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Como os últimos vídeos do Estado Islâmico sugerem que a organização está diminuindo

Cresceram os posts com imagens de execução, mas a influência territorial do califado parece cada vez menor.

por Nick Miriello e Kathleen Caulderwood
09 Novembro 2016, 2:45pm

Esta matéria foi publicada originalmente na VICE News.

Se você quer saber o que está acontecendo com o Estado Islâmico, não precisa acompanhar a ofensiva em Mosul, no Iraque. É só assistir aos últimos lançamentos da máquina de propaganda da organização terrorista. Num áudio de 34 minutos gravado pelo líder do Estado Islâmico Abu Bakr al-Baghdadi, divulgado na última quinta-feira (3) — a primeira mensagem de Baghadadi em quase um ano — ele enfatiza a violência e a guerra, temas que estão cada vez mais comuns nas mensagens do grupo, enquanto suas tentativas de manter o controle de seu estado vacilam.

Desde seu começo, o EI vem construindo sua própria lenda por meio de seu braço robusto de propaganda. Mas com o grupo terrorista vem perdendo terreno em seu califado (sua interpretação de um estado islâmico) e o território no Iraque e Síria que ele passou dois anos conquistando, o EI está ficando sem sucessos para promover sua própria ação. E, como resultado disso, a tão temida operação de propaganda está sofrendo, mostrando um mergulho dramático do valor da produção e uma guinada de conteúdo desde janeiro, segundo duas novas análises de pesquisadores antiterrorismo nos EUA.

"O estado físico é essencial para a marca do EI", disse Mara Revkin, professora residente do Centro de Estudos da Lei e Civilização Islâmica da Escola de Direito de Yale, que estuda o sistema legal e o governo de grupos militantes. "Mas com o EI se preparando para perder Mosul, a questão é se essa marca vai continuar atraente para recrutas e financiadores em potencial, agora que o grupo não consegue mais cumprir seu lema de 'ficar e expandir.'"

Um estudo publicado no começo de outubro pelo Centro de Combate ao Terrorismo de West Point dá um vislumbre de como a perda de território do grupo já afeta os exercícios de propaganda do EI. Pesquisadores focaram na mídia visual "oficial" produzida pelo EI e distribuída em seus canais oficiais desde janeiro de 2015, analisando quase neve mil imagens e vídeos. O que eles observaram nesse período dá mostrar de um declínio acentuado no califado antes em expansão.

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Em números, o relatório mapeou um declínio significativo em192 postagens, no pico de atividade da máquina de propaganda do EI, em agosto passado, eram mais de 700 postagens nos canais oficiais. As postagens gerais começaram a cair em janeiro deste ano, coincidindo com a perda de 16% de território conquistado pelo movimento, segundo um relatório de outubro publicado pelo IHS Conflict Monitor, uma empresa de pesquisa de Londres.

Os esforços no Twitter e outras redes sociais para restringir e remover o fluxo de propaganda do IE provavelmente contribuiu para a queda nas postagens, mas o estudo do CTC sugere que avanços maiores são necessários para reagir aos esforços do grupo.

"O califado está, em muitos aspectos, enfraquecendo e sob muita pressão", disse Dan Milton, diretor de pesquisa do CTC e autor do estudo. "Essa pressão e as fontes reduzidas de financiamento têm limitado a capacidade de governar do jeito como eles gostariam."

Os vídeos de orientação militar são o alicerce da propaganda do EI, mas a habilidade do grupo de governar tinha um peso quase igual — na média respondendo por um quinto da mídia analisada por Milton e um quarto dos vídeos do EI revisados num estudo diferente por Javier Lesaca, analista do Counter Extremism Project.

O califado era a assinatura de conquista do grupo, apresentando ao mesmo tempo a visão mais clara de suas ambições de um estado-nação e fornecendo uma diferenciação de seu antepassado mais sombrio e amorfo, a Al-Qaeda, que nunca conseguiu estabelecer um estado em si.

No pico da produção, no verão de 2015, o EI tinha estabelecido a infraestrutura para uma máquina avançada de propaganda, que contava com seis meios centrais de produção e distribuição e 33 bureaus regionais. Mas não era simplesmente a capacidade do grupo de produzir muito conteúdo que favoreceu seu crescimento. Como Milton escreve em seu estudo, a oferta "diversa de temas" da propaganda dá "uma explicação provável" da sua "capacidade de atrair um grupo diverso de combatentes e partidários ao redor do mundo".

Lesaca identificou quatro temas centrais nos vídeos de propaganda do EI: entrevistas com terroristas, sucessos em batalhas, bom governo e violência cinematográfica. (O estudo do CTC identificou temas similares na propagada midiática do grupo, além de outros dois: "comercial" e "estilo de vida".)

A violência cinematográfica pode ser o tema mais associado ao EI para a maioria dos leitores, graças em parte ao infame vídeo da execução do jornalista James Foley em 2014, que funcionou como a introdução do grupo ao mundo fora da Síria e Iraque. Mas Lesaca descobriu que vídeos do tipo respondiam por uma parcela menor da produção do grupo de janeiro a setembro de 2016, apenas 15% em média. Na verdade, o bom governo e as entrevistas com militantes do EI respondem por bem mais da metade dos vídeos do grupo na média, a pesquisa deles descobriu.

O Estado Islâmico está vendendo a aparência de um estado-nação funcional e próspero.

O estudo do CTC descobriu tendências similares. Muitos dos vídeos do grupo e outras mídias visuais retratam soldados segurando a mão de crianças, amigos nadando num rio, ou homens pregando a grandeza da filosofia do EI para massas escolhidas. Da mesma maneira que uma publicidade de viagem para a Disney parece uma boa ideia à 1 da madrugada do domingo para jovens pais cansados, esses vídeos visam seduzir jovens que se sentem alienados e estão procurando uma alternativa. Simplificando, o EI está tentando vender algo maior que uma marca de terrorismo, ele está vendendo a aparência de um estado-nação funcional e próspero.

Enquanto a coalizão peshmerga iraquiana e curda apoiada pelos EUA cerca a fortaleza do EI em Mosul — onde o líder do grupo anunciou o califado pela primeira vez — e enquanto o grupo perde territórios simbólicos como Dabiq, a cidade onde a profecia do EI dizia que uma luta apocalíptica aconteceria, a mensagem-chave do EI de bom governo vai ficando vazia. Como resultado, sua visão utópica de antes, não importa o quão fabricada fosse, perdeu lugar para o apocalíptico.

A pesquisa de Lesaca apontou uma guinada das narrativas esperançosas da construção de um estado e um bom governo para cenas mais sensacionalistas de guerra e sadismo, que atraíram a atenção do mundo para o grupo originalmente. Cenas do campo de batalha e execuções correspondem a 18 dos 24 vídeos divulgados pelo EI em agosto e 12 de 20 lançados em setembro.

"Setembro mostrou a maior alta já vista de execuções filmadas pelo Estado Islâmico desde que o grupo começou a prática", disse Alexander Meleagrou-Hitchens, pesquisador do Programa de Extremismo da Universidade de Washington. "Então realmente parece que o foco mudou para imagens mais violentas e militares."

Lesaca disse que o grupo está simplesmente pensando de maneira prática. "Eles precisam continuar fazendo propaganda, mas só têm recursos para fazer o que estão fazendo agora."

O EI divulgou apenas nove vídeos em outubro, disse Lesaca, sete deles correspondentes a cenas de batalhas ou execuções. Os retrocessos territoriais recentes fizeram especialistas e pessoal militar imaginarem como a propaganda do EI será depois da queda do califado.

"O EI atrai recrutas por meio de mensagens positivas defendendo sua existência", disse Meleagrou-Hitchens. "Se o grupo perder a capacidade de fazer essas reivindicações no futuro, a eficácia de sua mensagem provavelmente acabará enfraquecida."

Ainda assim, Milton adverte aqueles ansiosos para anunciar a derrota final do grupo: "Apesar de a propaganda ter diminuído, o Estado Islâmico ainda é um adversário poderoso ao vivo e no ciberespaço."

O EI já está tentando criar uma narrativa digital que dure o suficiente para resistir à perda de territórios. "Eles estão se preparando para a derrota em Mosul e Raqqa", disse Scott Atran, pesquisador sênior da Universidade de Oxford. Ele citou mudanças recentes na propaganda que apresentam as derrotas atuais como "temporárias", enquanto reforçam a ideia de que o califado vai sobreviver "no coração das próximas gerações".

Revkin fez uma observação similar, mas cética: "O aparato de mídia do grupo não depende do controle territorial, e os propagandistas do EI já estão tentando reverter derrotas militares recentes e futuras como retiradas meramente temporárias no caminho para a vitória".

Mas ela questiona a capacidade do grupo de continuar cortejando novos recrutas e reter os existentes em meio a um califado murchando e possivelmente "sem país", especialmente quando grupos terroristas alternativos fortalecidos, como o Jabhat Fateh al-Sham na Síria e o Talibã no Afeganistão, estão capturando novos territórios. Revkin relembrou uma conversa que teve com um ex-membro do EI na Turquia que estava planejando se juntar ao JFS. "Eles são o novo Estado Islâmico", ele disse.

Tradução: Marina Schnoor

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