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A incrível história do mafioso real que estrelou em 'O Poderoso Chefão'

Marlon Brando foi o único professor de atuação de Gianni Russo. Frank Sinatra seu único professor de canto. Ele tem muitas histórias pra contar.

por Seth Ferranti; Traduzido por Marina Schnoor
20 Março 2019, 10:00am

Fotos de Gianni Russo cortesia TK.

Em 1988, um traficante do Cartel de Medellín estava assediando uma mulher em State Street, um clube e cassino de Las Vegas propriedade do ator Gianni Russo, que interpretou Carlo Rizzi no icônico filme de máfia de Francis Ford Coppola O Poderoso Chefão. Quando Russo interferiu, o colombiano quebrou uma garrafa de champanhe na cara dele. Sangrando muito e armado legalmente, Russo sacou sua arma e deu dois tiros na cabeça do homem. O homicídio foi considerado legítima defesa, mas Russo ainda teve que lidar com um prêmio colocado por sua cabeça por ninguém menos que Pablo Escobar. Mas quando El Patrón descobriu que Russo tinha atuado no filme, um dos preferidos dele, Escobar voltou atrás.

Correspondendo ao aniversário de 50 anos da publicação de O Poderoso Chefão de Mario Puzo, Russo lançou Hollywood Godfather: My Life in the Movies and the Mob, um livro de memórias que detalha sua associação com mafiosos infames como Frank Costello, Carlo Gambino e Carlos Marcello, e celebridades de Hollywood como Frank Sinatra, Marlon Brando, Al Pacino, Marilyn Monroe, Elvis e Francis Ford Coppola. A VICE falou com Russo sobre seu livro fascinante, como a máfia impactou sua vida, como ele conseguiu o papel em Poderoso Chefão, e se alguém sabia que o filme se tornaria um clássico.

VICE: Quando e por que você decidiu escrever um livro sobre a sua vida, e quanto tempo levou para terminá-lo?

Gianni Russo: Esperei um pouco. Tenho mais de 75 anos agora. Eu queria escrever o livro, número um, como um livro inspirador. Isso pode parecer loucura com o material que está nele, mas tem um motivo. A última frase do livro é “Sim, você pode”. Passei por tantos obstáculos quando jovem que queria encorajar as pessoas – não importa a cor da pele ou a origem – que se você tem um sonho, corra atrás. Superei muita coisa no começo da minha vida e aí fiz tudo que eu queria. Eu queria mandar uma mensagem, [não só para] meus 11 filhos e netos, mas para o mundo. Por isso escrevi esse livro.

Como você encontrou a máfia e como ela impactou sua vida?

Fui mensageiro para Frank Costello por muitos anos. Ele era um dos criminosos mais fortes do mundo. Eles o chamavam de “O Embaixador”. Ele ascendeu durante a lei seca com Joe Kennedy e eles se tornaram multimilionários. Aí eles ramificaram com Mayer Lansky para criar “O Sindicato”. No começo da minha vida, felizmente, ele me colocou sob sua asa e foi um mentor que ninguém mais poderia ser. Ele me deu experiências e oportunidades que eu nunca teria sendo um imigrante italiano da Mulberry Street. Minha família estava abaixo da classe média. E hoje estou aqui.

Ainda estou envolvido com a máfia porque todos os meus amigos eram da máfia. Pessoalmente, não sou parte da máfia, mas eles me protegeram, Gambino e Costello. Comecei como mensageiro na adolescência e fui ascendendo. Comecei a viajar pelo mundo com as associações que eu tinha em Chicago e Vegas. Entramos em mercados internacionais com lavagem de dinheiro e marketing. Esse era o básico da coisa toda.

Como você conseguiu o papel de Carlo Rizzo em O Poderoso Chefão e como é ser parte de um filme tão icônico?

Não sei o que teria sido minha vida nos últimos 50 anos sem O Poderoso Chefão. Li uma matéria no Los Angeles Times dizendo que eles iam usar desconhecidos [no filme]. Sicilianos seriam sicilianos, médicos judeus seriam médicos judeus [e assim por diante]. Felizmente, eu era bem financiado naquela época. Gravei testes para o Michael, Sonny e Carlo. Mandei para a Paramount e eles responderam com uma carta dizendo: “Desculpe se você entendeu mal, e parece que você gastou muito dinheiro para produzir esses testes em vídeo, mas vamos usar atores reais, desculpe, mas não vamos te contratar”.

Felizmente, a Liga Antidifamação Italiana foi fundada por Joe Colombo em Nova York um ano antes, e quando o livro [de Puzo] saiu, isso deu a ele uma grande oportunidade de usar o livro considerando a negatividade de como ele mostrava os ítalo-americanos no país. Eles não eram todos mafiosos. É irônico, porque ele era um mafioso, reclamando disso, fazendo piquete na frente do prédio do FBI, o que era uma loucura.

Usei isso como uma oportunidade para me tornar um intermediário entre a Paramount, Colombo e a Liga Antidifamação Italiana. Negociei um acordo onde eles permitiriam que o filme fosse gravado em Nova York, e eu interpretaria Michael, Sonny ou Carlo, e a Liga ia controlar os eventos da estreia em toda cidade para levantar dinheiro. Foi assim que ganhei o papel.

Quando você está filmando com Francis Ford Coppola e todos os atores, você ou alguém já imaginava que o filme seria tão grande?

Ninguém sabia. Na verdade, enquanto estávamos filmando, fomos ameaçados pela Paramount de que eles iam cancelar o filme. Francis Ford Coppola lutou para ter Al Pacino como o Michael. Eles já tinham escalado o Michael como Jimmy Cann e Carmine Caridi devia interpretar o Sonny, mas Francis foi inflexível sobre ter Al Pacino para interpretar o papel. É engraçado, porque Pacino já tinha sido escalado num filme da Columbia Motion Pictures chamado Quase, Quase uma Máfia. Eles tiveram que fazer um acordo com a Columbia trocando Carmine Caridi pelo Al Pacino. Foi assim que Jimmy Caan ficou com o Sonny e eu com o Carlo.

Ninguém sabia se o filme seria lançado. Eles até ameaçaram Francis Ford Coppola. Eles não gostaram da direção dele no começo e queriam trazer outra pessoa. Graças a Deus eles começaram a ver o Pacino se desenvolver de um soldado tímido na cena do casamento, no casamento do meu personagem na verdade, no Michael Corleone como conhecemos. Foi perfeito.

Como foi trabalhar com Marlon Brando e o que você mais lembra sobre ele?

Marlon foi com a minha cara logo no começo pelas razões mais estranhas. Ainda me gabo disso. Quer dizer, Marlon Brando foi meu único professor de atuação e Frank Sinatra foi meu único professor de canto. Tudo que você me vê fazendo no filme, e para mim, minha grande cena foi a última do filme, as outras eram todas físicas e violentas. Mas na cena final com Pacino, que é um ator brilhante e bem treinado, Brando me mostrou as mecânicas. Ele disse “Você vai ser projetado numa tela enorme nos cinemas e as pessoas vão saber se você é crível ou não. Você tem que mostrar o medo”.

Hollywood Godfather

Qual sua grande memória com Sinatra?

Eu estava no Caesar's Palace com ele e a mãe dele estava atrasada. Ele estava no palco, seu primeiro show no Caesar's. Ele fazia dois shows por noite naquela época. Antes da última música, ele pediu para o público orar pela mãe dele porque o voo dela não tinha chegado. E veja, nós já sabíamos que ela tinha morrido, mas não quiseram contar para ele até o final do primeiro show. Descobrimos minutos antes e o público já estava na casa. Achamos que era melhor ele terminar o show. Bom, eu não, não cabia a mim opinar nisso, mas eles acharam. Quando ele saiu do palco, disseram para ele que o avião da mãe tinha batido numa montanha e que ela tinha falecido. Aquela noite foi a segunda vez que vi humanidade naquele homem. Ele começou a chorar.

Qual você acha que é o estado da máfia hoje e como é diferente da sua época?

Tive essa conversa inúmeras vezes. No começo da vida isso era uma organização. Era para um propósito bom porque imigrantes que vinham para este país eram abusados e passados para trás. Eles se organizaram para conseguir respeito e igualdade. Aí o dinheiro entrou no meio e de repente não era mais a respeito disso. Quando você conhece a máfia a fundo, é tudo uma questão de dinheiro. Tudo sobre lucro. É assim que você ascende na organização. O respeito foi jogado pela janela. Há poucos homens de respeito hoje. É tudo uma questão de dinheiro, ganância e como você consegue isso.

Acho que não poderia existir uma organização hoje porque os eletrônicos [levaram a] câmeras em todo lugar. Mesmo eu, eu provavelmente estaria fazendo outra coisa da vida. Você fica sob um microscópio e eles são todos ratos. Eles te interrogam e você entrega o cara com quem trabalhou a vida inteira. Veja Sammy, the Bull e John Gotti. John foi gravado dizendo que ia pegar o Sammy. E isso acabou com o Sammy. O Sammy não era um cagueta. John fez dele um cagueta. Depois do fiasco de Gotti e depois de Anthony Spilotro com a máfia de Chicago, o que era conhecido como mafioso não existia mais.

Quer dizer, sei mais sobre isso que a maioria das pessoas. A máfia estava na minha vida desde que eu tinha 12 anos. Então faça as contas. São uns 64 anos. Vi o melhor disso e ainda tenho amigos próximos que são respeitados, mas eles são das antigas. Quer dizer, veja Sonny Franzese agora, ele tem 102 anos. Ele ainda está por aqui. Quer dizer, ele saiu em liberdade condicional. O cara tem 102 anos, ele está num hospital. O que ele vai fazer? É loucura. Mas não. Aquela vida acabou.

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