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Os Protestos Contra a Tarifa no Rio de Janeiro

A manifestação que parou o centro da cidade.

Thomás de Oliveira

“Vem! Vem! Vem pra rua, vem contra o aumento!” Com esses gritos, os estimados em mais de dois mil manifestantes convidavam a população carioca a participar de mais um protesto contra o aumento do valor da passagem de ônibus na cidade. E logo em seguida avisavam cantando em coro: “Acabou o amor. Isso aqui vai virar a Turquia!”.

A manifestação convocada pelo MPL que parou o centro da cidade reunia diferentes grupos, estudantes uniformizados do ensino médio da rede pública, uma grande massa de universitários, integrantes de partidos políticos, punks, anarquistas, comunistas e a população em geral, até mesmo alguns idosos e crianças. Funcionários do comércio local, transeuntes e motoristas tinham reações diferentes. A maior parte parecia apoiar o protesto, alguns aplaudiam e sorriam, mas era sempre possível ouvir comentários do tipo: “Não sei como permitem essa bagunça na cidade”. E até mesmo foi ouvido o comentário de um senhor de terno, perto do Teatro Municipal, que, ao passar por um dos policiais, disse sorrindo: “Se fosse na época da revolução, com os militares colocando ordem no país, vocês já teriam acabado com essa libertinagem”. O que ele chama de revolução, os manifestantes e a História chamam de ditadura militar, e o que ele classifica como libertinagem, aqueles jovens chamam de democracia.

E foi de forma democrática que os manifestantes rapidamente votaram por não terminar a manifestação na Cinelândia, como era previsto. Ao chegar lá, já era possível ouvir entre as pessoas que a passeata deveria continuar. E ao serem perguntados por um dos que se alternavam ao microfone, no carro de som, se queriam continuar a manifestação até a Assembleia Legislativa do Rio (Alerj), a resposta foi um unânime sim. A Polícia Militar teve que se apressar para interromper o trânsito nas ruas que formavam o caminho até lá para que a massa de jovens carregando cartazes, cantando, pulando ao ritmo do refrão “quem não pula quer aumento!” pudesse passar.

E embora o governador Sérgio Cabral atribua uma motivação político/partidária aos protestos em entrevistas recentes, não é isso o que notamos. Grupos heterogêneos dividiam o mesmo espaço em uma harmonia barulhentamente carioca, e o tempo todo era reafirmado por diferentes vozes no carro de som que “não há liderança”. Havia bandeiras de partidos sim, mas elas estavam lá ocupando apenas uma fração do território ao lado de estudantes apartidários, de representantes do movimento indígena, da juventude das favelas que luta contra a epidemia de despejos nos morros da cidade provocada pelas obras para a Copa.

E essa é uma característica marcante do que aconteceu ali. De forma geral, as pessoas pareciam ter a consciência de que o protesto não era “apenas” contra os 20 centavos a mais no valor da passagem. O que se ouvia ao conversar com os manifestantes é que o que os motiva vai muito além disso, é um descontentamento generalizado com o governo da cidade e do Estado do Rio de Janeiro, com os choques de ordem do Eduardo Paes, com o pouco caso das empresas de transporte público, o pouco número de ônibus, os atrasos, o estado dos veículos, a falta de ar-condicionado. Mas os descontentamentos iam além das questões relacionadas ao transporte. Diferentes pessoas apontavam diferentes motivos para estar ali, mas o que se via não eram cariocas felizes por sediarem a Copa do Mundo.

Outra característica fundamental é que os protestos são nacionais. Faixas e gritos mostravam o tempo todo apoio aos manifestantes que foram presos em São Paulo. Frases enaltecendo a coragem e a persistência dos manifestantes paulistas eram constantes.

Tudo estava bem até que deixou de estar...

Após a chegada na Alerj, a multidão cercou o prédio, muitos jovens subiram nas estátuas e as escadarias foram completamente tomadas. Fogos de artifício, palavras de ordem e músicas contra Eduardo Paes, Sérgio Cabral e a Federação das Empresas de Transportes de Passageiros do Estado do Rio de Janeiro (Fetranspor) pareciam encerrar pacificamente a tarde. Mas, então, foi decidido que as manifestações continuariam em direção à Central do Brasil.

No caminho, antes de chegar novamente à Avenida Presidente Vargas, alguns pequenos tumultos começaram. As pessoas que ficaram mais para trás, perto da polícia, começaram a correr, e quem estava à frente começou a fugir também sem saber o porquê. Depois de alguns minutos, as coisas se acalmaram. Isso aconteceu algumas vezes. Falou-se que policiais empurraram manifestantes, outros disseram que não aconteceu nada, o medo só tomou conta após um susto inicial. O fato é que o clima pesou, sacos de lixo que estavam nas calçadas foram queimados e, quando os policiais viram isso, passaram a agredir quem estava por perto.

Quando se espalhou a informação de que manifestantes foram agredidos, a situação saiu do controle. Até então, toda vez que acontecia alguma ação mais agressiva de alguém que protestava, a multidão vaiava. Dava para perceber que a enorme maioria das pessoas não queria confronto ou depredação. Mas depois dos primeiros sacos de lixo queimados ou das primeiras agressões policiais, seja lá o que veio primeiro, o tumulto começou. Mais sacos de lixo eram queimados, bombas de gás explodiam por todos os lados, pontos de ônibus eram apedrejados, balas de borracha eram disparadas na direção tanto dos que quebravam os pontos e queimavam o lixo, quanto na dos que apenas observavam ou tentavam fugir.

Nessa hora, perdi contato com outros fotógrafos e cinegrafistas que estavam comigo. Estava fotografando uma nova fogueira no meio da pista quando as pessoas começaram a correr. Antes de entender o que estava acontecendo, ouvi um barulho diferente e percebi que uma bala de borracha atingiu o chão a um palmo do meu pé esquerdo. Corri e ouvi mais duas balas atingirem um ponto de ônibus a menos de um metro. Eu era o alvo! Atravessei a avenida correndo, quase sendo atropelado por um taxista que acelerava também assustado com a situação. Eu acenava com a câmera fotográfica para o alto, para tentar não ser atropelado ou alvejado, mas parece que a imprensa não estava com o moral muito alto aos olhos de policiais e taxistas.

A maior parte da multidão foi embora. Mas algumas centenas de jovens sumiam pelas ruas laterais quando as bombas explodiam, mas logo voltavam quebrando mais pontos e pichando as laterais de ônibus que passavam por lá. Novas bombas e tiros, novas pedradas e pichações se repetiam de tempos em tempos. Uma viatura da polícia estava parada na pista central e logo se viu cercada e apedrejada. Cantando pneus, fugiu para o delírio dos garotos com a simbólica vitória.

Aos poucos a multidão foi se dissolvendo. Policiais da tropa de choque cercaram a prefeitura enquanto pessoas eram revistadas com armas apontadas para o peito. Fui filmar uma entrevista com manifestantes que presenciaram essa ação policial, mas de repente um deles começou a me encarar e dizer que eu podia ser um P2 (policial infiltrado). Eu argumentei que, para mim, ele também poderia ser um. Após um mal-estar momentâneo, fui defendido por um grupo de estudantes que logo pediram desculpas. “Sabe como é, a polícia está o tempo todo infiltrando pessoas entre os manifestantes. É preciso tomar cuidado.”

Depois disso, pouco aconteceu. Mas nada acabou. A promessa dos que foram às ruas é que “se a passagem não abaixar, o Rio vai parar”. Com a internet, o que acontece no Rio acaba se tornando parte dos protestos nacionais, as conquistas dos que protestam em uma cidade são comemoradas pelos que estão se manifestando em outra. Mais do que a luta contra o aumento da passagem ou mesmo a mais exigente luta por um transporte público gratuito, essa parece ser uma luta por conscientização política. Após anos de marasmo político, uma cultura de protesto parece começar a se fortalecer no Brasil. A coisa aos poucos demonstra extrapolar a luta pelo direto de consumidor e começa a entrar no território da luta pelo direito do cidadão. Mas ainda é cedo para afirmar.

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