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O Metal Open Air foi decepção em forma de festival

Era para ser um Wacken no Maranhão, mas tudo que poderia dar errado deu errado, e agora, sete anos depois, organizadores terão que indenizar o público.

por Luiz Mazetto
11 Janeiro 2019, 9:00am

Depois de quase sete anos, a turbulenta história do Metal Open Air (MOA) pode estar perto de chegar ao fim. Isso porque no mês passado a Justiça do Maranhão condenou os produtores do festival a ressarcirem e indenizarem o público por conta dos diversos problemas registrados no evento, que acabou sendo cancelado em meio à sua (turbulenta) realização no já longínquo final de semana de 20, 21 e 22 abril de 2012 — mais sobre a condenação ao final do texto.

Quando foi divulgado oficialmente, no final de 2011, o Metal Open Air prometia ser o maior festival de metal do Brasil. Tanto que a ideia inicial era que o MOA fosse uma espécie de versão brasileira do Wacken Open Air, o que acabou não acontecendo. Mas, mesmo sem o nome do icônico festival alemão, os planos anunciados para o evento eram grandiosos e chamaram a atenção de muita gente pelo país e pelo mundo, que se dispuseram a comprar ingressos, com valores entre 250 reais e 850 reais.

Além de um line-up estrelado, com nomes como Megadeth, Anthrax, Saxon, Venom, Blind Guardian, Destruction, Glenn Hughes, Obituary e o supergrupo Rock’N Roll All Stars, o evento anunciou uma estrutura com estacionamento, lago artificial, praça de alimentação, atividades recreativas, segurança motorizada, clube noturno e linhas de ônibus exclusivas, entre outras coisas. No entanto, como se sabe, as coisas não saíram como esperado.

Para se ter uma ideia, dos 47 artistas nacionais e internacionais que estavam programados originalmente, apenas 14 subiram ao palco do Parque da Independência, em São Luís. E os poucos shows que aconteceram foram realizados somente na sexta e no sábado, já que o festival nem chegou ao seu terceiro e último dia. As bandas alegaram motivos variados para os cancelamentos, incluindo problemas com cachê, passagens, hospedagem, vistos e comunicação com a produção, conforme reportagens publicadas na época.

O único dos headliners a tocar foi o Megadeth, que se apresentou no primeiro dia e fez “quase um pocket show”, segundo Wilfred Gadêlha, de 45 anos, que lembra que o vocalista e guitarrista Dave Mustaine ficava “reclamando o tempo todo” e encerrou a apresentação antes do previsto. A banda americana de thrash metal, aliás, foi a única que Amanda Loureiro, de 27 anos, conseguiu assistir entre as que queria ver no festival. Todas as outras, casos de Venom, Obituary, U.D.O, Blind Guardian e Rock’N Roll All Stars, acabaram cancelando as suas apresentações.

E não foi só isso, já que o público também sofreu com os problemas de infraestrutura do local. “Alguns dos meus amigos ficaram na ‘área de camping’ do festival, que, na verdade, eram estábulos, com tudo muito sujo e escuro. Também era difícil comer. As filas eram enormes, e a comida cara e de péssima qualidade”, aponta Amanda, que também disse ter enfrentado dificuldades para chegar ao festival.

Segundo Wilfred, o sentimento era de decepção ao ver que as coisas não estavam saindo como deveriam. “Foi uma decepção total. Via o amadorismo e a falta de respeito da produção com todos, sejam músicos ou público. No sábado, até mesmo a Polícia Militar chegou para evitar mais confusão. Eu fui um dos que convenceram os mais exaltados a não quebrar os equipamentos de som e luz, uma vez que também eram de prestadores de serviço”, afirma.

Mais especificamente, o Ministério Público do Maranhão cita os seguintes pontos em desacordo ao que foi prometido pela organização do MOA: “inexistência de lago artificial; ‘camping indoor’ situado dentro de um estábulo; banheiros e chuveiros insuficientes; inexistência de segurança, que resultou no furto de documentos e pertences dos consumidores; mercado de alimentação sem condições de higiene; falta de água potável e inexistência de boate.”

Decisão da Justiça

Conforme a decisão recente do juiz Douglas de Melo Martins, da Vara de Interesses Difusos e Coletivos da Comarca da Ilha, os réus Natanael Junior, Lamparina Produções Artísticas, Luiz Felipe Negri e Negri Produções Artísticas, terão de pagar indenização por danos morais aos consumidores prejudicados, cujo valor foi fixado em 3.541,83 reais por pessoa.

“As falhas ocorridas frustraram a expectativa de inúmeros consumidores”, afirma o juiz na sentença, que é resultado de uma ação iniciada em 2013 pelo Ministério Público do Maranhão e também prevê o pagamento de 200 mil reais por danos morais coletivos — valor que deverá ser revertido ao Fundo Estadual de Direitos.

Até o fechamento da reportagem, não conseguimos contato com os produtores do MOA, que ainda poderão recorrer da condenação. À Justiça, Luiz Felipe Negri e a Negri Produções Artísticas afirmaram “que a obrigação deles era apenas de contratar as bandas e disponibilizá-las no dia do evento”. Em nota enviada ao G1 no último mês de dezembro, Natanael disse que foi pego de surpresa pela condenação e apontou que o festival “só não foi concretizado por diversos descumprimentos contratuais por parte do Felipe Negri.”

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