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A trilha secreta de dinheiro por trás desses bots pornô do Instagram

Provavelmente você já se acostumou a ignorá-los, mas o que acontece se você sai clicando neles sem parar?

por Amelia Tait; ilustrado por Marta Parszeniew; Traduzido por Marina Schnoor
01 Abril 2019, 6:28pm

Colagem: Marta Parszeniew

São 4h17 da madrugada e ChistinaMiller21 quer conversar. A conta do Instagram dela é privada, e ela só tem quatro posts e 15 seguidores. Enquanto o nome de usuário dela sugere que ela tem 21 anos, a bio diz que ela tem 24. Mais tarde, numa mensagem direta, ela diz que tem 22. Quem é Chistina (sem “r”) Miller? Ela é uma estudante de Leeds. Onde em Leeds? “Hyde Park.” O que ela estuda? “Designer.”

Se tem Instagram, você também tem um segredinho sujo. Quer 80, 280 ou 80 mil pessoas te sigam, é muito provável que uma ou duas delas sejam mulheres como a Chistina. O que quer dizer que elas não são mulheres de verdade. Elas são bots pornô; “garotas de 22 anos procurando diversão”; usuárias frequentes do emoji vermelho e preto “para maiores de 18”.

Bots pornô infestam o Instagram há anos. Ficamos tão acostumados com eles inundando nossos pedidos para seguir e curtindo nossas fotos que ninguém realmente questiona quem está por trás deles e o que essas pessoas querem. Ainda assim, nos últimos meses, as coisas se tornaram mais obscuras. As contas pararam de usar os títulos óbvios “nome-sobrenome-número”, e agora entram direto nas suas DMs em vez de comentar nas suas fotos. Se uma conta com zero seguidores, zero fotos e nenhum link na bio te manda DM com emoji de foguinho, o que ela está esperando? E quem é burro o suficiente para dar o que ela quer?

Clico no link que ChistinaMiller21 me mandou e sou convidada para “TRANSE AINDA HOJE”. Clicar na caixa azul marcada “Continuar” me redireciona para outro site (que só funciona em celular, não em desktop) chamado TopGirlsHere.com. Depois de responder várias perguntas de pesquisa (“Essas mulheres só desejam sexo rápido. Não relacionamento. Você concorda com essa solicitação?”) sou redirecionada para o WellHello.com, um daqueles sites comuns de “namoro, encontros e swingers” que quer que você pague para ter “ACESSO ILIMITADO” a mulheres.

instagram porn bots
Screenshots dos sites para onde os bots pornô levam.

É uma história mais velha que guaraná de rolha, então certeza que ninguém em 2019 cai nessa e digita as informações do seu cartão de crédito no site, né? Mas seguindo essa trilha e fazendo algumas pesquisas, descubro o SmoochyCash.com – um site de marketing de afiliados que permite que qualquer pessoa assine e compartilhe links do WellHello em troca de dinheiro. Marketing de afiliados é um modelo de negócio que recompensa pessoas por trazer clientes para uma empresa ou visitantes para um site. Assim como influencers do Instagram recebem dinheiro toda vez que alguém clica no link afiliado de um batom, por exemplo, contas pornô podem render uma grana te fazendo entrar em sites pornô – quer você gaste neles ou não.

“Tem um suprimento ilimitado de homens solteiros cheios de tesão, e você pode ter uma taxa de conversão bem legal se souber como seduzi-los para clicar no seu link”, diz Steve Smith, dono da MakeMoneyAdultContent.com, um blog para marketing de afiliados de conteúdo adulto. O próprio Smith não usa o Instagram assim, mas já encontrou pessoas que se passam por mulheres no Twitter, Snapchat e até no Quora para ganhar dinheiro através de links afiliados de pornô.

O CrakRevenue é um dos sites de marketing de afiliados adulto mais populares, e Smith diz que você pode fazer até $5 [quase R$20] conseguindo que uma pessoa coloque seu endereço de e-mail num site (isso é conhecido como PPL – pay per lead). Os afiliados de marketing também podem ganhar comissão se alguém realmente comprar a assinatura de um site (PPS – pay per sing-up ou pay per sale). Isso já é mais difícil, mas como Smith diz em seu site, “não é impossível”.

Claro, essa coisa toda não deveria ser automatizada – nos termos e condições do site, o SmoochyCash declara “AS POLÍTICAS DA COMPANHIA TÊM TOLERÂNCIA ZERO A SPAM”. Mas os afiliados mais experientes usam técnicas de “black hat”, fazendo bots que spameiam links afiliados em sites como o Instagram.

“Afiliados e bots são como pão e manteiga”, diz Satnam Narang, engenheiro pesquisador da empresa de cibersegurança Tenable. Narang investigou bots pornô do Instagram em 2016, e explica por que fui redirecionada para uma série de sites antes de chegar no WellHello.

“Suspeito que parte da razão para isso é filtrar leads não-qualificados”, ele diz. “Certas ofertas de afiliados especificam que apenas certos tipos de leads são válidos – por exemplo, uma oferta pode exigir tráfego apenas de celular.” Narang explica que algumas ofertas também só são válidas para certas localizações geográficas, e que sites intermediários também ajudam a impedir que o link original seja denunciado e removido do Instagram.

No BlackHatWorld.com – um site que se descreve como “um fórum para empreendedores digitais com mais de 80 milhões de visualizações por ano” – usuários compartilham dicas e truques úteis para criar páginas pré-link como essas. Enquanto o Black Hat World tem uma massa de usuários usando diversos esquemas para fazer dinheiro, um pequeno bolsão dos leitores usa o esquema de bots pornô e marketing de afiliados destacado por Narang. Usuários recomendam aplicativos que permitem que você salve todas as fotos do Instagram de alguém no seu rolo de câmera, e também dirigem outras fotos para servidores do Google Drive e Discord para compartilhar “packs” – fotos de mulheres nuas que eles podem usar para fazer suas contas parecerem autênticas. Apesar do Black Hat World proibir discussões sobre isso, no resto da internet as pessoas usam esses nudes diretamente, um processo conhecido como “e-whoring”.

Num fórum chamado Nulled, a “Vende-se: sapatinhos de bebê, nunca usados” foi superada como a história mais triste do mundo. Numa thread intitulada “Minha jornada de ewhoring no instagram! Atualização diária”, um usuário explicou em 1º de setembro de 2018 que ele fez uma conta de e-whore no Instagram e usou um bot para ganhar seguidores. No dia 6 de setembro, ele se desculpou. “Gente, não vou conseguir atualizar essa thread por um tempo, minha namorada me largou”.

Claro, a maioria das pessoas no Black Hat World e fóruns similares usam técnicas mais sofisticadas que só criar contas no Instagram e usar bots para spamear links e comentários, mas Smith diz que pessoas “não tão experientes em marketing” continua spameando assim porque a técnica envolve “zero investimento inicial”. Ele também diz que esse é um método mais popular em países não-ocidentais, apesar de Narang dizer que é improvável que exista uma rede gigante por trás desses bots pornô, e a maioria deles provavelmente é operada por indivíduos esperando “fazer dinheiro rápido”.

porn bot messages
Mensagens dos bots pornô.

Mas essas contas vão desaparecer? Enquanto o Instagram tem vários sistemas automatizados para detectar e remover milhões de contas de spam todo dia (e removeu quatro bots denunciados pela VICE enquanto eu escrevia esta matéria), Narang diz que esse “é um jogo de gato e rato”.

“O Instagram tem melhorado com os anos. Mas os afiliados não são detidos pelo Instagram ou nenhuma outra ação das redes sociais, já que eles estão sempre procurando jeitos de contornar essas detecções automáticas”, ele diz. “Alguns desses métodos são coisas simples como usar números em vez de letras nas mensagens, usar emojis ou códigos com caracteres para evitar filtros para certas palavras-chave.” Por exemplo, como Narang explica, “sexy” pode parecer a palavra sexy mesmo, mas as letras “e” e “y” são do alfabeto cirílico.

No final das contas, Narang diz que depende dos usuários denunciar essas contas – mas também estamos tão acostumamos a ignorá-las que elas raramente incomodam. Enquanto muitas contas desaparecem em questão de dias, elas ainda podem render algum dinheiro antes de sumirem. A conta de ChistinaMiller21 foi deletada, mas quem estava por trás dela com certeza segue em frente, pronta para posar como outra mulher “solitária e safada” que só quer se divertir.

@ameliargh / martaparszeniew.com

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