Os bastidores do novo documentário sobre o Fyre Festival da Netflix

“O que o fundador, Billy, queria mais que qualquer coisa – na minha opinião – era estar no centro de tudo. Ele queria ser 'o cara'.”

por Niloufar Haidari; Traduzido por Marina Schnoor
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22 Janeiro 2019, 9:00am

Esquerda: a comida servida no Fyre Festival; Direita: o fundador Billy McFarland tentando acalmar o público. Screenshots via Netflix.

No papel — ou melhor, na tela do celular — era para ser um “festival de música imersivo que beira o impossível”. No novo documentário do diretor Chris Smith para a Netflix, Fyre — sobre a “grande zona” que o Fyre Festival realmente foi — vemos uma filmagem do empreendedor de tecnologia e fundador do Fyre, Billy McFarland, dizendo para um punhado das maiores supermodels do mundo que eles estavam “vendendo um sonho louco para o fracassado médio”. O que realmente acabou acontecendo está em algum lugar no meio disso.

Para quem não foi afetado pela coisa toda, o Fyre Festival parecia um alívio temporário para um fluxo interminável de más notícias. Um bando de garotos ricos pagaram até $12 mil por uma “experiência” cujo único marketing real tinha sido a Kendall Jenner e seu #squad postando um quadrado laranja no Instagram, e encontraram colchões encharcados pela chuva, tendas de ajuda humanitária para desastres, comida ruim, e principalmente... nenhum festival? Para quem odeia ricos, é uma visão muito divertida, até você perceber o impacto que a ganância e a ilusão de McFarland tiveram nos moradores locais nas Bahamas.

O Fyre Festival foi o primeiro empreendimento do tipo a realmente se aproveitar do poder das redes sociais — os ingressos se esgotaram em menos de dois dias, apesar de ser um festival novo e oferecer pouquíssima informação sobre sua logística — mas também foi o primeiro a encontrar uma morte tão viral e pública. Parafraseando a Bíblia: O que o Instagram dá, o Twitter tira. Ou, como um dos entrevistados disse: “Modelos poderosas construíram esse festival, aí uma foto de uma torrada com queijo acabou com o festival”. Mas como tudo na vida, tem muito mais coisa sobre o gigantesco fiasco do que parece na primeira impressão.

Falei com o diretor Chris Smith sobre o documentário — coproduzido pela VICE Studios, Jerry Media e Matte Projects — por telefone de Nova York.

VICE: Por que você decidiu fazer esse documentário?
Chris Smith: Acho que, como muita gente que viu as manchetes e testemunhou a implosão da coisa toda [no Twitter], fiquei curioso para saber o que tinha por trás dessa história.

E como você começou depois disso?
Naquele ponto [setembro/outubro de 2017], eu tinha acabado de terminar outro filme. Acabamos nos encontrando com uma jornalista da redação da VICE US que cobriu o Fyre para uma longa entrevista, passando por tudo que ela sabia, e disso começamos a entender a paisagem de quem estava envolvido e qual era a história. Ela nos deu alguns contatos, e disso, nossa grande entrevista seguinte foi com o organizador, Marc Weinstein. Foi quando percebemos que tinha um filme ali. Acabamos fazendo uma entrevista de três horas e meia com ele, e tivemos uma boa visão do que aconteceu. Pensando agora, isso não era totalmente evidente com o que tinha saído na mídia. A partir da cobertura que existia, tinha uma história muito mais interessante para contar.

Você deve ter visto o fiasco do Fyre se desenrolar no Twitter como todo mundo; não sei se você achou engraçado, mas foi uma história hilária pra muita gente. Mesmo assistindo o documentário, ainda é engraçado. Você não fica com pena desse pessoal — eu pelo menos não fiquei — até perceber o que aconteceu com os trabalhadores e moradores da ilha.
Fiquei muito triste pelos bahamenses. Minha ideia era colocar um rosto no festival, tornar isso algo com que fosse possível se identificar, para entender como o caso se desenrolou e como tudo aconteceu. Os envolvidos, que não era só um monte de gente atrás de diversão, eram profissionais tentando fazer seu trabalho do melhor jeito possível, com obstáculos imprevisíveis que continuavam surgindo. Falando dos bahamenses — uma das coisas que MaryAnn [uma dona de restaurante que acabou perdendo $50 mil de suas economias com a zona que o Fyre deixou para trás] disse, parafraseando: “Eu adoraria ver o que aconteceria se os bahamenses fossem para outro país, fizessem uma coisa dessas e tentassem sair”. Seria um escândalo. Mas essas pessoas vieram para o país deles, fizeram essa merda e foram embora, e não houve repercussões. Ela também sentia que o governo não os protegeu.

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Uma das postagens no Instagram promovendo o festival. Screenshot: Netflix.

Você acha que eles vão receber alguma indenização, ou que algo bom pode sair desse documentário para eles?
Falamos com a MaryAnn na semana passada, na verdade. Estamos trabalhando há meses para fazer uma conta no GoFundMe pra ela, porque de todo mundo que assiste o documentário, a primeira pergunta que fazem depois de toda exibição é: “Como podemos ajudar a MaryAnn?” A história dela se destaca pelo sacrifício que ela fez, e o efeito que a história teve nela e em seu negócio.

É uma vergonha que houve grandes processos, como o blogueiro que conseguiu um acordo de $2,5 milhões, enquanto ela ficou sem nada?
Você tem que perceber que esse acordo de $2,5 milhões é simbólico — é muito improvável que ele veja esse dinheiro. Ele está na fila atrás de uma indenização de $27,4 milhões [que Billy McFarland foi condenado a pagar], pelo que sei. A pessoa que deveria pagar isso está na cadeia [por seis anos]. Acho que a coisa que mais me surpreendeu é que esses caras voltaram das Bahamas e continuaram com esse estilo de vida, sabendo que essas pessoas lá fizeram de tudo para tentar te ajudar.

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Ja Rule e Billy McFarland.

Você gostaria de falar um pouco sobre o que acha de McFarland depois de fazer esse filme? Você tentou abordá-lo em algum ponto?
Acho que ele é uma pessoa complicada, e é isso que o torna um personagem tão interessante e enigmático para o filme. Fizemos uma pesquisa sobre ele: deveríamos filmá-lo em duas ocasiões — onde a gente já tinha marcado e estávamos prontos pra filmar — mas ele sempre adiava. E aí, no final, ele queria ser pago. Achamos que não deveríamos pagar; tantas pessoas sofreram de várias maneiras como resultado do festival, então parecia muito injusto.

Acho uma loucura ele ter a audácia de pedir dinheiro.
Depois de ver o filme, parece mesmo?

Verdade. O que você acha que o filme diz sobre a condição humana e a disposição das pessoas de só... seguir a onda?
Acho que tem uma tendência de querer acreditar que algo é real. É uma extensão das redes sociais, onde geralmente colocamos nosso melhor lado para o público. Acho que o filme toca nessa ideia de percepção versus realidade, em vários níveis. Eles venderam esse festival de luxo que era bom demais para ser verdade — e no final, não conseguiram entregar. Aí você tem a percepção do próprio Billy: ele tinha uma Maserati, morava numa cobertura e viajava de jatinho particular. Ele tinha essa ideia de que se você aparentasse ter sucesso, as pessoas iam acreditar que você tinha sucesso. Ele dizia que sua empresa estava fazendo milhões de dólares, quando na verdade ela só valia $660 mil. Essa ideia de percepção e realidade não estava ligada só ao que eles venderam como o festival — isso estava na vida dele também.

Num ponto do filme, Andy King, um dos produtores do evento, diz que 24 horas antes do festival, ele só conseguia pensar em Woodstock — como ninguém fala sobre as overdoses, a falta de comida e os congestionamentos que duraram dias — e que se Woodstock conseguiu se safar disso da perspectiva do público, talvez o Fyre Festival também pudesse. Obviamente, Woodstock teve bandas realmente tocando, o que é uma grande diferença, mas também era uma época totalmente diferente. É interessante imaginar que o Woodstock não teria sobrevivido de uma perspectiva pública se tivesse acontecido na era das redes sociais e atualizações ao vivo.
Quando as pessoas saem das exibições, todo mundo sempre tem uma opinião muito forte sobre o mundo e o que aconteceu. Em em tratando do Woodstock, é muito difícil dizer: Tem um ponto aí, se as pessoas tivessem visto o desastre que era tentar chegar no festival, talvez isso tivesse um impacto nele. Mas na época, o calibre das bandas era diferente. As pessoas estavam dispostas a aguentar tudo aquilo para ver aquelas bandas ao vivo.

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As "acomodações" do Fyre Festival. Screenshot: Netflix.

Você acha que vivemos num mundo onde ninguém se importa com o que realmente acontece, desde que tenha uma boa foto para postar no Instagram? Pessoalmente, senti que muita gente foi pra lá só para poder se gabar na internet, e se a coisa parecesse mesmo incrível, elas não teriam se importado com mais nada.
Acho que a memória é substituída com o que é representado nas redes sociais ou nas fotos. Marc Weinstein — essa é uma anedota que não entrou no filme — falou sobre como ele sempre trabalhou em festivais, e via as pessoas passando por diversos perrengues, mas pelos perfis delas nas redes sociais, você podia jurar que elas estavam se divertindo pacas. E um ano depois, você vê aquela foto e começa a pensar que aquele festival foi muito legal mesmo.

Ele fez algo similar durante o Fyre Festival, certo? Postou uma foto da vida nessa praia idílica no Instagram, enquanto na verdade ele estava totalmente estressado e sob uma enorme pressão para conseguir acomodações que não existiam para mais de mil pessoas.
Sim! Essa é uma das minhas entrevistas favoritas, porque ele conseguiu passar por toda a experiência, dar um passo atrás, refletir sobre a história, e ver que eles eram os culpados — recomendo ler o texto que ele escreveu no medium sobre o caso. E todo mundo faz isso, esse é o ponto. Talvez não tão extremo assim, mas em termos disso ser um reflexo de onde estamos agora, é muito correto. Mas acho que estamos começando a ver uma reação negativa a isso: No Ano Novo, vi muita gente postando coisas como “fui pra cama antes da meia-noite”, sabe? As pessoas estão começando a abraçar essa noção de que as redes sociais precisam ser um reflexo da nossa realidade. Mas talvez seja só a modinha agora, não sei.

O que você acha que isso diz sobre a nossa sociedade, agora que temos tantas histórias sobre golpes circulando?
Bom, é mais interessante do que contar uma história sobre alguém que acorda todo dia na mesma hora e vai trabalhar! Billy era enigmático. Uma coisa que tenho que admitir é que eles estavam tentando fornecer uma experiência que fosse diferente de tudo. Acho que o Fyre é um testemunho de que as pessoas estão procurando por algo diferente, por essas experiências, e pra mim isso era... o mundo que ele tinha criado. Foi um crime, mas acho que é muito mais complexo do que você teria imaginado pelas manchetes, que eram simplesmente “um bando de moleques ricos foram pra uma ilha e não conseguiam voltar.”

Então você acredita que não era para ser um golpe, que McFarland realmente queria que o Fyre Festival acontecesse?
Sim, com certeza. Pense assim — não existe um golpe onde você manda pessoas para uma ilha e não tem nada lá! Nunca daria certo. O que o fundador, Billy, queria mais que qualquer coisa — na minha opinião — era estar no centro de tudo. Ele queria ser “o cara”, e acho que criando esse festival com algumas das maiores top models e influencer do mundo, era realmente o que ele queria. Continuar seu estilo de vida e estar no centro das atenções.

Você acha que ele pode voltar e recuperar o estilo de vida que ele tinha antes?
Não tenho dúvida que o Billy pode ter sucesso. Ele é muito focado, determinado, ele é inteligente, e acho que ele aprendeu muito com essa história.

Fyre Festival: Desastre no Caribe está disponível na Netflix.

Matéria originalmente publicada pela VICE UK.

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