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Como policiais de quatro países acabaram com um cartel de drogas na deep web

Quando o tráfico é internacional, a aplicação da lei é colaborativa.

por Joseph Cox
20 Outubro 2016, 5:20pm

Quando o tráfico é internacional, a aplicação da lei é colaborativa. Crédito: DEA

A deep web possibilita que as pessoas vendam e comprem drogas onde quer que estejam. Por mais que não seja um fenômeno global, o tráfico nas profundezas da internet se baseia numa lógica internacional. Há várias investigações de traficantes dos dois lados do Atlântico que trocam informações e, no meio do processo, abastecem prateleiras digitais com uma infinidade de narcóticos.

Esse mundo sem fronteiras, como era de se esperar, também está sob os olhos da lei. Nos últimos dias, uma série de prisões mostra a resposta organizada de autoridades belgas, romenas, francesas e norte-americanas para o tráfico internacional e online de drogas. Os investigadores afirmam ter acabado com um elaborado cartel de ecstasy na deep web.

Na segunda-feira, a Promotoria do Colorado, nos EUA, anunciou a extradição de Filip Lucian Simion. Morador da Romênia, ele foi encaminhado à cidade de Denver por ser o suposto líder do grupo "ItalianMafiaBrussells" ou "IMB", que exportava MDMA para os EUA e Canadá. A investigação, disseram os investigadores, começou com o primeiro Silk Road, o mais célebre comércio da rede, fechado em 2013 pelo FBI.

Em 13 de junho de 2014, alfândega norte-americana interceptou mais de 60 gramas de MDMA enviadas da Bélgica para um indivíduo em Boulder, no Colorado, de acordo com um documento judicial. O destinatário concordou em cooperar com as autoridades quando confrontado por uma força-tarefa local. No depoimento, revelou ter comprado as drogas do IMB.

As autoridades apreenderam outros pacotes de clientes norte-americanos, incluindo um no aeroporto JFK em Nova York, e fizeram com que estes revelassem quem era o fornecedor. Alguns suspeitos deram aos investigadores acesso às suas contas em sites da deep web e às suas mensagens com o IMB.

Avaliações de produtos no Silk Road ajudaram a ligar fontes anônimas ao IMB

Enquanto isso, as autoridades belgas interceptaram outros pacotes do IMB entre fevereiro e setembro de 2014. As mercadorias continham recibos falsos se passando por outras empresas, possivelmente para conferir um ar de legitimidade. No total, a polícia belga apreendeu 19 encomendas que acreditavam vir da mesma pessoa ou organização e informou a polícia norte-americana das apreensões.

Em troca, os belgas tiveram acesso a dados do servidor do Silk Road, que incluía mensagens privadas do IMB e seus clientes. Quem quer que estivesse por trás da conta do IMB era fluente em holandês e inglês, falava sobre a Romênia e parecia estar familiarizado com a Polícia Federal Judicial Belga (a Federale Gerechtelijke Politie, ou FGP). Nestas mesmas mensagens, IMB afirmava viver próximo a Bruxelas, capital da Bélgica.

Em uma investigação aparentemente não-relacionada, a FGP já tinha vasculhado a casa e espaço de armazenagem pertencentes a Simion em dezembro de 2013. Não está claro o que levou à busca, mas os investigadores encontraram etiquetas de endereçamento para – presumidamente – envio de produtos aos clientes de Simion. Muitos dos nomes batiam com o que as autoridades norte-americanas tinham em mãos. Os belgas, por sua vez, encontraram registros ligados aos recibos falsos. Simion, então, apareceu ligado aos pacotes da deep web.

Munida dessas informações, a FPG e a Polícia Federal Romena começaram a vigiar Simion e seus associados. Por meio de grampos telefônicos, a FGP descobriu que a gangue usava aplicativos de troca de mensagens criptografados para fazer ligações e mandarem mensagens, tais como o RedPhone.

"Com base nisso, aliado às atividades observadas pela polícia, a FGP acredita que os membros da organização utilizam primariamente aplicativos de comunicação pela internet e e-mails criptografados para a maior parte de suas comunicações", consta em um documento judicial. Em dado momento que o grupo não usou comunicação criptografada, a FGP afirma ter ouvindo alguém separando ou preparando drogas ao fundo de uma ligação, bem como digitando em um computador.

As autoridades determinaram que Simion e Leonardo Cristea, outro suposto membro, residiam na Romênia, mais precisamente em Bucareste, ao passo em que os demais suspeitos Andy Nestor e Yman Djavatkhanov residiam em Bruges, na Bélgica, realizando idas frequentes às áreas fronteiriças da Alemanha e França. Para complicar ainda mais, a polícia francesa também apreendeu dezenas de pacotes em rota para os EUA, incluindo um encomendado por um agente da DEA disfarçado em Chicago.

A FGP grampeou uma garagem em Bruges utilizada pelo grupo e os gravou discutindo negócios em detalhes. Em maio, veio a culminação de todas estas autoridades trabalhando juntas: 10 réus foram presos como parte de uma operação conjunta entre EUA e Europa. Simion e Cristea podem ser condenados até 20 anos na cadeia.

Tradução: Thiago "Índio" Silva