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As artistas que colecionaram imagens banidas do Instagram

Falamos com Molly Soda e Arvida Byström sobre seu novo livro, 'Pics or It Didn't Happen'.

por Louise Donovan; Traduzido por Marina Schnoor
23 Março 2018, 4:03pm

Foto principal: @aleia / Aleia Murawski / Prestel

Suas fotos deletadas no Instagram não são apagadas por capricho. Alguém deliberadamente julgou se a imagem aderia às Diretrizes da Comunidade da plataforma, o que significa que uma pessoa real – conhecida como “moderador de conteúdo comercial” – determinou se a selfie que você tirou dos seus peitos tinha peito demais. Imagens proibidas como essa, que variam de nudez explícita a closes de calcinhas com pelos pubianos aparecendo, foram compiladas pelas artistas Molly Soda e Arvida Byström num novo livro: Pics or It Didn't Happen.

Com mais de 220 mil seguidores entre elas, as artistas pediram fotos banidas pelo Instagram e receberam milhares de imagens. A edição final apresenta cerca de 250 fotos que foram removidas da plataforma, muitas delas NSFW, mas exige que os leitores se perguntem por que alguns corpos – principalmente brancos, magros, sem pelos, cisgênero – são aceitáveis na rede social e outros não. Juntas elas criaram um arquivo – ou um memorial – das fotos banidas do Instagram. Liguei para as artistas para saber mais.

@isaackariuki / Isaac Kariuki / Prestel

VICE: Por que vocês decidiram fazer esse livro?

Molly Soda: Notamos um padrão nas reclamações das pessoas sobre imagens sendo removidas do Instagram. Arvida e eu tínhamos reclamado publicamente disso também, então decidimos fazer alguma coisa. Mas achamos que era importante que Pics or It Didn't Happen elevasse essas imagens que foram removidas da rede social.

É óbvio por que algumas fotos foram banidas, mas outras – como a da mulher usando seu hijab para segurar o celular na orelha – não. Onde está o limite?

Arvida Byström: Depende do contexto. Essas pessoas – os moderadores de conteúdo que precisam tomar a decisão sobre o que pode ser removido – olham o que mais está acontecendo no seu feed. Algumas pessoas têm contas de nudez parcial há meses, mas aí uma das fotos é denunciada e do nada é tipo: “Espera, agora isso pode ser considerado uma conta pornô”, e ele derrubam o perfil do ar.

Soda: Acho que também depende de quem é o corpo. Certos corpos são mais sexualizados que outros, puramente por como estamos acostumados a vê-los.

@ bloatedandalone4evr1993 / Molly Soda / Prestel

De que maneira?

Byström: O Instagram diz o que é seguro, certo? Mas muitas coisas são vistas como sexuais. Você pode estar usando a menor calcinha do mundo e se estiver depilada, a foto passa, mas de certas maneiras, é culturalmente mais sexual do que ter uma área púbica não depilada. Então acho que é uma mistura do que as pessoas acham que é nojento e o que é sexual. Tivemos mais pessoas brancas mandando fotos, mas acho que é por que os brancos sentem que têm mais direito de mostrar seus corpos assim.

A escritora americana Chris Kraus – de I Love Dick – escreveu o prefácio do livro. Por que vocês a escolheram?

Nosso editor queria que uma pessoa de fora do nosso círculo escrevesse o prefácio. Pensamos em Chris Kraus, e ela parecia estranhamente relevante. Em I Love Dick, ela fala muito sobre as mulheres no mundo das artes e não ser levada a sério. Há muitas diferenças entre nós, mas temos um terreno comum com a Chris; sinto que eu e a Molly não somos representadas o suficiente em livros, e ainda assim livros são vistos como arte clássica e história da arte.

Soda: Sim, essa coisa toda de ser vista como uma “garota da internet”, e não ser respeitada. Além disso, o jeito como I Love Dick não foi bem recebido no começo. Quando o livro saiu, ele não era relevante, mas agora é muito relevante para a nossa geração. Então fazia sentido.

@propriatingwhiteculture / Bea Miller / Prestel

A maioria das imagens do livro são de mulheres: no banho, na privada, de calcinha. O que isso diz sobre a nossa atitude com o corpo feminino?

Byström: É assim que a sociedade trata os corpos das mulheres, então não esperávamos que o Instagram fosse diferente.

Soda: Mesmo ler os comentários nas postagens que mostram um corpo um pouco fora da norma, como com pelos nas axilas, é insano. O fato de que alguém ainda se incomoda com pelos no sovaco nessa altura me deixa pasma. Mas ainda é assim.

Mas estamos melhorando? Tem coisas que não seriam banidas agora que sem dúvida seriam alguns anos atrás?

Byström: Sim, hoje recebo um comentário sobre meus pelos nas axilas numa foto, quando antes recebia centenas.

Soda: Acho que isso está evoluindo. Ainda recebo comentários assim, mas não tantos. Mas para qualquer corpo fora da norma social, de qualquer maneira, vai haver reação negativa. Mas faz sentido, porque o Instagram não é diferente do resto da sociedade: qualquer corpo que não é lido como um corpo masculino entra no diálogo do sexo, não importa qual. Eu poderia estar usando um vestidão sem forma e uma touca de banho, e ainda seria sexualizada de qualquer maneira.

@verajorgensen / Vera Jørgensen / Prestel

Se vocês pudessem mudar as diretrizes do Instagram, o que mudariam?

Byström: O Instagram precisa mostrar mais coerência entre corpos. Também precisa parar de tirar do ar coisas só porque são um pouco perturbadoras socialmente. Como pelos pubianos, por exemplo. Eles precisam ser mais específicos. Agora os corpos estão sendo tratados de maneira diferente, e isso é perigoso.

Soda: Mas eu não acabaria com as diretrizes. Precisamos delas – não quero ver fotos de pintos nem decapitações.

O que vocês gostariam que as pessoas tirassem do livro?

Byström: Que censura é uma questão muito complicada. Mas é interessante arquivar esses pensamentos e onde estamos hoje. Em 20 anos, esse livro pode parecer muito datado e idiota. Acho que certas pessoas provavelmente já acham isso, mas o que podemos fazer, né?

Pics or It Didn't Happen: Images Banned from Instagram de Molly Soda e Arvida Byström foi publicado pela Prestel.

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Veja mais fotos abaixo:

@ c.har.lee / Lee Phillips / Prestel

@ser_sera / Ser Brandon-Castro Serpas / Prestel

@ stinawolter / Stina Wolter / Prestel

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