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Por que as ressacas ficam tão horríveis depois dos 20 e poucos anos?

Buscamos uma explicação cientìfica para o sentimento de dor e morte que sempre acompanha as noites de chapação.

por Matilda Whitworth; ilustrado por Michael Dockery; Traduzido por Marina Schnoor
09 Junho 2016, 5:00pm

Ilustrações por Michael Dockery.

Numa época da minha adolescência eu era invencível. Eu podia beber e dançar até fechar a boate, depois ir direto pra aula às 8 totalmente de boa. Mas com a idade vieram as ressacas. Com o tempo apareceram dores de cabeça e náuseas leves, que evoluíram para algo bem pior. Hoje em dia, mesmo as noites mais calmas me fazem sentir como se eu tivesse tomado uma surra de uma bola de pilates.

Mas por que as ressacas pioram com a idade? Antes de tentarmos responder essa pergunta, é importante entender como o álcool leva à ressaca.

O álcool tem muitos efeitos no corpo, e vários deles têm papel na ressaca — apesar de alguns ainda serem pouco compreendidos. Álcool dilata os vasos sanguíneos do cérebro e inibe a liberação do hormônio antidiurético, levando a dores de cabeça e desidratação respectivamente. Ele também irrita o revestimento do estômago, causando náuseas, vômito e aumentando os níveis dos mediadores inflamatórios prostaglandina E2 e tromboxano B2. Esses químicos causam náusea, diarreia e, de novo, dores de cabeça.

Isso explica por que você se sente podre no outro dia, mas o álcool também inibe a produção de glutamina, um estimulante natural, por isso a sensação de canseira. Mas por que tudo isso piora com o tempo?

Como ex-química, o fator da ressaca que mais me interessa não são os impactos diretos do álcool, mas como o corpo lida com eles. Para tirar o álcool do corpo, o fígado primeiro o quebra em algo chamado acetaldeído. Se você consome apenas uma pequena quantidade de álcool, o fígado consegue quebrar o acetaldeído rapidamente em acetato inofensivo. Mas como o corpo só consegue processar uma quantidade fixa de acetaldeído por hora, beber em excesso leva a um atraso, o que significa danos celulares e de tecido e os efeitos associados à ressaca.

Ilustração por Michael Dockery.

A teoria — que ainda não foi comprovada — é que com a idade, o fígado vai ficando menos eficiente: o número de células dele caem e a pressão sanguínea para os órgãos diminui. O que significa que o fígado acumula acetaldeído mais depressa quando bebemos, causando um baita estrago.

A idade também diminui a capacidade do corpo de produzir antioxidantes que lidam com os efeitos tóxicos do álcool. Isso, mais um fenômeno chamado imunossenescência (o enfraquecimento gradual do sistema imunológico com a idade), significa que o corpo não consegue curar a inflamação e os danos causados pelo álcool como fazia antes.

Quanto mais velhos ficamos, outros fatores também começam a pesar mais. Adultos mais velhos podem não dormir tão bem devido à diminuição da produção do hormônio do sono melatonina, e isso pode ser exacerbado pelo álcool. A composição do corpo também muda com a idade, levando a diminuição da massa muscular e total da água no corpo, além de um aumento no depósito de gordura. O álcool tem menos chances de ser distribuído em gordura comparado a músculos (como você sabe, óleo e água não se misturam), o que se junta à diminuição da água nos vasos sanguíneos, significando uma concentração mais alta de álcool no sangue.

Então como podemos reduzir os impactos da ressaca? Muitas das supostas "curas" são discutidas há anos, incluindo uma história de beber suco de pêra (apoiada por cientistas australianos) antes de manguaçar. Infelizmente, muitas dessas curas estão em estágios preliminares de pesquisa (mesmo essa das pêras), ou são pura bobagem. Na verdade, em 2005, o British Medical Journal publicou uma revisão sistemática de testes de controle aleatórios, examinando as muitas curas em potencial para a ressaca (como propanolol, tropizetrona, ácido tolfenámico, frutose, glicose, borragem, alcachofra, figueira da Índia e preparados à base de levedura). Resultado: nenhuma delas passou no teste.

Mas onde isso deixa a gente, o pessoal não tão novo assim que quer encher a cara? Bom, é melhor não beber de estômago vazio, e tomar água entre as doses e antes de dormir. Mas até que uma cura milagrosa seja descoberta, o único jeito de impedir uma ressaca mortal ainda é ficar só no suquinho.

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Tradução: Marina Schnoor

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