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Muito Bem Embrulhados

Se você vende narcóticos sem a permissão do El Patron, ou quebra suas regras, Zurdo e sua turma (ou outro grupo mascarado) te pegam e levam para algumas das muitas casas ou ranchos do chefe.


A polícia de Juárez alegou que esses membros de gangue foram pegos roubando carros (que, muitas vezes, são usados então em tiroteios). Depois de serem algemados, eles foram colocados de bruços na traseira de um camburão. 

Antes de sequestrar alguém, o Zurdo gosta de chapar: um pouco de maconha, talvez algumas carreiras, uns tragos, comprimidos, qualquer coisa. Depois disso ele coloca roupas pretas, junta suas armas — uma AK-47 e uma 9 milímetros — e sobe no Chevy Tahoe com quatro outros caras. Aí eles vão pelas ruas de uma cidade quatro horas a sudeste de Ciudad Juárez que nos pediram para não identificarmos. Ao amanhecer eles já pegaram um pobre coitado e o entregaram para “El Patron”, o chefe do Zurdo.

Durante o dia, o Zurdo (“Canhoto” em espanhol) trabalha num restaurante mexicano do outro lado da rua de um prédio em ruínas, perto de um bar onde bêbados de pele de couro montam guarda durante o dia inteiro. Sequestrar para o Cartel de Juárez é um bico. Ele pega principalmente traficantes de drogas peso-pena ou seus parentes. Todo mundo sabe como isso funciona: Se você vende narcóticos sem a permissão do El Patron, ou quebra suas regras, Zurdo e sua turma (ou outro grupo mascarado) te pegam e levam para algumas das muitas casas ou ranchos do chefe. Lá você será torturado e solto — em troca de dinheiro — ou torturado e morto, e seu corpo será desovado na rua como um cigarro jogado da janela do carro. A maioria vai com facilidade, conta Zurdo. Ele diz: “Estão te chamando. Entre no carro”, e eles costumam aceitar. Só um punhado de vezes ele teve que desovar um corpo, e nesses casos ele os deixa nos limites da cidade para os policiais acharem depois. De acordo com suas estimativas, cerca de metade das pessoas que ele sequestra são eventualmente assassinadas. Mas isso não é da conta dele — ele é só um mensageiro. Além disso, ele precisa voltar ao outro trabalho, onde tem infinitas mesas pra limpar e burritos pra enrolar.

O Zurdo mora num apartamento conectado aos fundos do estabelecimento onde trabalha das 5 e meia da manhã até as 11 da noite. Nosso encontro foi arranjado por um amigo meu que de algum jeito convenceu Zurdo, um de seus melhores e mais velhos amigos, a me conceder uma entrevista.


Dos incontáveis crimes cometidos no México todos os dias, a polícia só chega a investigar cerca de 15%. Então, a menos que você seja esse cara que foi pego em flagrante, há uma boa chance de nunca ser preso. 

Antes de sentar pra conversar, ele anda até atrás do balcão, pega um trapo e limpa uma mesa de madeira onde dois fregueses acabaram de comer. Ele usa camiseta preta justa tipo Tony Montana, dobrada confortavelmente sobre a barriga e jeans preto desbotado. Suas chuteiras de futebol — a única pista de sua outra vida mais lucrativa — são tão brancas e imaculadas que praticamente brilham. Ele toca as mesas, com o olhar perdido, seguindo o trafego lá fora. Pergunto se ele não quer dar uma caminhada para falar sobre seu outro emprego sem precisar se preocupar com bisbilhoteiros. Mas ele não pode sair até as 11 da noite, diz, porque precisam dele na loja; ele até recusou alguns sequestros porque os últimos dois dias foram muito ocupados. De qualquer maneira, isso não importa. Ele pode falar aqui mesmo. Todo mundo no restaurante sabe o que ele faz, mesmo que não fiquem sabendo dos detalhes.

Durante nossa conversa Zurdo me conta que se sente mal por seu trabalho perpetuar a atual guerra mexicana ao tráfico: “Se eles nem me chamassem seria melhor. Mas se chamam, preciso ir”. Aí ele imediatamente se contradiz: “Se eu não fizer isso, não fico feliz”. Ele também não teria dinheiro suficiente para sustentar seus vícios, que são muitos. O Zurdo foi atraído para sua profissão (o crime, não burritos) muito jovem, largando a escola na oitava série para fazer dinheiro rápido nas ruas. Chihuahua, o estado mexicano onde ele reside, tem uma das maiores taxas de assassinato do Hemisfério Norte, e de acordo com a ONU, o segundo menor número de formados no ensino médio no país.

Da última vez que o Zurdo pegou alguém, ele conta, foi três dias antes do nosso encontro. Ele estava trabalhando no restaurante quando seu celular tocou. El Patron deu a ele o nome e o endereço, que, como na maioria das vezes, era de um cara jovem. Zurdo e seu time encontraram a presa fazendo compras com a esposa lá pelas 9 da noite, o que é uma boa hora: é melhor fazer esse tipo de coisa antes da meia-noite, quando tem mais gente na rua e há menos possibilidade da vítima fazer uma cena, tentar escapar, ou reagir com uma arma. Seu último carona não foi exceção. Enquanto o casal caminhava até o carro com as compras, Zurdo saiu do veículo, os confrontou e disse: “Estão te chamando”. Então mostrou rapidamente sua arma. O casal entendeu. O cara entrou na SUV sem argumentar e eles deixaram a esposa ir. Depois largaram o passageiro em uma das casas do El Patron, e Zurdo voltou para o restaurante, onde ainda precisavam da ajuda dele.


Em Juárez, violência e morte são tão comuns que já viraram parte do cenário.

Cada vez que Zurdo sai para pegar alguém ele fica um pouco assustado e ansioso, mas as drogas e o dinheiro o ajudam a superar esses sentimentos. Uma coisa com que ele não se preocupa é a polícia. Os oficiais mexicanos só conseguem completar cerca de 4% das investigações criminais. E o que é ainda mais preocupante, eles só se preocupam em investigar cerca de 15% dos crimes cometidos no país (de acordo com um estudo de 2010 do Instituto de Tecnologia de Monterrey). Muitas vezes, diz Zurdo, a polícia é cúmplice nas atividades ilegais.

Em março, um grupo de homens entrou no bar El Castillo da Ciudad Juárez e massacrou 10 pessoas. Um sobrevivente contou ao jornal El Diario que a polícia federal apareceu um pouco antes do tiroteio e acabou confiscando os celulares de todo mundo depois de uma busca, como se estivesse preparando o caminho para os assassinos. Os policiais, claro, foram os primeiros na cena do crime depois do tiroteio, e mais tarde foram acusados de remexer nos bolsos dos mortos e roubar uma TV de plasma da cena do crime.

Pelo incômodo, Zurdo recebe de $1.000 a $2.000 por sequestro, dependendo do alvo e outras — às vezes imprevisíveis — circunstâncias (Ele conta ao El Patron se a coisa foi particularmente difícil ou se a pessoa tentou fugir, e o chefe aceita a palavra dele). Ele só trabalha por moeda americana. “Só recebo em dólares. Pesos? Não fode. São os burritos que valem pesos.” Mas ele gasta tudo rápido, seja em sua amada coleção de sapatos ou em outros prazeres mais fugazes. “Custa muita grana: mulheres, bebida, cocaína. E as mulheres também bebem. Tenho que gastar dinheiro com o hotel...”



Segurança no emprego é uma raridade hoje em dia, e a indústria em que Zurdo trabalha não é exceção. O cartel parou recentemente de contratar os caros assassinos e sequestradores “profissionais” -- funcionários de meio período como Zurdo, oficiais reformados ou atuais do exército e outros que se especializaram nesse tipo de trabalho — e estão explorando as lutas intestinas entre gangues rivais como o Partido Revolucionário Mexicano (PRM) e os Aztecas. Sequestros e assassinatos foram terceirizados, do mesmo jeito que os empregos em fábricas que uma vez já atraíram os mexicanos de todo o país para a Ciudad Juárez e que depois foram gradualmente levados para a China e outras localidades de menor custo.

Como qualquer outro negócio, barato e desleixado é sempre uma opção. Por exemplo, Monico Aguirre Carillon, de 35 anos. Fora no caso de condicional precoce, fuga ou morte, ele terá 130 anos quando for libertado da prisão de CERESO em Juárez. Ainda assim ele me diz que tem coisas boas rolando aí. Sua gangue, o PRM, continua fora da cadeira. Monico desfruta de uma pequena notoriedade entre seus colegas presidiários, parte por causa de sua afiliação ao PRM, mas principalmente porque ele amarrou um membro de uma gangue rival numa cadeira e foi pego tentando cortar sua garganta. “Com um arame, porra, era a única coisa que tinha lá. Ele é um porco. Então amarrei ele como um porco.”

A tática do cartel é jogar gangue contra gangue e os contratar para vender drogas. O resultado é que os caras fazem o serviço por $200 dólares por semana. Economicamente é um bom negócio. A diferença é que antes que contratar membros de gangue fossem uma prática comum, os profissionais tinham certo orgulho de poupar a esposa ou o filho que pudesse estar dentro do carro. Mas os membros de gangue atingem suas vítimas com a delicadeza de uma mangueira de incêndio, acertando vendedores ambulantes inocentes, vizinhos assistindo televisão em seus sofás e crianças voltando da escola. 



Josué Reys Castro, 26 anos, foi a 560º pessoa assassinada ano passado em Juárez — e isso até março. Depois do tiroteio, a polícia contou mais de 130 cápsulas de AK-47 na frente de sua casa. Dentro, sua mãe, pai, avô e primos deitaram no chão para se proteger. Caído entre o console central do carro da família, sangrando até a morte, Castro foi levado até o hospital por seu irmão porque a maioria das ambulâncias da área não responde mais a tiroteios. Os assassinos ficaram tempo suficiente pra recarregar três vezes, o irmão de Castro me contou que a polícia esperou na rua até o tiroteio terminar. Em meados de julho, a contagem de assassinatos em Juárez atingiu 1.250, uma média de oito por dia na primeira metade do mês.

“Isso é ruim. É por isso que é ruim. É por isso que pegamos essas pessoas”, Zurdo responde quando pergunto sobre essa nova geração de assassinos. “Por que você vai matar a esposa ou o filho se eles não têm nada a ver com isso?” No entanto, ele entende porque as pessoas fazem coisas desesperadas por um pouco de dinheiro. “Eles chegam e te oferecem dinheiro, e você não tem um emprego... Bom, aí você faz o que eles mandam. Mas eu faço isso por fazer, não porque preciso. Tenho tudo o que preciso aqui — casa, trabalho e comida.”

O Zurdo diz que não se vê trabalhando pra sempre para os cartéis, seus sonhos para o futuro têm mais a ver com burritos do que com armas. Um dia ele gostaria de abrir seu próprio restaurante. “Ou pelo menos ser o gerente, se eu não puder seu o dono.” Ele vai chamá-lo de Zurdo, e eu pergunto como vai ser a decoração. Isso é pensar demais, diz ele, mas se isso acontecer, não será nessa cidade. Ele tem um passado aqui. Mas ele me assegura que vai ser muito limpo, como seus brilhantes sapatos brancos.