais me motiva a continuar lutando. Eu cresci na periferia e vi muita coisa acontecer a medida que os anos foram passando, perceber que fomos ameaçados a um retrocesso me lembra sempre de uma frase “se é para dar um passo pra trás, que seja para pegar impulso para dar dois pra frente”.

O rap é justamente isso, é a arte da conscientização, é mostrar a mensagem de toda uma camada da sociedade que vive esquecida. A arte em um geral é a inquietação, é a necessidade de colocar a nossa crítica para fora do peito. A gente fala através da música, e essa fala que vai pra imprensa e mostra que lá no fundo da periferia tem gente sofrendo. A gente abre as portas para aquelas pessoas que nunca imaginaram que teriam voz.

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