Ilustração: Cassio Tisseo

Tereza Cristina: a “musa do veneno” coloca de vez o agronegócio no poder

Na série que apresenta os ministros do presidente eleito do Brasil, a VICE conta a história da dona da pasta de Agricultura, Pecuária e Abastecimento.

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28 Dezembro 2018, 8:39pm

Ilustração: Cassio Tisseo

“Agro é tech, agro é tudo, agro é pop”, diz a propaganda institucional veiculada pela maior emissora de TV do país, muitas vezes em horário nobre. Embora contestada por ambientalistas e defensores da agricultura familiar, e por Guilherme Boulos no debate global do primeiro turno, o fato é que a indústria do agronegócio chegou definitivamente ao poder no Brasil, e nada mais simbólico para isso do que a ministra da Agricultura escolhida por Bolsonaro, Tereza Cristina Costa Dias.

Nascida em Campo Grande, em família tradicional ligada ao agronegócio, ela deixou o Estado na juventude para cursar Engenharia Agronômica em Viçosa, no interior de Minas, mas logo voltou para casa e começou a se envolver com política ao ser chamada a ocupar a Secretaria do Desenvolvimento Agrário do Mato Grosso do Sul pelo então governador André Pucinelli, em 2007. Ocupou outras pastas e em 2014, filiada ao PSB, candidatou-se com a sucesso a um cargo na Câmara dos Deputados.

Em Brasília, notabilizou-se pela defesa de pautas favoráveis ao agronegócio. A principal delas, confirmada neste ano, foi a “PL do Veneno”, assim chamada pelos críticos, que flexibiliza o uso de agrotóxicos em plantações. Tereza foi a presidente da comissão especial que aprovou o projeto – agora parado na fila para ser votado pelo plenário da Câmara, o que só deve acontecer no ano que vem. A atuação em defesa do projeto rendeu à futura ministra o jocoso apelido de “Musa do Veneno”, da qual, registre-se, nunca reclamou publicamente.

Essa atuação, aliás, já foi por outra legenda, o DEM. Em 2017, quando ocupava a liderança do PSB na Câmara, Tereza encabeçou um grupo de quatro deputados que, descontentes com a oposição dos socialistas ao governo Michel Temer, saíram do partido em busca de legendas mais amigáveis ao presidente. Ela se reelegeu deputada neste ano, contando na campanha com polpudas doações de empresários ligados à indústria de defensivos agrícolas – nada ilegal, pois foram doações de pessoas físicas dentro do limite de renda de cada um dos doadores, mas bastante discutível do ponto de vista moral, pois deixa muito claro a serviço de quem está o trabalho da futura ministra.

Discreta, Tereza não é dada a arroubos, não usa redes sociais com excessos e nem mesmo faz seu lobby pessoalmente – acostumada a lidar nos bastidores, sua indicação ao ministério foi feita por um grupo de entidades ligadas ao agronegócio, durante reunião com o presidente. Sua discrição lhe deu vantagem na hora da decisão, fazendo Bolsonaro desistir de um aliado de primeira hora: Nabhan Garcia, presidente da União Democrática Ruralista (UDR), que acabou “consolado” com o posto de secretário especial de Assuntos Fundiários.

Colocar um inimigo notório do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra) como Nabhan no governo é um sinal claro dado pelo governo Bolsonaro, que sempre prometeu “linha dura” no combate aos “crimes no campo” – ainda há em muitos militantes o temor de o movimento seja declarado terrorista logo nos primeiros dias de governo. Mas na semana passada o lado “moderado” falou mais alto, avisando que Nabhan não terá alçada para rever a demarcação de terras quilombolas e indígenas, horas depois de o futuro secretário fazer tal declaração. Bolsonaro já avisou que pretendia rever a demarcação da reserva Raposa/Serra do Sol.

Outra bomba que pode estourar nas mãos da ministra é o anúncio, também feito por Nabhan Garcia, de que Bolsonaro vai cumprir a promessa de campanha de perdoar dívidas antigas de ruralistas avaliadas em R$ 17 bilhões. Trata-se um projeto de lei que tramita desde 2017 no Congresso para perdoar dívidas antigas com o Funrural (Fundo de Assistência ao Trabalhador Rural).

Não se sabe o que o “posto Ipiranga” Paulo Guedes, ministro da Economia e dono do cofre, tem a dizer sobre isso. Pode tudo ser apenas mais um morde-assopra típico das ações bolsonaristas, ou seja, pequenos movimentos que atiçam e acalmam opositores, críticos e até mesmo seguidores nas redes sociais, a fim de ocultar ações mais graves. Mas fica a amostra de que não há visão mais errada do que aquele pacifismo quase entediante de quem enxerga o campo com o pé nas grandes cidades: os próximos tempos serão bastante agitados no meio rural.

Nome: Tereza Cristina Corrêa da Costa Dias
Idade: 64
Ministério: Agricultura, Pecuária e Abastecimento
Formação: Engenheira Agronômica, pela Universidade Federal de Viçosa (MG)
Partidos: PSB/DEM

Acompanhe os perfis de todos os ministros do Brasil na série A banca de Bolsonaro . Novos textos às terças e sextas-feiras.

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