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Esse Cara Acha que Nunca Mais Vai Precisar Comer

Que tal ingerir uma substância sem gosto para o resto da vida e nunca mais ter que passar pela pentelhação de abrir e comer um sanduíche pronto ou se fartar com um gorduroso café da manhã nos dias de ressaca?

Sabe o que é um tremendo desperdício de tempo, dinheiro e suor? Comer coisas que você gosta. Fala a real, você não preferiria ingerir uma substância sem gosto para o resto da vida e nunca mais ter que passar pela pentelhação de abrir e comer um sanduíche pronto ou se fartar com um gorduroso café da manhã nos dias de ressaca? Rob Rhinehart, um engenheiro de software de 24 anos de Atlanta e, pelo jeito, um cara superocupado, acha que sim.

Rob sacou que estava chateado com a enorme quantidade de tempo que levava para fritar um ovo de manhã e decidiu que precisava fazer alguma coisa. Simplificando alimentos como “nutrientes requeridos para o funcionamento do corpo” (o que soa totalmente bulímico e tal, mas prometo que não é), Rob criou um coquetel bege e sem cheiro que ele chama de Soylent.

Primeiro achei que ele só estava trollando, porque “soylent” é o nome da bolacha feita de carne humana que alimentava a superpopulação do filme seminal de ficção científica de 1973 chamado No Mundo de 2020, mas depois li o post no blog do Rob explicando como ele chegou até essa substância e comecei a acreditar nele. Soylent contém todos os componentes nutritivos de uma dieta balanceada, mas com apenas um terço das calorias e nenhuma das toxinas e bagulhos cancerígenos que estão por aí sempre tentando te matar. Apesar de parecer um pouquinho com vômito, o Soylent pode ter o potencial de mudar inteiramente a relação do mundo com a comida. Então falei com o Rob para saber um pouco mais.

VICE: Oi, Rob. Por que você decidiu boicotar rangos?
Rob Rhinehart: Foi uma combinação de coisas. Estava passando o Natal com a minha família quando soube que um velho amigo dos meus pais tinha sido internado depois de perder uma quantidade nada saudável de peso. Ele estava perdendo a força em um dos braços e sentia dificuldade para cozinhar. Comecei a pensar por que algo tão simples e importante como a comida ainda era tão ineficiente, em comparação com outras coisas modernas que são tão simplificadas e otimizadas. Eu também tinha um incentivo para ter o estilo de vida mais barato possível e ansiava pelo benefício produtivo de uma vida saudável. Li um monte de livros sobre biologia e comecei a pensar que, para as nossas células, é a mesma coisa receber os nutrientes de uma cenoura ou de um pó.

Qual foi o próximo passo?
Enganar o corpo é muito arriscado, mas traz grandes recompensas. Li um livro didático sobre química fisiológica e fui para a internet para descobrir se era possível encontrar cada um dos nutrientes essenciais conhecidos. Minha cozinha ficou parecendo um laboratório de química, com um monte de substâncias num copo na minha frente. Fiquei meio preocupado que isso pudesse acabar me matando, mas decidi fazer pela ciência e engoli rapidamente a coisa toda. Para minha surpresa, até que aquilo era bem gostoso e eu me senti cheio de energia. Por 30 dias evitei totalmente qualquer comida e monitorei o conteúdo do meu sangue e meu desempenho físico. A performance mental é mais difícil de quantificar, mas me senti muito mais atento.

Então o que é o Soylent exatamente?
Tudo que o corpo precisa — até onde sabemos, pelo menos: vitaminas, minerais e macronutrientes como aminoácidos essenciais, carboidratos e gordura. Para a gordura, uso simplesmente azeite de oliva e adiciono óleo de peixe. Os carboidratos são oligossacarídeos, que são como o açúcar, mas com moléculas mais longas, o que significa que isso leva mais tempo para ser metabolizado e te dá uma fluxo de energia constante por um período maior, ao invés do pico de açúcar que se tem com coisas como frutose ou açúcar refinado. Também adiciono coisas não-essenciais como antioxidantes e probióticos, e ultimamente tenho experimentado com nootrópicos.

E isso é tão gostoso quanto um hambúrguer?
O gosto é muito bom. Não enjoei do gosto em seis semanas. É uma sensação muito “completa”, mais doce do que qualquer outra coisa. Comer para mim é uma atividade de lazer, tipo ir ao cinema, mas não quero ir ao cinema três vezes por dia.

Quais são os benefícios de um estilo de vida sem comida? Alguma desvantagem?
Não ter que se preocupar com comida é fantástico. Nada de supermercado, louça para lavar, decidir o que comer, nada daquelas discussões intermináveis sobre os méritos relativos das dietas sem glúten, ceto, paleo ou vegan. Minhas contas de energia e água ficaram mais baratas. Economizo várias horas por dia e centenas de dólares por mês, me sinto livre daquela rotina cotidiana repetitiva. Soylent também pode ser bom para pessoas que têm problemas para manter o peso. Acho muito fácil perder ou ganhar quantidades precisas de peso só variando as proporções do meu coquetel.

Mas há desvantagens: ele não dura muito depois de ser misturado com água, então tenho que preparar o coquetel todo dia. Se eu errar a quantidade dos ingredientes, posso ficar doente, mas isso não acontece faz um tempo. E muita gente gosta muito mais de comida do que eu, então elas podem não aprovar muito a ideia.

Como o Soylent pode afetar os hábitos alimentares do mundo?
O comportamento do consumidor tem muito a ver com preço e conveniência. Há muitas maneiras de se ser saudável, mas os norte-americanos têm mais propensão a ficar acima do peso simplesmente porque a comida barata e conveniente aqui é pouco saudável. Acho que é possível usar a tecnologia para transformar a comida barata e fácil em algo mais saudável, mas para isso temos que desistir de muitos alimentos tradicionais como frutas e vegetais, que são incompatíveis com o processamento e a escala de alimentos.

Isso me parece meio ameaçador.
Não acho que precisamos de frutas e vegetais — precisamos de vitaminas e minerais. Precisamos de carboidratos, não de pão. De aminoácidos, não de leite. Tudo bem comer essas coisas quando você quiser, mas nem todo mundo pode pagar por isso ou tem vontade de comer isso. A comida deveria ser otimizada e personalizada. Se o Soylent fosse tão barato e fácil de obter quanto uma xícara de café, acho que as pessoas poderiam ser muito mais saudáveis e os custos com saúde cairiam. E acho que isso é totalmente possível.

E isso poderia ajudar com a fome no mundo, certo?
Sim, estou muito otimista com a possibilidade de ajudar nações em desenvolvimento. O Soylent pode ser amplamente produzido a partir de produtos da agricultura local e, em grande escala, isso é muito mais barato para alimentar até os indivíduos mais pobres. As pessoas podem rir quando digo que faço muito menos cocô, mas isso pode ser uma questão importante num país em desenvolvimento, onde o saneamento inadequado é uma das principais fontes de doenças. Além do mais, a agricultura tem um impacto enorme no meio ambiente, e essa dieta reduz muito o uso disso.

Você recebeu muitas críticas desde que postou sobre seu experimento no blog?
Acho que esse ceticismo é completamente razoável agora. Não tenho muitos dados por enquanto, mas espero poder mudar isso. O mais interessante é que muitos acadêmicos, nutricionistas, doutores em medicina e biólogos entraram em contato comigo e estão muito otimistas — são os defensores dos orgânicos que me xingam. Ceticismo bom é dizer: “Você não está tomando nenhum boro e há evidências de que o boro é um nutriente essencial”. Isso ajuda e eu defendo que o Soylent deve ser complementado com comida convencional. O ceticismo ruim é tipo: “Isso é idiotice. Não dá para viver só com pós e químicos, você precisa de comida saudável e fresca!”.

Algumas pessoas investem muito na ideia da santidade da natureza, da comida natural e têm uma visão idílica da agricultura; essas acham a ideia muito ofensiva. Eu acho que esse não é um ponto de vista baseado em evidências. Não há evidências de que comida orgânica seja mais saudável do que a comida convencional, e não é possível alimentar o mundo sem técnicas de cultivo mais eficientes.

Você acha que vai ficar enjoado de Soylent?
Soylent é definitivamente parte da minha dieta. No momento só como uma ou duas refeições convencionais por semana, mas se eu tivesse mais dinheiro ou uma namorada, provavelmente comeria fora mais vezes. Mas estou feliz com minha dieta de solteiro. Assim como não sinto falta do telefone de disco, não sinto falta de comida.

Você sabe que no filme No Mundo de 2020, o tal Soylent Green é feito de gente, né?
Na verdade, no livro em que o filme foi baseado, Make Room! Make Room!, o Soylent é feito de soja e lentilha. O filme mudou muitos aspectos do livro, mas continua sendo um dos meus favoritos. O meu Soylent não tem nenhum ingrediente humano.

Ah, que bom. Obrigada Rob!

Encontre a receita do Soylent e as tabelas do progresso da vida totalmente sem comida do Rob aqui.

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