reportagem

Presidente da Turquia tem poderes ampliados depois de referendo

Recep Tayyip Erdogan saiu vitorioso do plebiscito em que institui o sistema presidencial no país. Partidos da oposição pedem a recontagem dos votos.

por Kaya Genc
17 Abril 2017, 5:00pm

Esta matéria foi originalmente publicada na VICE News .

16 de abril parecia o primeiro dia de verão em Istambul. Um dia ensolarado, as ruas cheias de gente indo para as escolas locais que servem como zonas eleitorais; a imensa excitação com o resultado do referendo presidencial era palpável no ar.

No domingo (16), as pessoas deveriam dizer o que achavam da ideia de a Turquia passar para um sistema presidencial em vez de uma democracia parlamentar. No final do dia, o presidente Recep Tayyip Erdogan reivindicou a vitória num referendo fechado que provavelmente vai garantir novos poderes a ele; críticos dizem que isso coloca o país um passo mais perto do autoritarismo, simpatizantes afirmam que a decisão tornará o ramo executivo mais eficiente. Desde a tentativa de golpe em julho passado que custou a vida de 248 pessoas, 47 mil pessoas foram presas e 120 mil foram demitidas ou afastadas de seus empregos, segundo a Reuters.

Na Zografeion, uma escola grega no coração de Cihangir, o bairro boêmio de Istambul, os corredores estavam lotados. Logo depois das 10h, um idoso procurava freneticamente sua sala de votação numa lista colada na porta da escola.

Policiais de guarda na entrada assistiam com pouco interesse o homem que parecia ter esquecido de registrar seu endereço antes do final do prazo, portanto não podia votar. Uma mulher loira carregando um bebê entrou no prédio logo depois que o idoso foi embora com uma expressão triste no rosto. Ela, no entanto, parecia muito contente.

Lá fora, nas ruas levando à Avenida Istiklal e ao Parque Gezi, a sensação de primeiro dia de verão persistia. Assisti aos eleitores passando em roupas novas de verão, procurando os melhores cafés a céu aberto para se refugiar antes de entrar no modo ansioso de espera dos resultados de um referendo com poder para mudar o futuro da Turquia.

"Valorizo muito a separação de poderes e só quero continuar gostando de viver neste país", disse Derya Demir, ex-galerista que votou no bairro à beira mar de Emirgan, à VICE.

Como ela, muitos jovens turcos postaram fotos suas votando no Instagram, pedindo que seus seguidores fizessem o mesmo. (A taxa de comparecimento foi de incríveis 85% ou mais, então pedidos de mobilização parecem ter funcionado.)

Mas foi a imagem de Nusret Gokce, o chef turco que viralizou nas redes sociais com sua pose "salgando a carne", que criou frenesi no mundo digital turco. A estrela da internet postou uma foto sua jogando a cédula na urna com sua famosa pose. "Pronto", ele escreveu na legenda da imagem.

No bairro luxuoso de Nisantasi, visitei a escola Nilufer Hatun, lotada com centenas de eleitores. Uma barraquinha vendendo refrigerante estava fazendo bons negócios na entrada.

Mais tarde, num café, encontrei Emrah Usta, um especialista que trabalha para a presidência da Turquia. "Esse é um referendo muito importante", disse ele à VICE. "Essa é uma oportunidade para moldar um novo sistema na Turquia. Esse sistema vai influenciar o futuro do país."

Depois que as zonas eleitorais fecharam às 17h, os resultados começaram a chegar: mais de 60% das pessoas parecem ter votado "Sim", mas esse número começou a cair de repente no curso de duas horas tensas, enquanto o país todo assistia os boletins da eleição pela TV.

Às 20h, ficou claro que a margem dos votos "Sim" era menor que 3% (1.293.033 votos no total). Meia hora depois, o presidente ligou para o primeiro-ministro para parabenizá-lo pela vitória.

As ruas estavam vazias em Nisantasi quando saí do café e comecei a voltar a pé para Taksim. As pessoas ainda estavam grudadas na televisão em casa, assistindo os resultados como uma final de campeonato. Fiquei sabendo que partidos da oposição, que contestam o resultado, vão exigir a recontagem dos votos, o primeiro sinal de uma longa noite para a cidade.

Outra notícia era igualmente interessante: Taksim estava fechada para o tráfego quando passei por ela. Ao redor da praça, comboios de carros buzinavam comemorando os resultados. Ouvi um grupo de policiais da tropa de choque recebendo instruções pelo rádio, não permitir que ninguém comemorasse ou se manifestasse contra os resultados.

Às 21h30 cheguei à Praça Taksim, agora cercada de ativistas. "Nós te fizemos presidente!", um deles gritava. Ainda estava calor quando cheguei ao meu apartamento em Cihangir. Do silêncio da minha sala, eu ouvia os vizinhos batendo panelas para protestar contra o resultado, assim com carros passando e buzinando para comemorar.

Aí começou a chover na cidade: um dia de drama político tinha chegado ao um fim inquieto.

Kaya Gnec é um ensaísta de Istambul. Ele é o autor de Under the Shadow: Rage and Revolution in Modern Turkey (I.B. Taurius). Siga o cara no Twitter .

Tradução do inglês por Marina Schnoor.

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