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A Ciência Pode Ter Achado um Jeito de Apagar Memórias Ruins com Gás

Edward Meloni, professor-assistente de Psicologia em Harvard, descobriu um novo método que usa gás xenônio – um gás nobre que ficou conhecido no YouTube por deixar a voz mais grave –, podendo ajudar a esquecer traumas.

por Stephen Bell
18 Fevereiro 2015, 11:00am

Imagem via Xenon gas therapy, do site heroindetoxeurope.com.

Todo mundo tem momentos da vida que gostaria de esquecer. Conversas bêbadas com colegas de trabalho, sua mãe entrando no quarto quando você estava se masturbando, aquelas férias que você passou lendo On the Road...

Mas isso não é nada comparado a se sofrer de TEPT (transtorno de estresse pós-traumático). Pessoas que passaram por um trauma e que não conseguem processar ou lidar com isso geralmente se sentem impotentes e vulneráveis, podendo sofrer de males emocionais e físicos como estresse, agressividade e insônia.

Só metade dos pacientes com TEPT se reabilita depois de terapia intensiva. A outra metade fica presa a um transtorno que pode tornar a vida insuportável. Para esse pessoal, a única solução talvez seja apagar completamente essas memórias traumáticas.

Isso parece mais dramático do que realmente é. Edward Meloni, professor-assistente de Psicologia em Harvard, descobriu um novo método que usa gás xenônio – um gás nobre que ficou conhecido no YouTube por deixar a voz mais grave –, podendo ajudar a esquecer traumas.

Meloni testou o método em ratos, que foram ensinados a terem medo vendo imagens específicas enquanto recebiam choques elétricos. Depois, essas imagens faziam os ratos suarem e seu batimento cardíaco acelerar. "Mas, quando administrávamos gás xenônio, um gás que antagoniza com os receptores NMDA (de onde o medo vem), os ratos pareciam esquecer o medo", diz Meloni. "Esperamos que o FDA aprove nosso tratamento em breve; então, poderemos começar os testes em humanos dentro de um ano."

A ideia de poder apagar memórias é tão emocionante quanto assustadora. E se algo der errado? Meloni argumenta que isso não é tão drástico como alguns filmes e livros de ficção científica nos fizeram acreditar. "Pesquisas mostraram que o xenônio pode remover a carga emocional de uma memória traumática, mas não a memória em si. A chance de essas memórias desaparecerem completamente é bem pequena."

Mas, então, existe uma chance. Memórias nos tornam quem somos: logo, se elas desaparecerem, você pode sair do tratamento como uma pessoa completamente diferente. Meloni pareceu bem menos assustado com essa possibilidade do que eu. "Mesmo se a memória desaparecer completamente, ainda vamos querer usar o método em alguns casos."

De acordo com o professor, o xenônio é inofensivo – isso já é usado para vários fins, incluindo anestesia. Além disso, a droga seria usada apenas em casos extremos: para pessoas que não apresentaram melhora com tratamentos convencionais. "Desde que meu estudo apareceu na mídia, tenho recebido centenas de e-mails e ligações de pessoas que querem se livrar de seus traumas a qualquer custo", conta Meloni. De acordo com ele, quem se opõe ao tratamento não sabe pelo que pessoas traumatizadas passam. "É preciso perceber que uma vida inteira é arruinada depois de um trauma assim. Consequentemente, a pessoa acaba fazendo escolhas erradas, que podem levar a ainda mais problemas."

Supondo que traumas possam ser completamente esquecidos, que tipo de efeitos isso poderia ter na nossa sociedade? Fiz essa pergunta ao professor Douwe Draaisma, especialista na natureza e nos processos da memória humana.

"Na literatura ética, você encontra o exemplo da 'pílula do esquecimento', uma pílula que apaga sua última memória. Vamos supor que uma vítima de estupro tome uma dessas pílulas – então, as consequências para o estuprador poderiam ser menos severas", comparou Draaisma. "Ou pior: o estuprador poderia forçar a vítima a tomar a pílula. Esse é um dos dilemas que tratamentos assim trazem."

Essa hipótese me pareceu um pouco exagerada, mas Draaisma me disse que algo similar já aconteceu. "Uma garota autista foi pega roubando uma loja e cortou alguém com uma tesoura. Nesse caso, a perpetradora acabou traumatizada e sofrendo de vários sintomas de TEPT. Ela teve de ser julgada, e os médicos aplicaram um tratamento EMDR para ajudá-la a lidar com o trauma." A perpetradora não sentia mais o peso emocional do que tinha feito, mas você pode imaginar o que isso significou para a punição que ela deveria receber.

Mas debater a questão como se estivéssemos lidando com meras hipóteses me pareceu estranho. Encontrei o site heroindetoxeurope.com; aparentemente, um médico de Belgrado, Dr. Vorobiev, já vem fazendo experimentos com gás xenônio há algum tempo. Sua clínica visa principalmente britânicos que querem se livrar do vício em drogas. O Dr. Vorobiev não respondeu minhas tentativas de contato, mas Meloni ficou muito feliz quando contei sobre a prática desse médico. "Talvez possamos trabalhar com os sérvios para testar se isso realmente funciona", ele frisou.

O entusiasmo de Meloni pode ter algo a ver com o fato de que, nos EUA, pelo menos 22 veteranos de guerra cometem suicídio todo dia. Alguns veteranos que sofrem de TEPT usam MDMA como tratamento; outros, por sua vez, encontram consolo em festas loucas numa mansão cheia de strippers e juggalos. Talvez os tempos exijam medidas drásticas – mesmo que isso signifique investir numa solução à la Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças e apagar completamente uma memória.

Tradução: Marina Schnoor

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