Roger Franchini É Responsável Pelo Melhor da Literatura Policial Brasileira Atual

Conversamos com o escritor, advogado e ex-tira sobre sua nova obra Matar Alguém e a “bunda-molização” da literatura brasileira.

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nov 18 2014, 4:45pm


​Todas as fotos são da Anna Mascarenhas.

Roger Franchini não é nenhum iniciante. Em seu currículo constam seis anos trabalhando como investigador na Polícia Civil e um diploma de advogado. Atualmente Franchini pode ser visto circulando no Fórum Criminal Ministro Mário Guimarães, conhecido como "o Barra Funda" para os íntimos da área criminal, e suas colaborações para a VICE como a ​entrevista com o líder da investigação do helicóptero do pó e do ​vídeo viral da escrivã desnudada pela polícia deram o que falar (inclusive a blogueiragem copiou bastante). Ele também é um dos melhores escritores da literatura policial brasileira. São dele os livros Ponto Quarenta – a Polícia Civil de São Paulo para leigos, Toupeira – a história do assalto ao Banco Central, Richthofen – o assassinato dos pais de Suzane (que será adaptado para um longa-metragem) e Amor Esquartejado. Aproveitando o lançamento do seu quinto livro Matar Alguém, encontrei o escritor numa tradicional lanchonete da Santa Cecília para trocar uma ideia.

Assim como as obras anteriores de Franchini, Matar Alguém faz qualquer leitor se sentir nos corredores de alguma Distrital e nas ruas fazendo alguma diligência. Para conseguir romantizar os casos reais livremente, ele se utiliza de personagens fixos: os investigadores de moral dúbia Bianca, Maurício, Eduardo e Rodrigo, que transitam livremente para preencher as lacunas das histórias. "No livro da Richthofen [...] criei uma equipe de investigadores e é por meio deles que eu brinco, que eu invento coisas, [...] preenchendo com boatos dos meus amigos da polícia. Não dá para falar que é verdade [o que está escrito], isso seria uma imprudência. Os personagens existem para sustentar essas mentirinhas," explica.

É comum para quem está acostumado com romances policiais ver os personagens serem retratados como heróis anônimos, incorruptíveis e com uma citação de Shakespeare na ponta da língua para qualquer situação. Franchini, por outro lado, é imperdoável. "Quando comecei a escrever tinha uma grande frustração com os romances policiais brasileiros. [...] Eu não achava que eles retratavam fielmente a vida de um policial." Por isso, os personagens de Franchini são repletos de rachaduras e sem pudores de andar na tênue linha do ilícito. Um retrato fiel de quem escolheu ganhar a vida na polícia em uma instituição naturalmente corrupta.

Roger também não poupa detalhes sobre ​a vida de cão levada na polícia. Tão detalhada a ponto de o leitor adquirir um pequeno know-how do processo de investigação policial e também como funcionam os "inquéritos sob encomenda", nos casos de grande repercussão da mídia. Um exorcismo de tudo que passou e teve de lidar nos anos de tira e a vontade de retratar uma rotina que quase ninguém pode contar. A literatura de Franchini, antes de qualquer coisa, é uma denúncia.

"A literatura brasileira que nós temos hoje é feita por uma classe média para uma classe média. Essas pessoas nunca colocaram os pés em uma delegacia, e se colocaram, viram uma polícia que não existe. Nosso policial é um cara pobre, mal educado e mal formado, e isso humilha ao saber que nossa vida depende desse cara," desabafa.

Franchini também não poupa críticas à literatura brasileira, cada dia mais umbiguista e mais centralizada em uma classe que pode se dar o luxo de escrever sobre si mesma. "Acho que nossa literatura é muito bunda mole," analisa. "O cara só sabe falar sobre o umbigo dele, [...] e quando eles escolhem em falar isso, fecham os olhos para o que está ao redor. Você acha que a grande periferia vai querer ler sobre o cara da classe média que o pai cobra que ele faça Medicina, mas ele sempre quis fazer artes plásticas? Vai tomar no cu! [...] Acho um absurdo quando falam que o brasileiro não gosta de ler, na verdade é o escritor que não consegue manter um diálogo com ele. Essa divisão entre rico e pobre é tão grande que também reflete na simpatia entre eles. O autor está só fazendo história para ele e para os amigos deles. Os livros deles são ignorados na periferia, um público de milhões louco para ler, e isso não interessa para eles. O escritor deve se dar conta que ele não é um Deus, ele não tem um talento supremo. Ele tem que aprender a dialogar com o resto das pessoas."

A linguagem dos seus livros, afiada e honesta, é o retrato mais fiel que temos da polícia e de seus percalços na atualidade. "Quando comecei a escrever achava que teria muitas críticas do pessoal da polícia, mas pelo contrário, os meus leitores hoje na maioria são policiais e eles sabem que não são eles os retratados nos meus livros. Eles têm raiva daquele policial corrupto, do cara que passa perna do amigo, do investigador que não é tão bom assim, mas que tem um tio maçon. [...] Eles não podem falar, estão amordaçados pela lei para não soltar essas informações." Ainda assim, Roger prefere não ser considerado o representante dos policiais. "Eu tenho prazer de montar a história desta maneira, e eu acho que eles têm prazer também de serem retratados. É meio que uma catarse," conta.

A história de Matar Alguém é tão familiar que qualquer paulistano sabe pelo menos um fragmento dela. Os ataques do PCC, jogos de política entre a Secretaria de Segurança e o Governo do estado e escutas ilegais. ​Temas que ele já abordou na VICE.

Embora o livro traga fatos que qualquer leitor de jornal possa reconhecer, foi o primeiro que o autor pode começar uma história do zero. "Me chamaram para escrever a coleção 'Grandes Crimes', mas conforme eu escrevia os livros me sentia cerceado pela história, porque eu tinha que romancear um crime que existe. [...] Nesse eu pude criar livremente, matando pessoas, mandando um beijar o outro," disse.

O pragmatismo do escritor também ajuda o processo de criação dos livros, que são feitos em curtíssimos períodos de tempo. O último, de janeiro a maio, Franchini chegava do trabalho às 19:30 e assim começava a escrever. Uma rotina que mostra a disciplina e também a facilidade de soltar as palavras no papel. "Ainda não tive o tempo que queria, gostaria de uns dois anos para conseguir escrever do jeito que gostaria [...] de criar os personagens, a história," revela.

Assim como os gigantes da literatura pulp como Ellery Queen, Franchini preza pela simplicidade da escrita e acredita que quanto mais acessível é o livro, melhor. "Achei fantástico quando achei estava na Paulista e vi uns livros meus sendo vendidos na banca de jornal."

Esperamos que cada vez mais vagões de trem e ônibus sejam dominados pelas obras de Roger Franchini.

Interessou? A Editora Planeta disponibilizou dois capítulos do livro Matar Alguém para os leitores da VICE. Volta aqui que amanhã estarão online. 

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