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Você pode mudar, mas o seu histórico da internet não

Tuítes de "humor" racista, homofóbico e etc. são ecos de um passado preconceituoso que deixa muito youtuber saudosista.

por Marie Declercq
05 Julho 2018, 7:38pm

Montagem da Larissa Zaidan.

Após publicar uma piada extremamente racista sobre Kylian Mbappé, jogador da seleção francesa, a batata esquentou na mão do youtuber Júlio Cocielo, apontado como um dos maiores influenciadores brasileiros na internet. A princípio, Cocielo apostou na retórica de acusar quem o chamou de racista de “mimimi” e se resguardou na desculpa esfarrapada de que se tratava de uma piada mal interpretada. Porém, esse argumento durou pouquíssimo quando os internautas resgataram outras piadas racistas que o youtuber fez em 2013.

Observando as marcas que o patrocinaram saindo de cena após seu racismo ser escancarado e a conta bancária diminuindo, Cocielo apagou mais de 50 mil tuítes da sua conta e pediu desculpas pela atitude por meio de um texto e também gravando um vídeo no seu canal. Não convenceu muito o pessoal, já que parece que as desculpas foram mais uma obrigação para não perder a possibilidade de ganhar dinheiro com publicidade.

Outros youtubers parecidos com Cocielo, que atingiram a fama por fazerem piadas “provocativas” e “polêmicas”, também tiveram seus históricos vasculhados e nenhum deles se salvou. Piadas racistas e misóginas também foram ditas anos atrás, porém alguns desses influenciadores se mostram pessoas diferentes hoje em dia, ao contrário de Cocielo. No entanto, as desculpas chegaram da mesma forma. Foram proferidas para não doer no bolso e na fama e não parecem lá muito verídicas, visto que poucas horas após Cocielo publicar o seu vídeo pedindo desculpas curtiu o comentário de um internauta acusando as pessoas de acharem que "tudo é racismo e machismo".

Porém, fica a pergunta. Alguém se salvaria caso vasculhassem nossas redes sociais de cinco, seis, 10 anos atrás?

Eu não me salvaria em 2009. E redescobri isso quando fui rever o que escrevia com 18, 19 anos no Facebook, Twitter e em blogs. Senti vergonha. Eu fiz muita piada machista. Ri do caso da Geisy Arruda, tirava sarro de mulheres que andavam com pouca roupa, fiz a piada da “fechadura”. Também achei comentários meus achando graça em piadas racistas feitas por amigos virtuais. Eu já sabia ler e interpretar texto na época. Não há desculpas para quem eu era 10 anos atrás: uma imbecil.

Só que eu mudei. Não concordo com as coisas que falei antes e nunca reproduziria elas novamente. Isso prova que, sim, é possível deixar de ser preconceituosa. É possível mudar e tentar ser uma pessoa melhor. A minha ignorância e burrice também refletiu como as coisas eram cinco, 10 anos atrás. Não se falava de feminismo como hoje em dia. Pouco se discutia sobre o racismo estrutural da sociedade brasileira. O que reinava era a ignorância escondida atrás de piadas “inocentes”.

Minha mudança de pensamento não aconteceu porque sou perfeita e iluminada. Não não, eu aprendi porque tive contato com pessoas negras e/ou LGBTs no trabalho, faculdade, em círculos de amizades e na internet. Foram elas que chamaram a atenção sobre meu comportamento e sobre a violência que é rir ou fazer uma piada racista. Levei bronca ao vivo dessas pessoas ou levei bronca lendo textos, entrevistas e vendo vídeos produzidos pelas mesmas pessoas que antes achava válido fazer piada – mesmo que fosse “sem intenção de ofender”.

Hoje, embora ser ainda muito pouco, há sim uma obrigação na publicidade e no entretenimento em falar sobre esses assuntos. De, no mínimo, chamar pessoas negras e/ou LGBTs para falar sobre esses assuntos e educar os espectadores sobre o preconceito. Também há muito mais jovens colocando a cara para bater e criando conteúdo independente para discutir sobre isso. Há 10 anos, essas pessoas mal existiam para a internet.

Ter youtubers, jornalistas, artistas e influenciadores negros pode ser visto como uma maneira de capitalizar dentro da onda do “lacre”, mas o poder educativo nisso é enorme. Uma jovem negra falar sobre o racismo que sofreu por ser negra e ter cabelo crespo no YouTube pode não parecer relevante para muita gente, mas consegue atingir educativamente muito mais jovem do que o meio acadêmico ou dentro das próprias escolas. Informação é poder.

No entanto, o Brasil ainda caminha em marcha lenta nessas questões. A época de piadas racistas, homofóbicas e machistas não morreu com o Costinha ou com Os Trapalhões. Pelo contrário, ela resiste até hoje no humor brasileiro e ainda consegue ser capitalizada como uma característica “provocadora” dentre influenciadores e artistas, especialmente os homens brancos.

Embora os youtubers e blogueiros de Instagram sejam vendidos como algo novo para a juventude ou como uma nova geração de conteúdo, o discurso deles é tão velho e engessado quanto os humoristas e personalidades de 20 anos atrás. São os jovens mais caquéticos dos últimos tempos, quase saudosistas da época que em era possível fazer piada racista sem levar bronca. Eles também se valem de uma tática bem comum de se fazerem de vítimas quando são colocados na berlinda. E há quem se convença disso e vai culpar os internautas negros que acusaram o racismo ou xingar a mulher que aponta o machismo. Num piscar de olhos, os vilões são as pessoas que sofrem de preconceito e o mocinho é o "coitado" que fez a piada. Isso não é novo, muito preconceito reproduzido era aceitável justamente pela retórica de acusar negros, gays, lésbicas e mulheres de serem "sensíveis demais" ao se depararem com uma piada que os ofende.

E enquanto essa lógica perversa da sensibilidade for aceitável entre famosos controversos (leia-se: preconceituosos), ela vai continuar sendo reproduzida por fãs novinhos e sanguessugas racistas. Inclusive, essa lógica permite que um candidato racista seja visto como "rebelde" ou um humorista machista ser visto como corajoso.

Tenho certeza de que a maioria do pessoal acima de 25 anos tem um passado feio na internet de maior ou menor escala. Até porque há 10 ninguém pensava muito em como as coisas que você falou sem pensar numa rede social permanecem lá. E que isso sirva de lição para a nova geração da internet não fazer piada preconceituosa, não falar merda sem pensar ou difundir mentiras. Você pode mudar, mas seu histórico de internet não.

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