drag queens

Como é ganhar a vida sendo uma drag queen

Grande parte das drag queens ganham salários modestos, mas os gastos com cabelo, maquiagem e transporte podem ultrapassar R$ 40 mil por ano.

por Melissa Kravitz; Traduzido por Mariana Miyamoto
20 Agosto 2018, 4:14pm

Drag queens Vyvyan Vynx (esquerda) e Gina Tonic (direita). Fotos cedidas por Vyvyan Vynx e Gina Tonic

“É caro manter esse visual barato, querido!” Alaska Thunderfuck, vencedora do RuPaul’s Drag Race: All Stars canta em seu single “Hieeee.” O verso anterior diz: “Dar gorjeta é opcional / Dê. Gorjeta. Pra eles.”

Ao contrário de Dolly Parton – cujo império foi construído com vendas de álbuns, ingressos de shows e merchandise – drag queens comumente se apresentam de graça, mas por muitas vezes acabam vendendo música e merchandise também. Os custos com cabelo, maquiagem, jóias, acessórios, sapatos e outfits atingem a casa dos milhares por ano, facilmente. Ainda tem o transporte para chegar e voltar dos shows, os flyers, a mixagem das músicas e qualquer look drag que, barato ou não, sai muito caro.

Enquanto algumas drags ganham mais de US$ 100 mil por ano [em torno de R$ 400 mil na cotação atual], a maioria ganha muitos menos. Bares de Nova Iorque pagam entre US$ 50 [uns R$ 200] e US$ 250 [uns R$ 750] por uma noite, fora as gorjetas, segundo o New York Times. A drag queen Jan Sport disse ao Refinery 29 que espera fazer US$ 60 mil [uns R$ 240 mil] em 2018.



Antes de tudo, drag é uma forma de expressão artística e monetizar arte nunca é fácil, e falar sobre isso pode ser considerado um tabu – arte e capitalismo não necessariamente se misturam, assim como o universo queer com o capitalismo. No entanto para expressões artísticas queer, como drag, o custo da performance pode ser bem alto, com o público esperando shows gratuitos, o que, óbvio, não é sustentável de jeito algum.

O alto preço de ser uma drag

A drag comediante Gina Tonic, que começou a fazer drag em 2009 como hobby, estima que gasta US$ 10 mil [uns R$ 40 mil] anualmente com “despesas de drag”. Segundo Gina, uma peruca básica padrão custa por volta de US$ 50 [uns R$ 200], já perucas do tipo front-lace, estilizadas profissionalmente podem custar mais de US$ 200 [uns R$ 800]. Pra montar o rosto ela curte maquiagens da Dermablend, Sugarpill, Tarte e Urban Decay, levando na sua maleta de maquiagens US$ 30 [uns R$ 120] em bases, uma paleta de contorno de US$ 50 [uns R$ 200], paletas de sombras que vão de US$ 20 a US$ 100 [entre R$ 80 e R$ 400] e batons baratos que chegam a custar menos de US$ 10 [uns R$ 40].

Nas pálpebras, Gina usa três pares de cílios falsos, que ela compra a granel pra economizar, e também precisa de lâminas de barbear, creme de barbear, removedor de maquiagem, primes, hidratantes e outros produtos de cuidados pessoais, regularmente. Cintas e enchimentos, que podem custar entre US$ 30 [uns R$ 120] e US$ 120 [uns R$ 480], são essenciais para um look drag, além de meias-calças (pra cobrir os enchimentos e os pêlos das pernas), que custam por volta de US$ 15 [uns R$ 60] o par.

Adicione alguns saltos com numeração para pés grandes que custam no mínimo US$ 75 [uns R$ 300], jóias (Gina nunca usa menos do que cinco peças, ao menos consegue pagar barato em uma loja de varejo em Nova Iorque), e outfits, nos quais gasta no mínimo US$ 200 [uns R$ 800]em vestidos customizados, e estamos falando de um “hobby” extremamente caro.

Quanto drag queens ganham

Gina estima que drags novas na cena podem esperar um ganho de US$ 50 [uns R$ 200] por show, a maioria em gorjetas de notas de US$ 1 [uns R$ 4]. Gorjetas, ainda que não sejam obrigatórias, são essenciais para a sobrevivência profissional (e pessoal) de uma drag queen. Tenha isso em mente: muitas drags são basicamente freelancers, o que significa que elas precisam arcar com os custos de seus planos de saúde, economias para aposentadoria e ainda lidar com a falta de estabilidade de uma pessoa que não é assalariada tradicionalmente.

Os ganhos podem variar bastante dependendo de onde você vive, mas drags de sucesso ganham o bastante pra se sustentar. A participante da Drag Race, Shangela disse ao WealthSimple no começo do ano, “Eu ainda tô fazendo meu corre... mas só te digo uma coisa — com certeza eu não trabalho mais por cem dólares a noite”.

Vyvyan Vynx (na foto acima) que personifica celebridades diz ganhar até US$ 800 [uns R$ 3.200] por noite em eventos privados, clubes e teatros. “Eu e meu noivo conseguimos viver confortavelmente. Temos nossa própria casa [na Pensilvânia] e três carros, o que acho realmente impressionante quando se tem 23 anos.” Diz Vyvyan, que também atende pelo nome artístico Dalton Grady e conta com Cher, Dolly Parton, Liza Minelli e Judy Garland em seu repertório.

Como tornar sustentável o sonho de ser uma drag queen

Pra quem está na transição de amador a drag queen profissional, Jane Hamilton, especialista em finanças do consumidor da Mint and Turbo, recomenda estar sempre atento às finanças, sem esquecer de se divulgar e se promover, e focar em um trabalho que faça o público querer pagar para te ver.

“Saber se vender é absolutamente essencial pra conseguir viver de performances,” diz Hamilton. “Ninguém vai fazer isso por você. Se ninguém conhece você ou sabe como é seu trabalho no palco, ninguém vai pagar pelo que você tem a oferecer.”

Hamilton recomenda conquistar seguidores em mídias sociais, tentar se apresentar em lugares onde se apresentam artistas de nomes maiores, e nunca parar o corre, mesmo que isso signifique aceitar fazer shows ganhando pouco ou menos prestigiados apenas pela exposição – e na esperança de receber gorjetas generosas do público.

“Definitivamente é uma carreira sustentável a longo prazo, contanto que você seja inteligente e encontre maneiras de se destacar e se manter relevante”, diz Gina, visto que toda drag famosa começou como drag local. Quando Gina começou a fazer drag, por exemplo, ela tinha um emprego corporativo durante o dia pra arcar com as contas. Por parecer um zumbi no escritório toda manhã cansada e de ressaca por causa de seus shows de drag em nightclubs, Gina foi demitida de sua jornada de oito horas, o que a incentivou a investir todo seu tempo em ser drag – um salto que, para ela, funcionou graças ao seu público generoso.

Uma nova maneira de alavancar sua carreira como drag

Em vez de cair na armadilha financeira de começar a fazer drag com shows mal pagos, Vyvyan Vynx aprendeu os truques de como se vestir e performar com seu namorado em 2009 e usou seus conhecimentos em negócios corporativos para vender de porta em porta novidades do mundo dos produtos adultos, toda montada. Um investimento inicial de US$ 600 [uns R$ 240] em produtos e US$ 450 [uns R$ 1.800] em roupas de drag levaram a uma carreira de cinco anos.

Conforme foi ganhando experiência, ela aumentou seu preço para eventos de “dois para três dígitos”. Além disso, ela ainda conta com fãs de drags como suporte para sua carreira. “Vá a shows [de drag] independente do preço!” diz Vyvyan.

VyVyan Vyxn. Foto by @tabba_tabba

“Drag é caro. Drag é uma forma de expressão artística. Drag é talento,” ela diz. “Pague por seu entretenimento sempre que puder. Alguns performers trabalham por quase nada – sempre dê gorjeta para as drags! Mesmo que não sejam suas favoritas, elas ainda gastam tempo, dedicação e provavelmente dinheiro para estar naquele palco.”

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