Foto via Netflix.

Sem querer, a série da Marie Kondo mostra o trabalho invisível das mulheres

Os casais do programa são um exemplo de como nossas expectativas domésticas são baseadas em gênero.

por Nicole Clark; Traduzido por Marina Schnoor
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14 janeiro 2019, 2:56pm

Foto via Netflix.

Sempre fui muito boa em organização. Mergulho de cabeça nas minúcias organizacionais até o ponto da obsessão. Meus livros são organizados alfabeticamente por assunto, uso todas as minhas amostras grátis de maquiagem, e se você mencionar qualquer item da minha casa, sei dizer exatamente onde ele está. Quando criança eu queria uma etiquetadora – um presente que meus pais sabiamente não me deram – e eu passava horas pegando emprestado a máquina da minha tia sempre que ela nos visitava. Se alguma coisa pode ser organizada, provavelmente eu já organizei.

A parte mais importante é que descobri um jeito de lucrar com essa inclinação. Em 2016, depois de meses desempregada, decidi me tornar uma Marie Kondo de meio período. Fiz um classificado no Nextdoor com uma foto minha, uma menção a “ensino superior” e uma piadinha sobre adorar “jogar Tetris na vida real”. Coloquei minha taxa de serviço em 13 dólares a hora, perto da média para trabalho doméstico na Califórnia. Ninguém entrou em contato. Então decidi ser ousada – aumentei o preço para uma soma bem maior, $25 a hora, e acrescentei “consultora” no currículo. Em dois dias, as solicitações começaram a se acumular.

Marie Kondo tidying a garage
Foto via Netflix

O que descobri está bem de acordo com as histórias mostradas em Ordem na Casa com Marie Kondo, a série de oito episódios da Netflix que acompanha o trabalho da guru organizacional como consultora de arrumação. As pessoas estavam se afogando em prisões que elas mesmas criaram, sobrecarregadas com tanta bagunça que não conseguiam lidar com ela sozinhas, sofrendo para encontrar lugares para armazenar suas coisas. Ajudei um cliente a organizar dez anos de meias sem pares. Outro nunca tinha partido para a digitalização, e tinha uns 50 anos de papelada – recibos bancários, documentos de hipoteca, cartões de agradecimento, manuais de computadores velhos – que insistia em guardar em pastas numa série de armários. Enquanto eu trabalhava, ele se recusou a jogar qualquer coisa fora.

Os americanos aprendem a comprar coisas, muitas coisas, como um jeito de se sentir satisfeito e feliz. O impulso é tão apático quanto infeccioso, um band-aid para um problema que nenhum item material pode satisfazer adequadamente. O processo de acumulação eventualmente acaba dificultando armazenar coisas que realmente precisamos. Em 2012, o Centro de Vida Doméstica da UCLA (CELF) descobriu – num estudo sistemático com 32 famílias de classe média com renda dupla em Los Angeles – que só 25% das garagens realmente podiam armazenar carros, porque tinha um monte de outras coisas guardadas nelas.

Então não é surpresa que as práticas de “arrumação” de Marie Kondo tenham gerado um império de organização. A visibilidade da japonesa decolou depois da publicação de seu best-seller A Mágica da Arrumação (que Kondo na verdade escreveu para apaziguar uma longa lista de espera para seus serviços como consultora organizacional). Esse livro, além da continuação Isso Me Traz Alegria, vendeu mais de sete milhões de cópias no mundo todo, e o trabalho dela já foi traduzido para 38 línguas.

A verdade é que, enquanto somos ensinados a comprar coisas, pouca gente realmente aprende como ter coisas, a gerencia-las, nem as consequências de acumular em excesso, o que geralmente chamamos de “bagunça”. Bom, isso é meio simplista; mas são as mulheres, em particular, que ficam com o fardo da expectativa de gerenciar as coisas que temos. Coisas são domínio das mulheres, e o lugar onde essas coisas são armazenadas é domínio delas também. Mulheres armazenam coisas, organizam coisas, limpam coisas, separam coisas, agendam coisas. Não só fazemos essas tarefas, mas mantemos um banco mental de o quê, como e onde essas tarefas precisam ser feitas.

Isso se chama “carga mental” ou “tripla jornada” – uma jornada de trabalho depois do seu emprego de tempo integral e a realização dessas tarefas. E, sim, a “carga mental” é diferente do ato de realizar essas tarefas em si. Pense nisso como a tarefa de gerenciamento na casa. A quadrinista francesa Emma explicou isso resumidamente num quadrinho viral para o Guardian, que começa com uma mãe sobrecarregada preparando o jantar para convidados e os filhos. Quando uma panela transborda e suja o chão, o marido dela fica irritado e diz “você devia ter pedido! Eu teria ajudado!”

É interessante examinar as suposições desse homem fictício: primeiro, que ele precisa que alguém peça para ele participar, e segundo, a dedução de que ninguém ter pedido o absolve de fazer uma tarefa. Ter que pedir implica um gerente para comandar o relacionamento num casa. “Quando um homem espera que sua parceira peça a ele para fazer coisas, ele a vê como uma gerente das tarefas do lar”, escreve Emma. “Então depende dela saber o que precisa ser feito. O problema com isso é que planejar e organizar coisas já é um trabalho de tempo integral... quando pedimos a mulheres para cuidar da organização, e ao mesmo tempo executar uma grande parte dela, isso acaba representando 75% do trabalho.”

Então uma mulher fica incumbida das tarefas em si e de orquestrar essas tarefas, independente dela ter outro emprego. Na verdade, uma pesquisa da Bright Horizons – uma empresa de serviços de cuidado infantil – em 2017, com 2.082 adultos empregados com pelo menos um filho, descobriu que 86% das mães trabalhadoras diziam que lidavam com a maioria das responsabilidades da família e da casa, “não só agendando coisas, mais dirigindo até o destino e fazendo um calendário mental de quem precisa estar onde e quando”. Além disso, metade dessas mulheres disseram que estavam esgotadas.

Talvez as mulheres estejam tomando a maior parcela do planejamento do lar porque os homens estão fazendo mais tarefas por si mesmo? Não. Um estudo de 2016 do Gabinete Nacional de Estatísticas do Reino Unido descobriu que as mulheres fazem aproximadamente 60% do trabalho sem pagamento, ou 26 horas de trabalho não-remunerado por semana, enquanto os homens fazem 16 horas desse trabalho. As tarefas incluem cuidar de crianças e adultos, limpar a casa e lavar a roupa, e cozinhar (essa última com as mulheres fazendo duas vezes mais que os homens). Segundo a American Time Use Survey de 2017, num dia médio, 49% das mulheres faziam tarefas domésticas comparado com 19% dos homens.

Marie Kondo
Foto via Netflix

Esse tipo de organização interna geralmente é completamente cognitiva, e portanto invisível. E em vez de oferecer ajuda, ou agradecer as mulheres por seu trabalho imenso no gerenciamento do lar, as mulheres são vistas como chatas por lembrar os outros de fazerem tarefas. Mulheres de saco cheio disso escreveram relatos em primeira pessoa tentando viver sem esse calendário mental, muitos deles intitulados como algo do tipo “uma semana me recusando a aceitar a carga mental”. Na maioria das vezes, essas narrativas, independente da amostra limitada, acabavam com os homens fazendo uma agenda mental envolvendo pedir comida, ocasionalmente decepcionando os filhos ao esquecer de assinar uma permissão de viagem escolar ou de comprar sapatilhas para aulas de balé. O lar caía no caos.

Quando eu fazia organização, a maioria das pessoas para quem trabalhei eram mães recentes, muitas ainda de licença maternidade. A dificuldade era quase sempre a mesma – tentar equilibrar as tarefas de casa, enquanto amamentavam e tentavam se curar fisicamente do parto. Como se gestar uma vida humana, dar à luz, cuidar do bebê sozinha – estar sozinha, na verdade – não fosse o suficiente, também havia a tarefa de adquirir, organizar e manter cada item material para o sem bem, o bem do parceiro e cuidar do pequeno mamífero que seu corpo acabou de criar.

Muitas clientes me contratavam para lidar com os aspectos materiais do gerenciamento do lar, o que as deixava com mais tempo para dar atenção total ao seu bebê. Havia montanhas de roupas, quase todas que não serviam mais direito; roupas que, depois do parto, não cabiam; jeans muito apertados que desencadeavam decisões ansiosas sobre jogar fora ou perder peso; roupas de bebê de vários tamanhos, algumas já pequenas demais, outras ainda grandes. Havia incontáveis consultas médicas, sempre para o bebê e nunca para a mãe. Incontáveis caixas de lenços umedecidos e fraldas que eventualmente seriam usados. Durante esse processo, nunca vi um companheiro na casa.

Ordem na Casa com Marie Kondo finalmente torna esses desequilíbrios visíveis, nos convidando para o santuário de uma casa em desordem. Cada episódio conta uma história de “arrumação”, com um espaço e família diferentes, e cada um por uma razão diferente – mas ainda similar. A bagunça estava dominando o espaço. É hora de se livrar dela. E em vez de obscurecer desacordos domésticos, Ordem na Casa mostra casais (com exceção de um episódio focado numa viúva) no meio de completar uma grande tarefa doméstica, onde eles são obrigados a dividir o trabalho.

Quando incumbidos de organizar a casa, os homens e mulheres em Ordem na Casa tratam isso de maneira muito diferente. Pilhas de posses desorganizadas provocam preocupação e vergonha desproporcional nas mulheres, enquanto os homens parecem irritados mas não envergonhados pessoalmente. O terceiro episódio centra numa família que se chama de “fantastic four”, onde a mãe lida com toda a carga mental e maioria das tarefas.

“Pedimos a ela para 'procurar uma camisa especial'”, diz o marido Douglas Mercier a Kondo no começo do episódio. “Eu digo, 'onde está' e ela me diz onde.”

“Provavelmente eles te perguntam muito isso”, Kondo diz para Katrina Mercier.

Katrina confirma, exausta, mostrando seu gaveteiro, a única parte organizada da casa. Ela parece, compreensivelmente, cansada disso. Ela é a única a tomar conta do gerenciamento do lar, e não vai conseguir fazer tudo enquanto ainda trabalha em tempo integral. Apesar disso, ela assume a responsabilidade pelo jeito como a casa bagunçada afeta os filhos: “Definitivamente não estou preparando eles para vencer”. O marido sabe que depende dela para as tarefas da casa, mas não sabe realmente como fazê-las. Esse também é o motivo que ele dá pra não fazer essas tarefas.

Marie Kondo explaining her five step method
Screenshot via Netflix

Kondo então ensina os Merciers como organizar sua casa. O método KonMari diz que a arrumação deve ser feita num período concentrado – não durante um longo período – e que os itens devem ser separados por categoria, não por cômodo. Você começa com roupas, passa para livros, papéis, komono (cozinha, banheiro, garagem, miscelâneas), e finalmente sentimental. Os itens devem ser empilhados num espaço onde devem ser divididos, para serem revisados em sua totalidade. Todos os episódios seguem essas regras, no caso do espectador esquecer, então cada episódio pode ser visto sem ter assistido outros.

Aqui vem a parte polêmica: itens só podem ser mantidos se “trazerem alegria”. Segurar os objetos deve provocar uma sensação de “ching!”, que Kondo demonstra em Ordem na Casa. O processo na verdade é bem menos rígido na série do que alguns críticos retrataram; Kondo nunca intimida ninguém para se livrar de alguma coisa, e incentiva os clientes a manter ou remover temporariamente itens sobre os quais ainda não conseguem se decidir. Começando pelas decisões mais fáceis você “aprimora” sua sensibilidade à alegria, o que te permite revisitar decisões difíceis com uma consciência maior do seu próprio gosto.

Enquanto os Merciers navegam fazendo o KonMari pela casa, Douglas começa a participar mais ativamente dos trabalhos domésticos, como separar e dobrar a roupa lavada. No final ele admite: “Eu não percebia a pressão de ter que fazer tudo até ter que realmente fazer. Agora quero ajudar nessa parte muito mais”. Nesses momentos, o método KonMari começa a parecer extrema e sedutoramente útil. Fica muito claro que esses homens não participam das tarefas da casa nem se responsabilizam pelas crianças porque nunca esperaram isso deles. Numa única “arrumação”, homens e crianças ganham um insight do trabalho emocional de manter um lar.

Marie Kondo não parece propositalmente defender um maior equilíbrio entre homens e mulheres no trabalho doméstico. No site de consultores certificados KonMariTM, quase todos são mulheres. Apesar do elenco progressista e diverso que se tornou sinônimo da marca Netflix – os clientes em Ordem na Casa variam em idade, etnia e sexualidade – Kondo sempre atribui arbitrariamente a cozinha para as mulheres e a garagem para os homens na parte “komono” da arrumação. A série não mostra se esses casais discordam da divisão de trabalho, ou se uma conversa acontece antes ou depois dessa decisão ser feita. O casal gay arruma sua cozinha juntos, e não limpam a garagem.

Marie Kondo advises a couple
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No final, cada membro da casa é aconselhado a arrumar seus itens pessoais – o que já é uma mudança das mulheres simplesmente gerenciando as posses de todo mundo – antes de dividir a organização das categorias específicas. Como resultado, o programa demonstra repetidamente o poder da “arrumação” comunitária, revelando o trabalho emocional desvalorizado das mulheres. Mas esse parece mais um subproduto feliz. Kondo não oferece um subtexto intencional de dividir o trabalho doméstico, além de lembrar as mães de que crianças podem ser bagunceiras e que perfeição é mais ou menos impossível. Nem ela consegue ter tudo.

Isso também não significa necessariamente que os homens vão tomar parte da carga mental depois do processo de arrumação. Rachel e Kevin Friend – uma dona de casa e um marido que trabalha como gerente de vendas – procuram os métodos de Kondo para arrumar sua casa como um jeito de diminuir a tensão no relacionamento, e resolver suas brigas relacionadas com trabalho doméstico. Kevin repreende Rachel por pagar uma faxineira para lavar as roupas quando “é algo que você mesmo pode fazer”. Aí o programa corta para crianças gritando caoticamente, enquanto Rachel explica os desafios de alimentar e vestir os filhos. Mais tarde Kevin fica irritado porque “tem sete travesseiros nessa cama”.

Mesmo depois da intervenção de Kondo, Rachel continua a usar a linguagem de autojulgamento para descrever sua casa: “Não me deixo ser preguiçosa, quero fazer isso porque quero manter esse sentimento”. Isso implica que ela ainda é a principal proprietária das tarefas. Aí tem um episódio onde o marido branco, Aaron, repreende a esposa, Sehmita, por guardar os saris que ela nunca usa – e ela explica para a câmera que esses saris representam uma conexão com sua cultura paquistanesa, porque a cidade em que eles moram não tem uma comunidade forte de pessoas do Paquistão. Como tudo em seu closet, Kondo a encoraja a guardar seus saris se eles trazem alegria.

Pela televisão, Marie Kondo parece muito mais flexível do que eu tinha antecipado. Ela está disposta a se adaptar aos desejos dos clientes – como uma mulher em luto que pede para arrumar o closet do marido falecido (itens sentimentais) no começo do processo. O jeito como Kondo dobra camisas – que já foi destrinchado extensivamente – não é tão embasbacante assim. Ela nunca obriga ninguém a jogar seus livros fora. Vendo a coisa toda em ação, separar objetos que “trazem alegria” parece uma diretiva menos pesada, e mais como um atalho para facilitar a separação. Boa parte de uma grande faxina é identificar o que você não quer. Então é muito mais divertido identificar o que você realmente quer.

Em algum ponto da minha breve profissão como organizadora, ficou claro que a maioria dos meus clientes frequentes estavam me usando mais por companhia que por minhas habilidades organizacionais. Meu trabalho era ser uma mosca na parede, e eu estava considerando encerrar meu relacionamento com uma cliente em particular. Depois de trabalhar por três sessões, abordamos todos os cômodos que ela tinha me contratado para arrumar, e eu estava dando os toques finais numa tabela de dedução de itens. Quando eu estava pronta para abordar o término do nosso contrato informal, de repente ela decidiu fazer compras rápidas no supermercado, deixando seu bebê “num cobertor do seu lado”.

“Não me sinto confortável com isso”, eu disse. “Não entendo muito de crianças, não sou treinada em primeiros socorros. Estou aqui para te ajudar a se organizar.” Mas ela já tinha saído pela porta.

Continuei separando coisas. Em certo ponto o bebê estendeu sua mão pra mim, curioso, agarrando meu indicador com uma força surpreendente. Esperei sentir algum tipo de instinto maternal biológico. Em vez disso, fiquei sobrecarregada com tristeza e medo. De repente tudo me pareceu inevitável, a promessa fatalista de uma tripla jornada. Percebi que nunca quero fazer trabalho não-remunerado. A não ser que alguém esteja disposto a dividi-lo igualmente comigo.

Quando ela me mandou mensagem na manhã seguinte perguntando quando eu poderia voltar, eu disse que não estava mais disponível.

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