Como foi o Dia Internacional das Mulheres em SP

Depois de começar mais como um ato "Fora, Temer", a manifestação que contou com milhares de mulheres levou às ruas a pauta contra a desigualdade de gênero.

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mar 9 2017, 7:23pm

*Todas as fotos são da Camila Svenson e Pétala Lopes do Coletivo Amapoa.

Para marcar o Dia Internacional das Mulheres, uma greve geral foi mobilizada em várias capitais brasileiras, convocando trabalhadoras a tomarem às ruas contra a desigualdade de gênero.  Em São Paulo, as mulheres que puderam aderir à greve geral convocada nas redes sociais apareceram em peso na paralisação, que se dividiu em dois atos: um na Avenida Paulista, saindo do MASP e outro na Praça da Sé. Por volta das 18 horas, as duas marchas se encontraram no centro da cidade, na altura do Viaduto Maria Paula, e caminharam até a Prefeitura. 

Historicamente, convocações de greve geral no Brasil são aderidas por sindicatos de trabalhadores. E foi o que aconteceu na Paulista, onde contamos mais de três trios elétricos representando grupos que sempre marcam presença em manifestações com pautas familiares à esquerda. O próprio evento 8M (nome dado à greve geral do Dia Internacional das Mulheres) chegou a avisar que o ato seria casado com a manifestação do APEOESP (Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo) cuja pauta principal era contra a reforma da Previdência, uma das medidas mais criticadas do governo Michel Temer. Porém, no dia ficamos sabendo que vários atos estariam concentrados no mesmo lugar, mas que não estavam ligados necessariamente à causa do Dia da Mulher. Foi isso que começou a causar confusão entre algumas pessoas que estavam presentes na Paulista.

A maioria dos trios (senão todos) presentes na Av. Paulista apresentavam cartazes contra a reforma da Previdência ao lado do já familiar "Fora Temer". Foram pouquíssimas mulheres que lideraram o discurso nos trios elétricos, e pouquíssimas discursaram. As que conseguiram acesso ao microfone falaram por um breve período, dando rapidamente lugar aos sindicalistas do sexo masculino que elencavam o grande prejuízo que a reforma da previdência causará aos trabalhadores. Não se viu, pelo menos na avenida Paulista, nenhuma tentativa de explicar como as mulheres serão as mais prejudicadas pela reforma da Previdência.

Durante o ato, algumas mulheres postaram nas redes sociais críticas contra a manifestação na Paulista e avisaram que estavam se dirigindo à Praça de Sé como forma de repúdio. De fato, não se via muitos cartazes direcionados às pautas feministas na Paulista e em algumas frentes eram homens que estavam liderando os carros. De praxe, vez ou outra um sindicalista mencionava as "mulheres" para não esquecer que estava em um ato do Dia das Mulheres, porém não convenceu. Parecia muito mais uma manifestação Fora Temer do que uma marcha feminista. Pouco lembrou a Primavera Feminista em 2015 onde estavam muito bem definidas as pautas feministas que foram levadas às ruas.

Só quando a marcha da Paulista se encontrou com o ato da Sé, liderado pela CUT, que a manifestação se tornou majoritariamente feminista e dedicada a discutir pautas específicas que dizem a respeito às mulheres. Neste momento, vimos cartazes, palavras de ordem e gritos de guerra puxados por lideranças femininas. Vimos várias frentes lideradas por mulheres negras, indígenas e também mulheres mais jovens caminhando — o que nos aliviou um pouco. Com mais mulheres comandando a manifestação, o encontro dos dois atos acabou garantindo um saldo mais positivo pra o dia 8 de março. 

A dispersão ocorreu pacificamente por volta das 20 horas. E a presença da polícia militar foi muito menor do que o normal e só acompanhou as manifestantes em alguns trechos.

Durante o ato da Paulista, as fotógrafas Camila Svenson e Pétala Lopes do Coletivo Amapoa registraram diversas mulheres que aderiram à paralisação em nome das pautas feministas contra a desigualdade de gênero.

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Nivea Della Monica, dona de casa, 64 anos. "Estou sempre presente em todos os movimentos. Fui na posse da presidente, todos os movimentos contra o impeachment e em todos os movimentos a favor dos professores. (...) Meu movimento é por todos, principalmente pela situação do jovem, do idoso, da mulher, do gay, dos negros e todos os excluídos."

Angélica Della Monica, professora, 69 anos. "A cada ano que passa percebo que quem são os maiores violentadores da mulher são os nossos governantes, eles estão estuprando os nossos direitos, e é por isso que estou aqui. Não sou bela, nem recatada, mas sou do lar. E me sinto violentada."

Helen Ramos, jornalista, 29 anos: "Confesso que estou um pouco decepcionada porque a gente pega um dia que é para ser um dia de luta para as mulheres,organizada por mulheres e na hora que eu desci do metrô tinham três carros de som e dois deles com homens falando da greve dos professores. Ok, eu acho um movimento super válido, só que essa paralisação de hoje aqui exprime muito bem a nossa realidade: A gente tentando lutar pelos nossos direitos e as pessoas ocupando nosso lugar, protagonizando nosso lugar. Eu tô triste, mas também foi uma lição para mim porque também poderia ter me organizado com o tanto de amiga mulher que eu tenho. (...) Eu saí na rua para paralisar, porque acho que deveria ser um dia de greve mesmo, não acho que é um dia para se comemorar com música e festa. Se nós tivéssemos direitos iguais e a gente tivesse conquistado nosso espaço, se o aborto fosse legalizado e gente não precisaria estar aqui. Então pra mim é um dia triste, mas ao mesmo tempo um dia de muita garra e muita luta. Eu vim pra rua hoje porque eu sou mais uma e acho que nosso movimento ficaria maior se cada uma pensasse nisso. Se a gente tivesse com mais mulheres aqui e mais organização não teria gente protagonizando nosso dia. Como sempre, como todos os dias."



Okan, professora da rede municipal da prefeitura de São Paulo, 44 anos. "Estou aqui para continuar na luta, principalmente, contra o governo golpista, em favor aos direitos das mulheres, pela liberdade e pra a gente não perder os direitos que duramente conquistou ao longo da história, a gente tem uma realidade muito dura, e já passou da hora de estarmos na rua lutando contra o que eles estão tirando a cada dia da gente."



Mariane, desempregada, 20 anos. "Hoje eu vim reivindicar os meus direitos como uma sociedade democrática, no Brasil, nada mais democrático que você protestar. Protestar porque eu sou uma mulher negra e hoje em dia isso é uma coisa que conta muito. Eu tenho a liberdade do meu cabelo e isso eles odeiam. Eu vim de longe, sou de Caraguatatuba, litoral norte aqui de São Paulo. Lá a desigualdade é maior do que aqui, te garanto, e isso, para estar aqui hoje é mais do que uma liberdade sentida é uma verdade vivida. Porque você estar aqui hoje é mostrar que você não está de brincadeira, não aceita qualquer coisa, você não aceita o machismo, você não aceita o golpe, você não aceita nada."

Beatriz Pinheiro, educadora de museu, 23 anos. "Estou aqui para lembrar que mulheres lésbicas existem, resistem; resistência histórica de se relacionar com pessoas com buceta e para lembrar das nossas pautas específicas porque ninguém vai lembrar por nós, porque a gente não tem acesso seguro a métodos contraceptivos específicos para mulheres lésbicas para que a gente possa fazer sexo seguro."

Stefanie Rosa, sommelier de cerveja, 21 anos. "Estou aqui hoje pelas mulheres lésbicas, pela Luana Barbosa que foi morta. É resistência e ocupar."

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