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Entretenimento

A Fox Faliu um Canadense de 23 Anos Por Ter um Site com Streaming dos "Simpsons"

Em outubro, surgiram notícias discretas sobre a FOX estar processando um canadense que tinha sites como “Assista Os Simpsons On-line”. No começo deste mês, ficou confirmado que ele teve que pagar $10,5 milhões para a emissora.

por Patrick McGuire
21 Janeiro 2014, 6:50pm

Via Motherboard/The Simpsons.

No dia 5 de janeiro, um novo episódio d'Os Simpsons, a família amarela favorita da televisão, falou sobre extremismo dos direitos autorais. Homer fica consternado porque é a última pessoa na cidade a ver o novo filme do Homem Radioativo; Lenny e Carl o provocam no trabalho com spoilers e quando ele finalmente tem a chance de assistir o filme no cinema, ele fica enojado com os truques exagerados de 3D, a cadência O Hobbit e a colocação dos produtos no próprio filme. Então, o Bart mostra a ele como usar torrents.

No mundo dos Simpsons, o Pirate Bay é “Bootleg Bay”, e quando o Bart vai mostrar ao Homer, passo a passo, como piratear o novo filme do Homem Radioativo, o logo da FOX aparece na tela, seguido pelo seguinte texto: “A FOX Network proíbe a transmissão de instruções passo a passo de como baixar ilegalmente uma propriedade intelectual. Enquanto isso, assista a uma filmagem da NASCAR 2011”. Em seguida, aparece uma filmagem real da NASCAR, e o espectador e levado de volta ao mundo da animação quando a aula do Bart já acabou.

Você vai ter que assistir ao episódio para ver como um FBI ultra zeloso está mais preocupado com a pirataria de filmes do que com assassinos em série, ou como o Homer acaba ganhando um processo contra Hollywood depois de ser dedurado pela Marge, que se sente culpada por vê-lo transformar o quintal da família num cinema pirata. Mas há um trecho, no finalzinho, onde o Bart e a Lisa tentam analisar objetivamente esse problema tão moderno.

O Bart pergunta a Lisa: “Quem são os bonzinhos: as companhias de mídia ou os caras da liberdade na internet?”, Lisa responde: “Os dois grupos afirmam que suas intenções são nobres, mas no final das contas, os dois estão tentando roubar o máximo que puderem”. Então, o Bart conclui que todo mundo é um pirata, e a Lisa concorda, mas diz que os piores são – e é cortada antes de responder. Aí vem outra filmagem da NASCAR e os créditos finais.

Aparentemente, o episódio é um jab irônico no domínio da FOX e outros estúdios sobre direitos autorais, e a atitude superagressiva do FBI contra infratores de copyright como Kim Dotcom. Na vida real, Kim não é a única pessoa sendo investigada por criar redes on-line em que a pirataria prospera. Em outubro, surgiram notícias discretas no Torrentfreak sobre a FOX estar processando um canadense que tinha sites – como “Assista Os Simpsons On-line” e “Assista a Uma Família da Pesada On-line” – que continham links de streaming para episódios das potências de animação da FOX. Então, no começo deste mês, ficou confirmado que ele teve que pagar US$10,5 milhões para a gigante de mídia, o que faliu completamente o cara.

Entrei em contato com o administrador de sites de 23 anos, que só se identificou como Nick, e conversamos sobre sua situação financeira devastadora. Nick me disse que ficou “surpreso” com a reação da FOX. “Achei que ia ouvir sobre algum site canadense de filmes sendo derrubado primeiro, e depois tiraria meu site voluntariamente do ar para evitar qualquer problema... obviamente, eu nunca esperei ser a cobaia.”

Mas por que ele começou esses sites em primeiro lugar? “Eu adoro Os Simpsons, assim como muitos dos meus amigos, mas não é possível comprar os DVDs das temporadas depois da 10... e não tinha nada na internet para ajudar as pessoas na época – então, eu preenchi o vácuo. Eu esperava que a FOX acabasse criando seu próprio serviço, ao qual eu poderia me ligar ou usar de alguma maneira.”

Nick se refere à cruzada da FOX contra ele como uma “vingança desnecessária”, e descreveu como seu julgamento afetou sua vida. “Eles vão ficar com o último centavo da venda da minha casa e isso é realmente tudo que tenho para eles... Estou em débito com empresas de cartão de crédito e dificilmente poderei pagar muitas de minhas contas, mas eles querem que todos acreditem que ganhei meio milhão de dólares com a coisa toda.”

Uma imagem do site do Nick.

Mesmo dizendo que ganhou algum dinheiro com os sites, quando perguntei ao Nick se ele estava vivendo disso, ele respondeu: “Se você considera 'viver' ter uma dívida enorme de cartão de crédito e mal conseguir pagar os juros da casa, então sim.”

Essa não foi a primeira vez que Nick se meteu em encrenca por ter sites de streaming. Em 2010, ele se viu do lado errado da fúria do MPAA (Motion Picture Association of America) por um site chamado www.watchxonline.com, que ele agora transformou num “portal de streaming legal”, com links para Netflix, Hulu e similares. O MPAA apenas “ameaçou” o Nick; sem levar a diante processos multimilionários. A FOX queria sangue. 

Mesmo depois do conflito com o MPAA, Nick não considera suas ações ilegais. “Era algo tão ilegal quanto usar o Google. Eu achava os episódios e os indexava... Se alguém reclamava da qualidade, eu logo respondia para a pessoa comprar os DVDs e apoiar o programa. Eu colocava links para a Amazon, para que as pessoas pudessem comprar os DVDs e Blu-rays quando eles saíam. Meu objetivo nunca foi tirar dinheiro ou público da FOX. O público norte-americano do meu site era bem pequeno, já que lá eles têm outras fontes [como o Hulu]. Mas para o público do resto do mundo, como o Canadá, a FOX mostra o dedo do meio [eles não têm Hulu lá].”

Nick acha que a indústria da TV e do cinema está numa encruzilhada similar à da indústria da música, antes que serviços como o Spotify fornecessem um meio-termo saudável, garantindo uma plataforma de streaming abundante do lado certo da lei de direitos autorais. “Se as indústrias de entretenimento se unissem e fizessem tipo um Hulu mundial, elas poderiam matar a pirataria. Podia até ter uma taxa mínima, como a do Netflix, mas com a biblioteca inteira disponível globalmente, e não do jeito que é hoje, em que as pessoas só podem assistir The Office se estiverem em solo americano.”

Neste ponto, Nick só espera que sua declaração de falência afaste os advogados da FOX, para não ter que pagar a soma inteira que eles dizem que ele possui. Para ser honesto, os sites do Nick eram bastante descarados, catalogando links para cada episódio dos Simpsons e Uma Família da Pesada; então, é possível entender por que os advogados da FOX ficaram tão putos. Mas, como os próprios Simpsons parecem argumentar num de seus episódios mais recentes, o litígio agressivo contra os infratores de direitos autorais nos Estados Unidos extrapolou os limites do ridículo.

Será que falir um cara que está lucrando com a exploração de um espaço digital, que não está sendo propriamente capitalizado pela grande mídia, é a melhor estratégia? Ou a FOX está jogando um jogo de gato e rato perdido com a internet? Uma busca rápida no Google encontra sites iguais ao do Nick em funcionamento hoje, então, o que eles ganham arruinando a vida de uma pessoa? Na melhor das hipóteses, essa situação é uma publicidade bem escrota para a FOX Corporation.

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