Tropa de Choque, Cavalaria e Caveirão X Manifestantes Nas Ruas do Rio de Janeiro

Já confirmado como um dos maiores protestos da história da cidade, o do dia 20 de junho foi também um dos mais violentos, complexos e caóticos enfrentamentos entre sociedade civil e polícia no Rio de Janeiro.

Já confirmado como um dos maiores protestos da história da cidade, o do dia 20 de junho foi também um dos mais violentos, complexos e caóticos enfrentamentos entre sociedade civil e polícia no Rio de Janeiro. Avenida Presidente Vargas e Rio Branco, Cidade Nova, Candelária, Cinelândia, Alerj e Lapa foram alguns dos principais pontos da cidade tomados por manifestantes, Tropa de Choque, Cavalaria e até mesmo pelo famoso e odiado “Caveirão”, o veículo blindado da polícia militar.

Entre 300 mil e um milhão de pessoas — isso mesmo, ninguém sabe o real número e os especialistas oscilam entre os dois valores — se uniram para comemorar, com muitas ressalvas, o cancelamento do aumento das tarifas de transporte urbano.

A manifestação saiu novamente da Candelária, mas dessa vez não virou na avenida Rio Branco, seguindo direto pela Presidente Vargas em direção à Prefeitura. Tudo acontecia em clima de paz e descontração e era considerável o número de famílias, idosos e pré-adolescentes participando. 

O primeiro sinal de tensão veio de enfrentamentos entre manifestantes e membros de partidos que levavam suas bandeiras e andavam em blocos — que chegaram a ser agredidos, como em SP. Os interesses envolvidos são muitos e não é difícil perceber, após o susto inicial, a direita tentando direcionar os protestos, tanto na grande mídia quanto nas ruas. Mas um enfrentamento maior, dessa vez com a polícia, estava prestes a acontecer e a coisa ficou feia nos arredores da Prefeitura. Ao chegar lá, as pessoas encontraram policiais que cercavam o prédio. Logo à frente estava a cavalaria, e na lateral o Caveirão. Aqueles cavaleiros armados e enfileirados de frente para o mar de manifestantes era a mais perfeita expressão da animosidade que precede o tumulto. A pergunta não era se haveria enfrentamento, mas quando.


 

E a resposta veio muito rapidamente. Jogando fogos de artifício na direção da polícia, alguns poucos manifestantes assustaram os cavalos e despertaram a ira dos policiais. Logo as primeiras bombas foram atiradas, o gás se espalhou, a cavalaria foi para cima de quem estava por perto. Na sequência, o Caveirão entrou em cena, avançando e dando cobertura a policiais que atiravam mais bombas. As pessoas fugiram voltando pela avenida ou subindo pelo viaduto em frente enquanto uma minoria ficou resistindo, jogando pedras e fogos contra os policiais.

Mas o terreno amplo ao redor da Prefeitura favorecia a polícia, era muito mais fácil dispersar a multidão naquele campo aberto com pouquíssimos lugares para se abrigar de tiros e bombas, do que havia sido nas cercanias da Alerj.

Em seguida, a polícia rumou pela Presidente Vargas contra pessoas que ainda estavam em um ritmo festivo e nem sabiam o que havia acontecido. Acompanhei a cavalaria com outros jornalistas e vimos um cenário de destruição sem precedentes. Placas arrancadas, postes de metal derrubados, pontos de ônibus estilhaçados. O chamado Terreirão do Samba estava em chamas: alguns dos manifestantes foram atacados pela polícia, após fugirem, invadiram o local e queimaram barracas. Depois dos bombeiros agirem, a passagem foi liberada e seguimos em frente.

Dois jovens foram abordados pela polícia por estarem carregando um líquido. Eles explicaram que era apenas tinta guache e água para pintarem os rostos de verde e amarelo, mas mesmo assim foram forçados a deitar de bruços, com armas apontadas para suas cabeças. Um grupo de pessoas tentou dialogar com os policiais para que os soltassem, mas os ânimos estavam muito exaltados e um dos PMs, que estava sem identificação no uniforme, começou a gritar para todos que estivessem com máscaras que as tirassem ou seriam presos. Olhamos ao redor e ninguém estava mascarado, havia somente algumas máscaras contra gás penduradas nos pescoços de alguns. Um senhor com sotaque nordestino sorriu e disse que “o coronel deve estar usando uma metáfora quando nos pede para tirarmos nossas máscaras sociais”, provocando o riso de quem ouviu. Após muita insistência, desistiram de prender as duas pessoas por porte de tinta guache. Todos começaram então a gritar: “O povo unido jamais será vencido!”. Os policiais caminharam até a outra calçada, um deles se virou e simplesmente arremessou uma bomba em cima da gente.

Esse tipo de atitude — jogar uma granada de gás em pessoas que não fizeram nada além de comemorar uma prisão injusta que deixou de ser feita — foi comum ao longo do resto da noite. Fui caminhando até a Cinelândia e ao chegar encontrei pessoas sentadas pelas escadarias do Teatro Municipal e nos bancos da praça. Mesmo assim, o Caveirão passou diversas vezes soltando gás lacrimogêneo e, como se não bastasse, um policial desceu do veículo e arremessou bombas nas pessoas. A revolta entre os manifestantes voltou a crescer e após uma discussão com policiais, alguém jogou pedras neles. Novos tiros e bombas nos expulsaram de lá e nos conduziram ao único caminho possível que levava ao famoso bairro boêmio da Lapa.

Lá, me vi junto com muitos outros em uma ilha cercada de policiais cheios de agressividade por todos os lados. Quem tentava sair por qualquer rua era alvejado por balas de borracha e quem ficava parado era vítima das bombas de gás. Não era possível voltar à Cinelândia e nem pegar as ruas que levavam ao outro lado — Tijuca e Estácio.

Esperando as coisas se acalmarem e tentando sair da linha de fogo, muitos manifestantes (que a esta altura só manifestavam cansaço e vontade de conseguir sair daquele pesadelo) ficaram em um posto de gasolina. Mas a polícia passava periodicamente jogando bombas de gás.

Tossindo e vomitando, as pessoas não tinham para onde ir, já que todas as ruas estavam cercadas. Uma garota falou que não aguentava mais e que iria embora. Foi caminhando sozinha pela calçada e desapareceu. Voltou em poucos minutos com a barriga em carne viva após levar um tiro de bala de borracha à queima-roupa. Demorou ainda um bom tempo até que eu decidisse me arriscar e sair. Com muitos desvios e alguns perrengues, consegui escapar da Lapa.

Após a tomada da Alerj nos últimos protestos e a fuga da Tropa de Choque, eu imaginava que a repressão policial seria pesada, mas mesmo assim  fiquei impressionado com o grau de violência contra os manifestantes. Presenciei um crescente sentimento de injustiça, em muitos manifestantes, que logo se desenvolveu para o ódio. Ouvi pessoas afirmarem que sempre foram contra o vandalismo e a violência, mas que estavam mudando de ideia após presenciarem e sofrerem abusos policiais nesta noite de protestos.

Anteriormente: A Tomada da Alerj.

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