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Salcity é um retrato sucinto da cena contemporânea do rap de Salvador

Com participação de Baco Exu do Blues, DoisÁs, Vandal, Contenção 33 e outros grandes nomes da cena soteropolitana, filme reúne relatos que buscam compreender as causas e os efeitos de “Sulicídio".

por Liam Maia
04 Abril 2017, 6:46pm

Vandal. Foto: Divulgação

Produzido em setembro de 2016, "Salcity" é um documentário que une relatos de várias gerações do rap soteropolitano e parte da premissa de compreender as causas e a extensão do efeito de "Sulicídio", além de abordar temas direta ou indiretamente ligados ao som. O documentário conta com a participação de Baco Exu do Blues, Cintia Savoli, DoisÁs, Vandal, Contenção 33, Opanijé, Mobbiu entre outros grandes nomes locais e foi produzido por Douglas da Nóbrega.

Sobre as motivações para ter produzido o documentário, Douglas declarou:

"A falta de registros e memória da periferia para as próximas gerações foram os motivos iniciais para fazer o documentário. Estava bebendo e jogando conversa fora com Dimak e Leandro no bairro dos Barris, quando falamos sobre o que rolava na Bahia antes e depois de "Sulicídio". Chegamos à conclusão que muita gente de fora do estado falava besteira, no melhor estilo meritocracia, e que esse momento não seria documentado. Então eu e o Leandro resolvemos registrar com as pontes feitas por Dimak. Quando comecei a entrevistar, vi que o buraco era mais fundo. Isso me motivou a ralar mais. Como Baco diz, "'Sulicídio' foi só um grito", e tem todo um cenário que motivou essa atitude. Todas as gravações foram feitas em uma semana de setembro de 2016, só com o dinheiro da passagem e equipamento emprestado. O Brasil precisa muito de memórias do passado, principalmente da periferia, e essa documentação tem que ser nós por nós, da periferia para a periferia."

"Salcity" já se introduz em tom de denúncia, com os artistas alertando para os assassinatos frequentes de jovens negros, a ausência de cobertura midiática e a institucionalização desse racismo a um ponto onde os próprios policiais negros o reproduzem. Tal cenário reflete fortemente na tônica e na sonoridade urgente do rap de Salvador, como observam os MCs, que também apontam uma falta de união da cena como um todo, o que acaba atrasando o crescimento do gênero no Estado.

O choque entre gerações nos presenteia com diversas facetas para se analisar um mesmo fato, como a influência de "Sulicídio" no cenário local, passando por pontos como o destaque que artistas de fora do eixo Rio-São Paulo receberam após o lançamento da música e a consolidação de artistas da nova geração como influências locais respeitáveis aos olhos dos futuros artistas. Com apenas 19 minutos, o documentário aborda uma imensa gama de assuntos que, ao fim, se entrelaçam no discurso de todos artistas e se mostra um importante registro histórico do rap local e nacional.

"Espero que o documentário inspire novas ações nesse sentido no Brasil inteiro. É importante ter programas de entrevista e react/análise, só que ainda faltam pessoas que pensem em conteúdos de longo prazo e baixo custo. Se as pessoas não tiverem a preocupação de contar essas histórias, o quinto elemento do hip-hop fica meio capenga. É importante que as novas gerações saibam do passado, o que deu certo e o que deu errado. Um povo sem memória não tem bagagem para evoluir, cai nas mesmas armadilhas e é facilmente controlado", conclui Douglas.

Veja o documentário "Salcity" no player abaixo e, na sequência da ficha técnica, você pode sacar uma playlist de YouTube com sons dos artistas que participaram do filme.

Ficha Técnica:

Produzido por: Bruno Zambelli, Carlos do Complexo, Douglas da Nóbrega, Leandro Lima e Rodrigo Caetano
Marra
Avante Produções