Edição Off The Deep End

Perfume Genius Canta Músicas Assustadoras para Homossexuais

Se o pai gay da Cat Power e da Liza Minnelli desse à luz uma divindade do sexo sensível e pálida, provavelmente seria alguma coisa parecida no look e no som com o Perfume Genius, também conhecido como Mike Hadreas.

por Mitchell Sunderland
25 Março 2015, 10:30am

Fotos por Matthew Leifheit.

Se o pai gay da Cat Power e da Liza Minnelli desse à luz uma divindade do sexo sensível e pálida, provavelmente seria alguma coisa parecida no look e no som com o Perfume Genius, também conhecido como Mike Hadreas. Nascido em Seattle, o cantor toca baladas tristes ao piano e protagoniza clipes com drag queens e caras vestidos com macacões cafonas. Diferente de artistas gays como Sam Smith, que fazem músicas melancólicas sobre relacionamentos monogâmicos e depois criticam os colegas por buscarem sexo anônimo no Grindr, Hadreas não tem medo de usar glitter e declarar para jornalistas que espera que o clipe cheio de drags de "Queen" assuste os heterossexuais. E, mais importante, quando ele faz cover de "By Your Side", da Sade, sem o refrão, consegue fazer você gozar e chorar ao mesmo tempo.

Combinei de trocar ideia com o Hadreas antes do show dele no Music Hall de Williamsburg, em Nova York, mas ele teve de cancelar de última hora. Falou para a gente remarcar e prometeu que comeria comida gordurosa comigo da próxima vez que viesse para a cidade (homens gays amam porcaria tanto quanto amam música pop ruim). Como a Cheesecake Factory ainda não abriu uma filial no Brooklyn, encontrei com o Hadreas em uma lanchonete algumas semanas atrás para discutir Madonna e entender porque ele adora assustar procriadores chatos.

VICE: Como foi que você começou a tocar música triste para meninos?
Mike Hadreas:
Fiz aula de piano e sempre inventava coisas. Não eram exatamente músicas – eram mais fragmentos. Só comecei a escrever letras ou músicas oficialmente há cinco anos. Sou inexperiente. Sempre quis cantar, mas não gostava da minha voz. Só comecei a achar que era um bom cantor há pouco tempo. Sinto que cantar bem e sexo bom deveriam ser coisas fáceis, mas para mim é tipo: argh.

Como foi que você teve a ideia da música "Queen"?
Eu estava bravo – andava fechado e inseguro, internalizando coisas que as pessoas me diziam. Eu estava me sentindo mal e com vergonha de mim mesmo por ainda carregar coisas da época em que eu era novo. Às vezes, quando estou em turnê, estou num posto de gasolina, as unhas pintadas, de vestido, ou enfim, e as pessoas meio que vão se afastando de medo. Agora, eu falo: "Foda-se – não chega perto! Quero Nerds [doce]. Me deixa passar". Se você vai ficar assustado, então fica, porque, no mínimo, vou dar ainda mais pinta e ficar pior e mais nojento e assustador do que você pode imaginar.

Onde você trabalhava antes de ser cantor profissional?
Trabalhava em uma loja de departamentos que era tipo o Walmart, mas mais bacana. Eu fazia chaves e misturava as tintas.

Você gosta dos Estados Unidos?
Gosto dos Estados Unidos, porque tem shoppings e cadeias de restaurantes abertos 24 horas. É frustrante na Europa, porque você só pode comprar cigarro na loja de cigarro – e ela fecha às sete. Você devia conseguir comprar um cobertor, cigarro, jantar e uma arma, tudo no mesmo lugar.

Qual é sua cadeia de restaurantes favorita?
Curto muito a Cheesecake Factory. O cardápio parece um livro. As pessoas me perguntam: "Onde a gente pode comer em Seattle?" E normalmente recomendo o Olive Garden [restaurante italiano].

Por que você adora comer o que os héteros chamam de "porcaria"?
É gostoso, cara. Sei lá. Gosto de comida chique também. Gosto da riqueza na comida. Não gosto de sabor pequeno.

Você faz cover de artistas como Madonna e Sade. Por que corta o refrão quando canta as músicas delas?
É o que faço. Canto "Oh Father", do Like a Prayer da Madonna", e pego só a parte mais triste, introspectiva e estranha da letra.

Ser rotulado de "cantor gay" te incomoda?
Incomoda, mas sou um cantor gay, então não posso ficar muito bravo com isso. Sou bem explícito nas minhas letras, e é de verdade. Eu me sinto muito decidido com isso, mas acho que, às vezes, as pessoas falam mais sobre isso do que sobre a música. Mas enfim, entrei nessa e aceitei os termos. Mas sei lá – tem um dever nisso. Não me importo de ter essa responsabilidade, independente do tamanho dela.

Qual é a ideia mais errada que se tem de você?
Acho que as pessoas sempre pensam em mim como uma pessoa magoada e ferida, porque tem muita vulnerabilidade na minha música. Mas falar sobre essas coisas, para mim, é muito forte e corajoso. Não me importo de falar isso de mim. Alguém escreveu: "Ele faz música com o talento de um líder de acampamento de teatro". Tipo, me mata. Se o Jack White fica sensível, ninguém fala: "Como ele é dramático". Vai se foder! Claro que tem drama, mas todo mundo que faz música precisa de uma certa dose de drama para se achar bom.

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Tradução: Alina Scátola