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Mick Rock fotografou tudo que você ama

Falamos com o icônico fotógrafo a respeito do documentário produzido pela VICE Films sobre a sua carreira retratando as maiores lendas do rock and roll.

por Alex Robert Ross
25 Abril 2017, 6:58pm

Matéria originalmente publicada no Noisey UK.

Mick Rock é o Homem que Fotografou os Anos 70, mas ele não gosta desse termo — e também não curte muito ser chamado de ícone. "Isso só quer dizer que estou ficando velho", me fala em um telefonema da sua casa em Manhattan. Mas é difícil se livrar deste tipo de rótulo. Os seus retratos capturaram e definiram a música nos últimos 40 anos, incluindo a fase Ziggy Stardust de David Bowie e a carreira de Lou Reed depois do Velvet Underground. As fotos dele estampam as capas dos discos Raw Power, dos Stooges, e Queen II, do Queen. Ele também estava lá quando a cena glam que ele fotografou em pleno êxtase começou a endurecer e a se questionar e quando o Motley Crue trocou os clubes de sexo underground por casas de striptease cheias de cocaína. Recentemente, ele fotografou Father John Misty, Janelle Monáe e Karen O. Consciente ou inconscientemente, você já viu o trabalho dele.

Shot! The Psycho Spiritual Mantra of Rock, documentário de Barney Clay sobre o fotógrafo londrino, produzido pela VICE Films, retrata a sua carreira em ordem cronológica — de Londres a Nova York, do glam ao punk, da decadência ao vício, até chegar à recuperação — mas seguidamente volta à experiência de quase-morte que ele teve em 1996, quando a cocaína lhe deu um tremendo susto — e quatro pontes de safena. Rock amava tanto a droga que fez uma série de fotos com ela como tema no começo dos anos 80; as fotografias são lindas, mas ninguém consegue manter esse estilo de vida.

Considerando que Rock teve total controle sobre cada foto e escolha estética sua durante 40 anos, não surpreende que ele tenha passado grande parte dos cinco anos de produção do documentário em guerra com Clay, e, embora o filme o capture no seu período mais lúcido, ele ainda não tem a menor disposição para qualquer tipo de — palavras dele — merda. Leia abaixo a nossa conversa, que foi editada para maior clareza e brevidade.

Noisey: Assisti ao documentário hoje de manhã. Ele é ótimo.
Mick Rock: Ah, você assistiu? Ele é diferente, não é? Não queria que fosse chato, com um monte de gente falando, justificando minha existência. Essa é uma abordagem entediante.

Quando você o assistiu pela primeira vez?
Eu vi pelo menos meia dúzia de versões, e todo mundo recebeu um monte de críticas minhas. Eu fiquei em cima, pode acreditar. Não gostei dele durante um tempo, mas está muito diferente do que era. Foi deprimente no início, mas acho que isso foi porque eu estava doente durante boa parte [da produção] dele. Mas foi ficando cada vez melhor. Eu estava disposto a continuar mudando [o filme], mas todo mundo parecia gostar dele, então Barney e eu estamos nos amando de novo.

Muitas pessoas se aproximaram de mim querendo fazer um documentário, inclusive o pessoal que fez O Equilibrista. Mas sou agorafóbico, então assisti [a O Equilibrista] tapando os olhos e disse a eles que não podia fazer um documentário com eles de jeito nenhum. Toda vez que pensasse neles, pensaria na porra de um lunático andando entre dois prédios sem rede de proteção. Não quero nem falar nisso, me deixa apavorado. Barney é talentoso e nunca tinha feito um documentário antes, o que é importante para mim. A maioria dos documentaristas coloca um monte de gente falando no filme. Olhe as fotos — ou você gosta delas, ou não.

Como foi entregar a responsabilidade visual nas mãos de outra pessoa?
Minha esposa vivia dizendo para mim: "Mick, você está tentando dirigir esse documentário?". Eu dizia: "Não, não estou". Vamos encarar, sou um diretor. Dirijo todas as minhas sessões de fotos. Já dirigi videoclipes. Já dirigi outras coisas — mas nada com 93 minutos de duração. Acharia difícil dirigir um documentário sobre alguém que está vivo — você precisa matar o seu objeto antes de começar. Vivia dizendo para Barney: "Você provavelmente ficaria mais confortável se arranjasse alguém para me matar". Mas disse isso com um senso de humor negro. Ainda não estou pronto para morrer.

Eu sempre tentava entrar na porra da sala de edição, mas eles fizeram todo o possível para me manter fora dela. Era um verdadeiro jogo de gato e rato. Era importante para mim que o meu trabalho fosse representado de uma maneira verdadeira. Sei que todo mundo quer isso, porque lido com isso o tempo todo. Quando o Barney ficou sabendo das fotos da cocaína, eu disse: "Não, não quero mostrá-las". Mas, no fim, eu as mostrei. Olho para elas e digo: "Ufa, fiz um ótimo trabalho, na verdade. É branco e brilhante". Lembro de falar para alguém: "Eu provavelmente teria sido um ótimo fotógrafo de natureza morta", e essa pessoa me respondeu: "Qual é, Mick. Você só tirou ótimas fotos de cocaína porque estava apaixonado pelo seu objeto. Você não poderia se apaixonar por um caixote de verduras ou algo do tipo". E é claro que isso era verdade.

Perto do fim do filme, você diz que não queria falar muito sobre o tempo que passou no hospital.
Queria que aparecesse bem menos — e consegui isso. Chegamos num ponto de equilíbrio, e acho que no fim ele fez um ótimo trabalho. Às vezes, os melhores resultados vêm de duas tensões criativas, mas houve uma soma das duas mentes — minha e do Barney — e sem dúvida somos amigos de novo. Houve períodos em que ninguém sabia direito que rumo tomaria o filme, mas o resultado final justifica a loucura e a insanidade do processo.


Você se descreve como "alguém de dentro olhando para fora". Tudo que você faz parece uma parceria. Há similaridades entre esse trabalho e o processo de criação do documentário?
Eu não jogo simplesmente alguém na frente da minha câmera. Nunca estudei fotografia, mas tive um colega de quarto que estava estudando para ser ator e me apresentou um livro, A Preparação do Ator, [do] pai do Sistema [de atuação, Constantin Stanislavski]. Nunca me esqueço de um capítulo em particular em que ele fala sobre levar as pessoas para um espaço cru e construir um círculo de concentração. Não sou um cara rápido, então gosto de dedicar tempo às coisas e construir uma certa energia. Quando você lida com músicos, muitos deles prefeririam estar tocando do que em frente a uma câmera — exceto David Bowie. Ele sempre gostou de estar na frente da câmera. Lou [Reed] era assim comigo também. Eu e ele sempre nos divertimos. Mas construir um círculo de concentração é como ser um cozinheiro. Você mexe, acrescenta, prova e, depois de um tempo, as fotos saem praticamente sozinhas.

Você diz que não se lembra de alguma vez ter feito uma sessão sem antes plantar uns minutos de bananeira e que a ioga sempre teve um papel importantíssimo no seu processo.
As minhas fotos mais antigas pelas quais as pessoas se interessam obviamente são as do Syd Barrett. As sessões do Madcap [Laughs, primeiro disco solo do ex-Pink Floyd, de 1968] são anteriores ao meu envolvimento com a ioga. Mas aprendi a meditação transcendental muito jovem também. Gosto de misturar de tudo — ioga, cocaína, sexo, privação de sono e de comida. Você consegue atingir estados incríveis de consciência e existência misturando todas essas coisas. Certamente não eram só as drogas — a ioga é anterior ao vício em cocaína, que começou mesmo, provavelmente, quando vim [para os Estados Unidos] para fazer a turnê Rock and Roll Heart com o Lou. Em Londres, você não via muita cocaína naquela época. Você via anfetaminas, mas não pó. Enquanto que em Nova York, nossa. E tinha as garotas. Elas também estavam totalmente fora de controle. Coloco toda a culpa nas garotas e nas drogas. Só se aproveitaram de mim. Pelo menos essa é a minha versão da história. Acho que a minha primeira esposa caiu nessa.

Seria adequado dizer que você é um ícone?
Isso só quer dizer que estou ficando velho.

Qual é uma maneira mais delicada de dizer isso? "Lenda" soa pior, não é?
Soa como se fossem me enfiar na porra de um armário e me tirar de lá de vez em quando para tirar o pó. Mas ainda amo fotografar! Mas não tenho muita oportunidade, porque preciso lidar com todas as outras coisas — inclusive falar com você. Antigamente, quem queria falar com um fotógrafo? Ninguém com a porra de um cérebro, isso é certo. Quem são os ícones de hoje? Sua última cena no documentário é com o Father John Misty. A sessão que eu achei realmente interessante foi a com Janelle Monáe — ela é realmente icónica, no sentido mais verdadeiro da palavra.
Ela é uma verdadeira artista, com certeza. Vou te falar quem eu gostaria de fotografar — Bruno Mars. Já está mais do que na hora de eu fazer isso. A minha agenda está totalmente enlouquecida. Estou tipo: "Foda-se tudo isso". Queria poder coçar o saco por algumas semanas.

Mas você gostaria de fotografar o tempo todo, quando não está fazendo esse tipo de coisa?
Isso é o que eu mais curto. Mas também aprendi que vivemos numa época em que todo mundo vende de tudo. Sei que querem me transformar numa porra de uma marca gigante. Me falam isso há anos, agora mais do que nunca. O que eu vou fazer? Colocar meu nome num batom? Batom para Homens, por Mick Rock. Acho que isso seria incrível. Um tom diferente e muito bonito de fúcsia.

Eu investiria nisso.
Bem, você compraria. Você faria isso. Um batom do Mick Rock para combinar com os sapatos de salto alto e a cinta-liga que eu tenho certeza que você usa. Você é inglês, é inevitável.

Com essa frase, me despeço de você, Mick.
Certo, querido. Foi um prazer falar com você. Espero que você consiga dar algum sentido a esta conversa. Provavelmente vai acabar virando mentiras e propaganda, na sua maior parte. Mas eu nem ligo mais. Mentira. É o jogo que estamos jogando, não é? É um jogo que você joga também. Talvez algum dia possamos nos encontrar. Uma orgia em algum lugar. Sim, você participa, eu assisto. Que tal?

Todas as fotos são cortesia de Mick Rock e Magnolia Pictures.

Tradução: Fernanda Botta