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VICE Sports

Quem é o boleiro mais cool do mundo e por que ele é Héctor Bellerín

Em uma liga de nerds e perdedores, o lateral-direito do Arsenal se destaca como o único jogador bacana. Por quê?

por Joel Golby
29 Janeiro 2019, 1:09pm

Repara no desgraçado do Héctor Bellerín, na moral; não como fã de futebol, considerando que seu olhar já está maculado de tanto assistir lances meio cozido, do lado de três ou quatro garrafas de cerveja, jogado no sofá, de barriga pra cima e com as luzes desligadas, xingando toda vez que este lateral-direito do Arsenal erra mais um passe.

Se é o caso de encararmos Bellerín como boleiro, ok: ele é um garoto de 23 anos, explosivo e ágil, treinado na academia do Barcelona, flutuando entre “bom” e “muito bom” enquanto ala direito e um lateral direito que varia entre “adequado” e “puta que pariu podia aprender a dar uns carrinhos melhores e isso ajudaria a baixar minha pressão”. Ele também é um meia ou ponta-direita (abro aqui os parênteses pra comentar que não entendo porque não botaram o cara nessa posição, pique Gareth Bale, nem por Unai Emery ou Arsène Wenger) de potencial gigantesco, coisa que quase jorra pelos poros do pobre diabo.

Mas observar Héctor Bellerín como boleiro é não entendê-lo no nível mais fundamental. É como julgar uma moto com base na sua habilidade em fazer umas panquecas ou um cachorro ao calçar luvas. Encarar Bellerín como futebolista – de conjuntinho de treino da Puma, driblando cones, conduzindo a bola de boinha – é mostrar uma profunda falta de noção do que realmente se trata o garoto. Bellerín não é boleiro; ele é vibe pura e intocada, sem quaisquer resquícios de adulteração.

E Bellerín tem sido assim há um tempinho. Quando chegou ao Arsenal, Héctor não era nada além de um garoto espanhol que acabou entrando em campo porque algum colega havia se machucado – caso de Jon Toral, Fran Merida, Ignasi Miguel. Naquele momento, parecia mais um a trilha o manjadíssimo caminho de atleta jovem do Arsenal: sofrer uma lesão brutal, ser afastado por dois anos e acabar em um time intermediário da La Liga; jogar uma temporada absurda, seguida pela venda de seu passe por 50 milhões de libras ao Manchester; um nada impressionante empréstimo ao Birmingham City, inexplicavelmente seguido por uma extensão de seis anos do contrato.

No fim, nada disso ocorreu. Fez partidas ok e ganhou alguma notoriedade só por conta de algumas entrevistas após as partidas, esbaforido após uma vitória na Copa da Inglaterra, numa mistura de cockney com catalão e era isso aí:

Então veio o cabelo e junto com ele uma transformação digna de Sansão. Hector saiu de “um qualquer que ninguém tinha certeza que seria o substituto de até mesmo Matthieu Debuchy” para se tornar “o cara certo para causar infartos movidos à raiva em espectadores”. Foi ali que ele fez barulho no rolê e não por conta de nenhum feito nos gramados, pois, entenda você, Bellerín, o jogador, vive à sombra de Bellerín, a vibe, por conta de duas verdades universais: Héctor Bellerín é um cara bacana, diferente de todo e qualquer outro boleiro em atividade na Inglaterra, com exceção de Paul Pogba que TALVEZ chegue perto.

E aí vem o questionamento: por que jogadores de futebol são patologicamente sem graça? Há atletas descolados em qualquer esporte, menos no nosso. Como quando Daniel Sturridge era o detentor da coroa de jogador mais hipster da Premier League [1] , a seguinte teoria se aplica: graduandos do ensino médio que se veem ricaços com uma canetada aos 17 anos acabam presos numa espécie de adolescência permanente; imagine você largar uns 30.000 paus na mão de um jovem qualquer, o que ele faria? Correria pro shopping mais próximo e gastaria tudo em roupas Superdry e JD Sports, mais uns iPads, um PlayStation e quem sabe uma bolsa pra coitada da namorada dele e com sorte umas aulas de direção e 15.000 seguidores no Instagram. Agora se você dá 30.000 por semana pra esse mesmo adolescente, é repetir toda essa situação que acabo de descrever só que ainda pior: compras na Selfridges, BMWs M5, posando ao lado de revendedores Supreme meio cabisbaixos, idas à steakhouse de Salt Bae em Dubai, emojis vindos de uma conta verificada em todas as postagens de celebridadesi no Insta.

Os jogadores da Premier League parecem tão sem graça simplesmente porque estão presos numa época em que o ápice do ser descolado é pagar caro num boné, ter sua própria marca ou pagar algum corno pra te seguir com um drone, raramente indo além disso. Não é como se os caras fossem parar pra ler um livro ou ficar meio chapadinho ouvindo um disco do Arctic Monkeys sozinhos, ou ainda, ser ignorado seguidamente no Tinder, dentre outros traumas formadores de caráter que fizeram de você, e de mim, pessoas bacanas. Os caras meio que vivem numa competição eterna entre eles mesmos sobre quem consegue deixar seus jeans carésimos cheios de vincos. O mito do boleiro cool é só isso mesmo, um mito, uma ilusão: ok, conseguir dar um dibre no Robert Huth em campo é uma coisa que é, objetivamente, cool. Mas basta ver Luke Shaw andando de Off-White pra lá e pra cá pra perceber que isso daí de nada importa.

Já Bellerín inverte essa porra toda, se liga:

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Crédito: Sky Sports

Esse aí é um visual de fashion week, um look que você veria ao fundo de uma postagem de Bella Hadid no Instagram, projetada especificamente para chamar a atenção e ser visto. Boleiros, fora do campo, geralmente se enquadram em dois tipos de visu: trajes esportivos sem o brasão do time ou alguma camiseta oversized com rebites e tachas, acompanhada de algum chapeuzinho que deixa os caras com um jeitão de quem vai figurar num clipe de Logan Paul fazendo chifrinho com as mãos pouco antes de arremessar um anão pela janela. Nenhum boleiro se veste de fato, o que é assustador ao considerar que seus corpos tonificados são perfeitos para exibir qualquer tipo de vestuário, mas em vez disso os bichos preferem fazer cosplay de traficante fuleiro. Mas olha o Héctor de sobretudo ali, olha lá. Héctor de cachecolzinho da Burberry. Héctor de gorrinho sobre um brilhante rabo de cavalo, Héctor de barbicha, assemelhando-se a o retrato gótico de um visconde comedor de antigamente. Héctor com aqueles oclinhos minúsculos de sol pique Matrix. Héctor já tinha o número de telefone da sua namorada antes mesmo de conhecê-la e ter a chance de anotá-lo em um guardanapo qualquer, ele apenas tinha o número. Imagina se o Phil Jones se vestisse desse jeito: pareceria um pernil de natal passando por uma crise de pânico.

O futebol é um jogo especial porque se dá em um campo verde em firme contato com a realidade – 22 homens, um juiz, a linha do meio-campo e dois gols – com resultados binários simples que se alternam entre Vitória, Derrota e Empate, e mesmo assim se dá simultaneamente no universo paralelo do mas e se: é aí que o futebol prospera, nas hipóteses surgidas em papos de bar tempos depois do apito final. E se Kane tivesse feito aquele passe ao final? E se Hazard tivesse jantado direito? E se aquele cartão vermelho fosse amarelo ou aquele pênalti não tivesse rolado? Discutimos as idas e vindas do jogo como se pudéssemos voltar atrás e mudar o ocorrido: e se Lampard tivesse feito o gol? E se Robbie Keane não tivesse comido lasanha? E se aquela coruja nunca tivesse cagado na boca de Ashley Young? E se Eric Cantona tivesse ficado em Leeds? E se Baggio tivesse acertado aquele pênalti? E se aquele passe que mal rolou não tivesse chegado até Aguero no jogo contra o QPR? E aí, hein?

Todo esse jogo de incerteza pode se aplicar à jornada de cada jogador também. Cada decisão tomada a partir dos 12 anos de idade os colocou no caminho de uma carreira no futebol, com qualquer deslize podendo levar ao maior dos desastres, caso de Balotelli, uma potência do City, que agora se vê no papel de futebolista nômade depois de ter comprado duas Vespas e um trampolim; Diaby, destruído por um carrinho; Dele Alli não foi mais o mesmo depois daquele boquete. Por outro lado, veja como o rolê faz valer a pura falta de graça como no caso de James Milner, o cara mais arrumadinho do esporte, nunca bebeu na vida e por conta disso muito provavelmente passará mais uns 30 anos deslizando pelos gramados pelo Liverpool, ao menos é o que acredito. Por essas e outras tantos jogadores passam o tempo jogando FIFA ou fazendo streams de Fortnite, ou então engravidando jovens sobre os carpetes sem vida de suas mansões: quando todas as outras formas de diversão arruinam suas chances de sucesso, não há muito mais o que ser feito [2] .

E é por isso que o alter ego fora do campo de Héctor enquanto ladrão de namoradas de alto nível é como um sopro de ar fresco. O lance fashion faz parte disso, claro – entre otário e boy lixo, nem tão hypebeast assim, mas uma combinação disso tudo, aquele corninho que fura fila no Dover Street Market – se você parar pra sacar que é tudo muito pensado, muito certo: os oclinhos, as aparições no London Fashion Week ao lado de Gully Guy Leo; os pijamas Zimmerman ; as calças costuradas por sua mãe ; o fato de que ele conseguiu usar uns Pumas horrorosos ao ponto destes parecerem bonitos . Mas vai além disso aí – o veganismo, a participação na Oxford Union , aquela ocasião que ele falou em espanhol com Jeremy Corby de forma que Piers Morgan não teria como se meter. Este vídeo em que ele parabeniza um garoto por ganhar um jogo de dardos . Aquela vez que ele convidou um esquilo pra entrar na sua casa .

Talvez eu esteja projetando tudo isso, mas Héctor Bellerín é o último resquício de pureza no futebol e o amo com todo meu coração. Talvez eu esteja projetando, mas é o único cara legal que sobrou. Por vezes me vejo em um quarto escuro, tarde da noite, em estado de fuga, digitando desesperadamente “LOVE YOU, MAN” em suas postagens no Instagram, só pra apagar tudo meio sem jeito depois, letra por letra. Numa era de kits de identidade oferecidos pela Nike em que atletas só postam fotos de treinos após intensa curadoria e não dizem nada em entrevistas após a partida, Bellerín é a única estrela a brilhar, o único com quem você sairia pra pegar um rango, que você confiaria pra tirar uma foto massa sua, o único boleiro que deixaria você dar uma fuçada no Raya dele enquanto te leva pra tomar uns smoothies.

É raro a presença de um atleta superar sua atuação nos campos, mas este é Bellerín. E aí voltamos à questão dos paralelos, das pequenas decisões que o trouxeram até aqui. E se ele não tivesse deixado o cabelo crescer, onde estaria? Teria voltado a Watford? Será que sem a cabeleira sua presença ofenderia os pais de família fãs de futebol do mesmo jeito? Não, e é isso que faz do cara tão especial, tão descoladão. Por favor, nunca mude, Héctor Bellerín, e nunca me deixe. Nunca troque tudo isso por um inevitável e temível retorno ao Barcelona, a Premier League precisa de você tanto quanto eu.

@joelgolby

[1] Daniel Sturridge segue o rei hipster do futebol, mas duas coisas importantes rolaram nos últimos quatro anos: lesões contínuas em seu corpo que o afetaram como mijo quente sobre um cubo de gelo, que lhe tiraram do posto de artilheiro para “jogador emprestado ao West Brom ocasionalmente”. Além disso, o cara está num relacionamento sério em que um dog foi adotado e este mesmo dog tem seu próprio perfil no Instagram, que sabemos bem é o compromisso mais notável que se pode ter antes do casamento, o que significa que não mais rolarão aquelas fotos de look do dia ou no rolê com o Drake, dando lugar a fotos de casal e vídeos onde ele leva o cachorro pra passear. É legal, mas é diferente, né?

[2] A natureza mais arrumadinha do futebol moderno só faz reforçar a ideia de que Diego Maradona foi o maior jogador de todos os tempos: fazer o que ele fez em termos de carreira já é demais, mas aí você para pra pensar que o cara fazia isso tudo cheirado ou se mordendo todo e fica claro que o homem realmente tinha um dom. Pare pra se perguntar se Messi conseguiria jogar daquele jeito depois de uma noite de farra sem limites, fumando charutos do tamanho de burritos? Conseguiria ao mesmo tempo em que é parça do Fidel Castro?