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Moradores de Bento Rodrigues se reúnem para lembrar dos dois anos do desastre. Foto: Patrick Muzart/VICE

A vida em Bento Rodrigues dois anos depois do desastre em Mariana

Patrick Muzart

Moradores do distrito atingido pelo rompimento da Barragem do Fundão falam como sobrevivem depois do desastre.

Moradores de Bento Rodrigues se reúnem para lembrar dos dois anos do desastre. Foto: Patrick Muzart/VICE

Mato sem cachorro ou rio sem peixe, seja como for, José da Silva Filho vê-se preso à uma situação que nunca imaginou passar antes do rompimento da barragem de Fundão há dois anos em Mariana, Minas Gerais. O rio que era doce ficou amargo para José e a sua família que viviam e se sustentavam, há 12 anos, da pesca no Rio Doce em Governador Valadares. Tilápias, Cascudos e Traíras, assim como José, Marcelo Tomaz ganhava de R$ 3 mil a R$ 4 mil por mês pescando no Rio Doce. Hoje vivem com o cartão de indenização da Samarco no valor de R$ 1.300 mensais. E não podem trabalhar, porque se o fazem perdem a remuneração da empresa. Começar um outro trabalho agora, na situação atual do país, dizem, seria improvável e depois de uma vida inteira dedicando-se à pesca, não teriam êxito.

Outra situação complicada vivem os pequenos agricultores às margens do Rio Doce. Joelma Fernandes veio de Governador Valadares assistir a missa do padre Geraldo Barbosa da Arquidiocese de Mariana, no distrito de Bento Rodrigues. Ela conta sobre a situação de antigos moradores das ilhas do Rio Doce: “Os pequenos agricultores que vivem nas ilhas do rio estão lá, alguns há mais de 60 ou 70 anos. Agora perderam o sustento e seguem vivendo num lugar contaminado sem poder produzir sequer para comer. O pior é que segundo a Samarco, eles não têm direitos a nenhuma reparação já que estariam ocupando áreas da Marinha Brasileira e não detém a propriedade destas ilhas”.

Placa no distrito de Bento Rodrigues, em Mariana (MG), dois anos após o desastre da Samarco. Foto: Patrick Muzart/VICE


Weberson Arlindo dos Santos de Bento Rodrigues, o primeiro povoado destruído com o rompimento da barragem de rejeitos de minérios da empresa Samarco, comenta que apesar de ele estar trabalhando desde antes da tragédia, outros vizinhos de Bento estão sem trabalho desde então, e acrescenta que com o desemprego atual em Mariana, será difícil encontrar trabalho tão logo. O município de Mariana, impulsionado pela atividade mineradora e também pelo turismo, jamais havia visto a taxa de desemprego alcançar o índice atual. Hoje, segundo o IBGE, o desemprego no município e respectivos distritos ultrapassou 20% da população ativa.

Marcelo Tomaz ganhava de três a quatro mil Reais por mês pescando no Rio Doce. Hoje vive com o cartão de indenização da Samarco de 1.300 Reais mensais. E não pode trabalhar, porque se o faz perde a remuneração da empresa. Foto: Patrick Muzart/VICE


Em homenagem à memória dos 19 mortos em Bento Rodrigues, passados dois anos da maior tragédia socioambiental da história do país, celebrou-se uma missa nos escombros da antiga igreja de São Bento. O padre Geraldo corrige, ao todo são 20 mortos, “contamos o vigésimo desaparecido também”. E milhares de afetados. Ao final dizem e portam as 19 cruzes dos 19 mortos confirmados: “Não foi acidente! Foi crime!”.

José da Silva Filho, pescador de Governador Valadares vê-se preso à uma situação que nunca imaginou passar antes do rompimento da barragem de Fundão há dois anos em Mariana. Já não pesca as Tilápias, Cascudos e Traíras de outrora e sobrevive com 1.300 Reais mensais do cartão da Samarco. Foto: Patrick Muzart/VICE


Diferentemente do primeiro aniversário da tragédia, desta vez o distrito de Bento Rodrigues estava ocupado quase que tão somente por seus moradores originários. Os “Loucos por Bento” eram maioria. Esse grupo de moradores que resiste a deixar o povoado, segue nas festas, nos aniversários, Natal ou ano-novo.

Ainda sem reparações e vivendo de aluguel em Mariana, os moradores do Bentinho esperam por decisões judiciais nesse imbróglio que já dura dois anos. Dois anos de vidas estagnadas diz o Sr. Francisco antes da Missa: “Estamos esperando e nem sabemos o quê. Seguimos na luta pelos nossos direitos”. Weberson, que agora tem a filha gravemente doente, explica o que sofrem em Mariana: “As pessoas pensam que nós estamos ganhando milhões com a catástrofe. Nem sequer fomos reparados. Tivemos nossas vidas destruídas, mas em Mariana todos pensam que somos aproveitadores”. A Fundação Renova, entidade criada pela empresa Samarco para ocupar-se das consequências da tragédia segue prometendo a entrega das novas casas para o primeiro semestre de 2019.

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