comportamento

Histórias de quando me caguei

Cagar nas calças, em você mesmo, se borrar, se cagar todo, feder a merda, ficar com a calça manchada de marrom na frente de geral, sentir o calorzinho da sua própria bosta na bunda, voltar pra casa sentindo pavor de ser descoberto.

por Débora Lopes
25 Novembro 2016, 6:00pm

Ilustração: Ana Mohallen/ VICE

O suorzinho gelado que bate na nuca sempre denuncia: você está prestes a se cagar. Oprimido pela sociedade, o cocô ainda é a escória das nossas relações. Estar num date e precisar cagar é sinônimo de fracasso. Estar com pessoas desconhecidas e precisar cagar ainda é um tormento. Quando, Deus, nossos cus serão livres para executar os chamados da natureza sem o cruel julgamento alheio? Não sabemos. Fato é que, quando a coisa aperta, é tenso. É difícil. Um horror percorre o corpo humano dos pés à cabeça. Gela a alma. O problema nem é cagar, é cagar nas calças, é cagar em você mesmo, é se borrar, se cagar todo, feder a merda, ficar com a calça manchada de marrom na frente de geral, sentir o calorzinho da sua própria bosta na bunda, voltar pra casa sentindo o pavor de ser descoberto. A natureza fez a maior parte da população com cus na bunda. Não temos saída.

Se você já se cagou, este é o seu lugar de aconchego. É nesse cantinho quente, macio e almofadado que você irá encontrar seu apogeu. Nossos amigos abriram seus cus e corações, mas prometemos manter seus nomes em segredo pra não dar merda. Leia histórias de quem, assim como você, não soube segurar a emoção.

Ilustração: Ana Mohallem/ VICE

CARONA FEDIDA

Não tinha nada pra fazer e resolvi ir num daqueles rolê da PUC com uma amiga e com umas amigas dela que eu não conhecia direito. Na verdade, nem com a minha amiga eu tinha muita intimidade. Fomos de carona com uma delas. Chegamos lá, bebi, tudo normal. De repente me bateu uma vontade absurda de cagar. Fui procurar um banheiro e as minas estavam fazendo xixi embaixo de um prédio e não tinha como cagar lá, mesmo. Decidi segurar e ficar na minha. Passou um tempo e ficou muito foda segurar. Não tinha como, eu tava me cagando. Uma ou duas pessoas vieram me perguntar se eu tava bem porque eu tava pálida. Eu suava frio, quase lacrimejava e não conseguia me mexer, foi uma das piores sensações da minha vida. Daí resolvi contar pra minha amiga que eu tava me cagando e que eu precisava ir embora urgente. As meninas ainda queriam ficar lá. Daí aconteceu: me caguei. No final das contas, saí da PUC meio cagada. Virei na esquina e agachei, abaixei as calças e me caguei mais na rua, tava passando muito mal. Uns meninos que passaram até perceberam que eu tava cagando, mas eu não tava nem aí.

Aí levantei as calças e fui cagada embora mesmo. O pior é que elas demoraram muito pra achar o carro e eu ainda ia voltar de carona até a casa de uma das meninas que morava perto de mim. Tive que entrar no carro toda cagada e elas ainda ficaram no carro falando: "Nossa, que cheiro ruim, né. O que será que é?". Tipo, EU SABIA QUE ERA EU, CARA.

Daí ainda tive que ir pra casa da menina pegar um táxi e ir pra casa. Chorei muito o caminho todo de vergonha, ainda mais porque tava com umas pessoas nada a ver, e minha noite acabou no tanque de lavar roupa, chorando, esfregando meu jeans e minha calcinha cagada. Humilhada.

Ilustração: Ana Mohallem/ VICE

COCÔ FORA DO VASO

Particularmente, adoro meu sistema excretor. Me sinto uma pessoa realizada quando estou sozinho em casa e posso cagar onde e como eu bem entender. Porém, na última vez, não levei esse veredito tão a sério. Estava no meu quarto, mas tinha gente em casa. Estava sentindo que meu corpinho estava preparando aquele sólido durinho e ótimo para cagar no quarto, do jeito que eu adoro, e depois levar pra privada, com papel higiênico e na mãozinha. Comecei a fazer aquele ritual de esperar o cocô chegar, sentindo aquelas batidinhas marotas na porta e aos poucos ir recebendo o feitio nesse mundo nefasto. Ao mesmo tempo, vinha aquela cólica, dando sinal de que muito estava por vir.

Na primeira leva, já me coloquei naquela posição corretíssima para soltar o tão esperado excremento, porém, do sólido quentinho inicial, deu passagem a uma jorrada no estado líquido, sem avisar. Ou seja, foi merda pra todo chão, chinelo, pé, perna, pijama e um pouco do roupão que me cobria. A merda foi tanta que o papel que tinha no meu quarto não era suficiente para limpar. E o medo de que meus pais notassem me fez causar mais sujeira entre meu quarto e o banheiro. Mas nada muito caótico.

O cheiro se proliferou no quarto, abri as janelas, limpei o chão com álcool e depois fui tomar banho. Dormi com uma certa decepção. Mas superei cagando outras vezes fora do vaso. Sou assim e vou morrer assim, Gabriela.

Ilustração: Ana Mohallem/ VICE

O FAMOSO FIO CHEIROSO

Eu tinha 18 anos e estava comprando um biquíni fio dental. Eu queria muito que servisse porque, na época, eu estava emagrecendo. Ficou quase bom, mas eu não ia levar. Soltei pum sem querer. Quando fui tirar o biquíni, vi que ele estava cheio de bosta. Tive que embrulhar o biquíni nele mesmo e comprar antes que alguém visse.

Ilustração: Ana Mohallem/ VICE

FOM FOM

Sempre tive intestino muito, muito preso, e sempre tive que apelar para laxantes e supositórios. Só que de tanto tomar esse tipo de remédio eles foram parando de fazer efeito e eu tive de aumentar a dose. Um dia que sabia que passaria a tarde toda em casa, tomei dois comprimidos de laxante e fiquei lá de boas esperando o chamado da natureza. Passaram, sei lá, umas nove, 10 horas, e nada tinha acontecido. Achei que o cocô não ia rolar e fui pra faculdade à noite. No meio da aula bateu uma onda fortíssima, parecia que meu corpo inteiro ia dissolver. Aí levantei correndo, peguei minhas coisas e fui andando em passos muito calculados pra casa. Eu tava esperando na calçada pra atravessar o último quarteirão antes de chegar no prédio que morava e o menino que tava do meu lado foi atravessando a rua no meio dos carros. Um dos veículos passou tirando uma fina do menino e deu uma buzinada. Eu tava tão concentrada em segurar os músculos do meu corpo que tomei um baita susto com a buzina e me caguei toda. Cheguei no prédio só torcendo pra ninguém entrar no mesmo elevador que eu porque não tinha nem como começar a explicar a situação.

Ilustração: Ana Mohallem/ VICE

BOLSA DE HORRORES

Não foi exatamente comigo, mas é a primeira coisa que vem na cabeça quando falam de cocô. Quando trabalhava de garçonete em um pub metido a besta vira e mexe rolava algum B.O. que a gente tinha que resolver por causa de cliente bêbado. Às vezes a gente caguetava cliente cheirando no banheiro só porque ele foi escroto e às vezes também rolava de ter que dar uma limpada no banheiro vomitado enquanto a moça da faxina (que era bem gente fina) não chegava pra dar aquela geralzona. Foi nessas vaciladas que numa noite de quinta-feira, sei lá, uma das minhas colegas me chamou assutadíssima até o banheiro principal. Ela estava bastante abalada. Quando colei no banheiro também fiquei. Era uma bolsa de colostomia bem cheia, vazando pra cacete no lixo do banheiro. Era uma parada pesadíssima, as fezes estavam líquidas e eram bem escuras (um verde escuro com notas marrons) e escorriam da bolsa. Estava bem visível, o cheiro era forte e a gente precisava dar cabo naquilo. Precisamos de três pessoas (eu, minha colega e a moça da faxina) para tirar aquele saco de lixo e não espalhar aquele fedor para o bar onde as pessoas estavam comendo hambúrguer. Nunca culpamos a moça da bolsa porque provavelmente ela estava desesperada com a situação e fez o possível para não se ferrar em público. A cena, porém, ficou gravada na minha memória para sempre. Era como ir ao inferno e voltar umas 50 vezes seguidas.

Ilustração: Ana Mohallem/ VICE

A AMBIÇÃO DE FAZER O RODÍZIO JAPA VALER A PENA

Eu sempre tive, e continuo tendo, um funcionamento intestinal bastante regular. Em condições normais de temperatura, pressão, rotina e hábitos alimentares eu costumo ir ao banheiro no mesmo horário e com o mesmo resultado. Por isso, a inesperada pontada de dor que me atingiu aquela noite só podia ser o prenúncio de uma tragédia.

Eu estava com uma amiga em um restaurante japonês, fazendo jus à minha ética pessoal de sempre tentar consumir ao menos um real a mais do que o valor do rodízio, para sentir que saí ganhando do dono do estabelecimento, quando senti uma estranha vontade de ir ao banheiro. Fui, mas nada aconteceu. Também não dei tanto tempo assim para a natureza consumar sua obra, porque em lugares públicos tenho vergonha de demorar no vaso e as pessoas perceberem o que estava fazendo.

No caminho de volta, após deixar minha amiga em casa, foi que o desespero começou. Primeiro com uns rosnados na barriga, que foram se misturando ao suor frio que escorria pela testa e pequenas ameaças de vazamento. Já plenamente consciente de que não conseguiria chegar em casa a tempo, encostei em um posto de gasolina e, disfarçando a ebulição caótica que estava prestes a jorrar dentro de mim, perguntei ao frentista da madrugada se poderia usar o banheiro. Talvez esse tenha sido meu erro: ter escondido a gravidade da situação. Pois isso fez com que ele buscasse as chaves do banheiro com toda a calma do mundo. Com as ditas cujas na mão, segui andando acelerandinho até o banheiro, e a necessidade de liberar aquilo tudo de dentro de mim crescendo na velocidade de um cometa. Um pouco parecido com o desespero de mijar que nos acomete quando estamos no elevador de casa. Fato é que, enquanto eu tentava girar a chave, a tragédia começou. Senti aquele calor pesado se avolumando. Daí pra frente foi psicopatia e caos. Entrei correndo já abaixando as calças e tentando mirar na privada. Nesse percurso, muitas partes do banheiro foram atingidas. Quando me livrei por completo do inimigo e o sangue voltou a irrigar meu cérebro pude respirar fundo e observar o saldo da desgraça. Calmamente, decidi me limpar primeiro, antes das demais providências. Porém, como em todo banheiro de posto, não tinha papel. Então eu cuidadosamente tirei meus sapatos e minhas meias e fiz uma primeira higiene. Na sequência, joguei minha cueca, que estava completamente inutilizada, no lixo. Vesti minhas calças um pouco sujas e tentei dar a descarga, que também não funcionou....

Entreguei as chaves para o frentista e, ao contrário da chegada, fui correndo até o carro, antes que ele pudesse ver o cenário de chacina com o qual teria de lidar. Dirigi o caminho todo tentando me mexer o mínimo possível para não embostear demais o banco do carro. Em casa, botei a roupa de molho, tomei um banho e desci para higienizar o veículo e deixá-lo minimamente habitável.

Ilustração: Ana Mohallem/ VICE

EXERCITANDO O CONTROLE ANAL

Mandei uma pizzona fria de manhã e fui pegar um ônibus que ia até a Avenida Paulista, em São Paulo, onde eu fazia cursinho. Quando o ônibus começou a andar, senti umas pontadas e aquela sensação. Minutos depois o negócio começou a ficar desesperador. Cheguei no banheiro do metrô literalmente com o cu na mão, só que meu controle anal não era dos melhores e na porta do sanitário começou a sair (e sair forte). Obviamente, o material não era sólido. Era uma pastinha que deixou a cueca uma conchona de bosta. Então, pra minimizar os danos, eu tentei fazer a bosta sair da cueca pra privada sem tirar o tênis, a meia e a calça jeans. Obviamente caiu na privada, no tênis, na meia, e na calça jeans. Após a merda toda espalhada no banheiro, no chão, nas roupas, e o sentimento de completa vergonha, limpei o que dava da bunda com a meia (já suja). Joguei fora as meias, a cueca, fechei a calça, botei o tênis, abri a porta e tinha uma fila gigante, porque era 7h da manhã de dia útil. Saí rapidamente sem olhar pra trás e voltei pra casa de ônibus. Dava uns 30 minutos de viagem e eu estava com a calça cagadíssima. Foi chato. Felizmente ninguém em casa me viu chegando todo cagado. Daí eu parei de comer pizza de café da manhã.

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