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Não Vai Haver Amor Nessa Porra Nunca Mais

Fomos à manifestação e vimos que São Paulo está pegando fogo.

Os boatos de que o Teatro Municipal seria armado como um Cavalo de Tróia, a crescente violência e prisões das últimas manifestações e a subida na temperatura das opiniões pela internet brasilis foram fatores importantes para criar o clima pesado da concentração do quarto ato contra o aumento das passagens em São Paulo.

A galera começou a se reunir por volta 17h em frente ao Teatro. A polícia cercava a reunião de longe, formando bloqueios nas ruas adjacentes, revistando e prendendo os que levavam vinagre na mochila. Mas lá no meio, apesar da atmosfera dura, o que rolava eram os tambores e os gritos de guerra. Também já dava para sacar uns caras fortões, de cabeça raspada, com binóculos e rádios nas mãos circulando pela galera. Um deles, em especial, vai voltar a aparecer daqui a pouco.

Por volta das 18h30 começou a marcha, seguindo pela Rua Barão de Itapetininga, virando na Avenida Ipiranga. Seguiu numa boa, com uma galera distribuindo panfletos e flores aos motoristas de ônibus, sem depredação. O trânsito das transversais nem chegou a ser interrompido.

Quando a marcha chegou à Rua Consolação rolou algo estranho. Um pessoal entrou à esquerda, sentido centro, e outro pessoal subiu em direção à Paulista. Com o desencontro, a manifestação parou indecisa por uma meia-hora, reunindo a galera e decidindo qual rumo tomar. Lá em cima, na esquina com a Rua Caio Prado, um cordão de PMs da equipe tática já se posicionava, bloqueando o trânsito da Consolação no sentido bairro.

A decisão foi subir rumo à Avenida Brasil e de lá seguir para o Ibirapuera e Assembleia Legislativa. E a passeata seguiu. A galera, que ia na paz, formou um cordão de frente com as faixas e parou junto aos policiais. O tenente-coronel Ben-Hur Junqueira Neto se reuniu com manifestantes, discutiram o destino da passeata e, por alguns segundos, a galera se concentrou e se espalhou pela esquina. Nesse curto espaço de tempo deu para sacar que a tropa de choque já se alinhava na Rua Maria Antônia e outros manifestantes de rostos cobertos se colocavam no ponto de ônibus da Consolação. O pessoal começou a gritar “sem violência, sem violência”, a tensão cresceu vertiginosamente, o tenente-coronel e um auxiliar se afastaram do bolo de imprensa/manifestantes, a PM avançou e BUM. Bomba.

Não dava para saber quem tinha atirado a primeira. Mas logo em seguida veio outra, e mais outra, e muitas outras. Eu, o fotógrafo e uma centena de manifestantes e jornalistas corremos para o posto de gasolina na esquina da Caio Prado. As bombas de gás lacrimogêneo começaram a pipocar na frente do posto, na Consolação e na Caio Prado. Ficamos prensados ali, num corre-corre desesperador, gente se espremendo contra os carros e paredes. Para onde se olhava, havia fumaça.

Quando conseguimos atravessar a Caio Prado, nos abrigamos na marquise de um prédio e vimos a ação, apesar dos olhos ardendo e da garganta e do nariz em chamas, com bastante clareza. Os encapuzados atiravam molotovs, pedras, paus e bombas, correndo de lá para cá. A polícia fazendo uma chuva de bombas de efeito moral, balas de borracha e gás. Para todas as direções. Em um dos carros vimos uma criança pequena dormindo, a mãe e uma idosa trancadas e morrendo de medo. As bombas não paravam e, depois de alguns minutos, ouvimos explosões ainda maiores, que pareciam vir da Praça Roosevelt.

Isso deve ter durado uma meia hora. Os manifestantes se espalharam por todas as ruas dos arredores. A ação da polícia fez com que a marcha, que seguia ordenada e pacífica (apesar do clima pesado) se quebrasse em várias partes. A galera ocupou toda a região entre a Rua Augusta e a Avenida Angélica, até a Avenida Paulista e até os Jardins. O bloqueio da PM transformou o bloco em uma Hidra, com várias cabeças espalhando fogo e gás venenoso por todo Planalto Paulista. Essa operação já tinha acontecido nos outros dias de manifestação, mas dessa vez o clima se espalhou muito mais.

Quando a poeira na esquina da Maria Antônia baixou, a cavalaria, a tropa de choque e a equipe tática, aproveitando o aglomerado de repórteres e câmeras, fez toda uma coreografia de reposicionamento enquanto decidia o que diabos fazer e aonde ir. Nesse meio tempo vi aquele fortão do começo da manifestação conversando com a polícia, com câmera na mão mostrando imagens. A-há! Esse era um dos policiais infiltrados na concentração.

A tensão e o medo eram claros nos olhos e atitudes dos policiais. De um lado um PM gritava “vamos liberar o trânsito, vão pro outro lado!”, a gente tentava atravessar a rua e o choque berrava “Fica aí! Não encosta na viatura! Sai, porra!”. Quando os carros começaram a andar, fomos circular também.

Não dava mais para diferenciar quem estava ou não na manifestação. Todo mundo era tratado como terrorista. Em cada esquina que se virava havia sacos de lixo pegando fogo, uma tropa de choque e gente gritando “polícia fascista” ou “sem violência”. Não havia mais organização, nem rumo, nem reivindicação. A atmosfera era de medo e enfrentamento, com gente assustada zanzando para todos os lados, dentre nuvens de gás lacrimogêneo e fumaça de lixo. Em algum momento, espontaneamente, as pessoas se agrupavam e começavam a marchar e proferir palavras de ordem. Não dava muito, aparecia um destacamento da tropa de choque e PAAAM, tome bomba para dispersar.

Por onde se passava era assim. E, instintivamente, todo mundo rumava à Avenida Paulista, que foi novamente palco de confrontos com os manifestantes. Cada dispersão da Paulista fazia com que o pessoal fugisse para as ruas paralelas e se reunisse novamente, com mais fogo e mais gritos de ordem. Esse efeito fez com que a PM e a manifestação brincassem de gato e rato por cinco horas. E a cada bomba que estourava, mais gente se reunia e corria.

O preço que o governo pagou nesta quinta-feira pela disputa simbólica da Avenida Paulista foi caro. Na sanha de impedir que ela fosse ocupada, a estratégia da polícia fez com que toda a região fosse tomada por um sentimento de revolta e que, no final das contas, parou o tráfego da Paulista ao Centro.

Outro fato importante é que os grandes veículos jornalísticos, desde o primeiro ato contra o aumento das tarifas e apesar da evidente desproporcionalidade da polícia, se colocaram veementemente contra os manifestantes. O povo devia era ficar feliz que o aumento foi abaixo da inflação, o quebra-quebra não era nada mais do que puro vandalismo. Mas agora eles tiveram que engolir seco a retórica, já que os cassetetes, balas de borracha e gás lacrimogêneo não fizeram distinção alguma entre jornalistas e revoltosos. Nesta quinta, dentre os mais de 200 presos, três eram jornalistas. Mais de vinte ficaram feridos, com um deles correndo o risco de ficar cego.

O que ficou claro nessa manifestação é que o aumento do ônibus foi só o gatilho. O jovem paulistano está puto de verdade. A nova geração metropolitana está finalmente tentando tomar para si a cidade e o jeito com que ela é governada. Ela não se enxerga representada na política institucional, não se vê como parte do tecido social. Esse sentimento de invisibilidade é como um barril de angústia, que precisa só de um fósforo para explodir. E nesta quinta-feira ele explodiu.

Os governantes insistem em criminalizar as manifestações, apontando todos os dedos para o Movimento Passe Livre, o classificando como “político e violento”. O que esses caras não entendem é que agora, efetivamente, a situação não está mais sob controle do MPL. A violenta repressão da polícia, a posição da imprensa e a visibilidade que a internet proporciona aos comentários contra os atos vão aos poucos isolando e incitando a molecada a reagir, a se posicionar. E agora a revolta é mais ampla e visceral. O que está em jogo, de verdade, é a própria configuração social dessa São Paulo que emerge de um limbo político, criado por gestões apáticas e que pouco ou nada fizeram para entender como a cidade se sente. O que essas manifestações querem é muito mais do que a reversão do aumento das tarifas de ônibus, ou o passe livre. A juventude quer é provar, com ferro e fogo, a sua própria existência na São Paulo do futuro.

Siga o Eduardo Roberto no Twitter: @euamotubaina

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