As candidatas T querem estar nas Assembleias e no Congresso Nacional

Falamos com mulheres trans e travesti que pleiteiam cargos de deputada estadual, federal e senadora nas eleições de 2018.

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ago 16 2018, 3:16pm

Montagem de fotos via Instagram e Facebook. 

O país que já elegeu uma mulher como presidente atualmente conta com 54 mulheres como deputadas federais e 12 senadoras no Congresso Nacional. Já os parlamentares homens são 459 deputados e 69 senadores presentes.

Por conta dessa brusca diferença, o poder Legislativo e Tribunal Superior Eleitoral (TSE) promovem ações para aumentar a presença da mulher na política, que representa 52% do eleitorado nacional. A assim chamada cota de gênero obriga os partidos e coligações a terem no mínimo 30% e o máximo de 70% de candidaturas de cada sexo. Também são regras do TSE a distribuição de 30% da grana dos partidos às campanhas das candidatas e mais tempo delas na propaganda eleitoral na TV e no rádio.

Entre elas, estão as mulheres trans e travesti, que também buscam por mais representatividade na política. Falamos com cinco candidatas que concorrem aos cargos de deputada estadual, federal e senadora, que contam um pouco de suas histórias, propostas e quem irão representar na Assembleia Legislativa ou no Senado, caso eleitas.

Foto via Instagram

Alexya Salvador, candidata a deputada estadual (PSOL-SP)

Alexya Salvador, 37 anos, é formada em Letras, Pedagogia e Teologia. É professora efetiva da rede estadual de ensino do Estado de São Paulo. Sempre esteve inserida na militância pelos direitos humanos, principalmente quando assumiu publicamente sua transgeneridade.

"Ser uma pessoa trans no Brasil já é um ato político, uma vez que somos o país que mais mata pessoas trans no mundo. Sou Pastora auxiliar da Igreja da Comunidade Metropolitana, que acolhe pessoas LGBTI+", conta Alexya.

Ano passado, foi eleita vice-presidente da ABRAFH: Associação Brasileira de Famílias Homotransafetivas, onde atua na luta e defesa de todas as composições familiares. Mãe de uma menina transgênera de 11 anos, pretende propor leis estaduais de combate a transfobia.

"Se eleita, serei a voz da mulher que é silenciada em seus direitos, serei a travesti que não tem oportunidades e acesso a estes espaços de poder e fala, serei cada LBTI+ que não teve suas demandas ouvidas, serei os professores que lutam por melhoria salarial e condições de trabalho, serei cada pessoa deficiente física que não tem acesso a itens básicos de saúde. Eu serei as minorias", justifica.

Foto via Instagram

Duda Salabert, candidata a senadora (PSOL-MG)

Duda Salabert, 36 anos, é professora de Literatura, ambientalista, vegana e ativista pelos direitos humanos e dos animais. Veio dos movimentos sociais, de defesa dos direitos dos animais, mas também, dos movimentos que tenham como pauta central a educação. Faz parte da Bancada do Giz, um coletivo de professores e professoras que querem ocupar a política e colocar a educar como pauta central nas políticas públicas do Brasil.

Segundo Duda, "a política brasileira tem apenas 10% dos cargos ocupados por mulheres cisgêneras. A travestilidade, transexualidade é totalmente apagada desses espaços, tanto é que eu sou a primeira travesti da história da América Latina a pleitear o cargo de senadora."

Duda é presidenta da ONG Transvest, que oferece cursos gratuitos e emancipatórios para travestis e transexuais de Belo Horizonte. Além disso, idealizou o Curso Popular da Guaicurus, que irá ofertar educação gratuita para profissionais do sexo, prostitutas, camelôs e ambientes da região do baixo Meretrício de Belo Horizonte.

A candidata reforça a ideia que "não há transformação na sociedade sem o apoio da juventude, na verdade, todas as últimas lutas que ocorreram no país, que tiveram destaque, todas foram protagonizadas pela juventude".

"Vou representar 99% da população brasileira, ou 99% da população do Estado, que é aquela população que não tem tempos no meio de produção. Não pretendo dar prioridade aos grandes oligopólios financeiros, mas sim, dar prioridade às lutas que se manifestam nas ruas. Também venho representar os animais não humanos, cuja as vozes são também silenciadas", conclui.

Foto: Equipe Hailey Kaas / via Facebook

Hailey Kaas, candidata a deputada estadual (PSOL-SP)

Hailey Kaas, 28 anos. Formada em Letras (tradutora e intérprete). Está na militância feminista e LGBT há aproximadamente oito anos. Há mais ou menos quatro anos percebeu que a militância identitária não era suficiente, e para combater as desigualdades e lutar por transformação social, decidiu entrar num partido – PSOL – na corrente Liberdade, Socialismo e Revolução (LSR).

"Entendi que somente a luta coletiva seria capaz de promover mudanças sociais efetivas. Percebi que para mudar isso precisaria dar a cara a tapa, botar a cara no sol. Teria que sair nas ruas para reivindicar direitos e para lutar contra toda violência que as minorias sofrem", explica a candidata.

Desde cedo sofreu muito preconceito por ser, na época, um menino afeminado. "Sempre sofri com bullying e rejeição dos colegas de classe. Estudei em colégio religioso e isso só agravou a violência lgbtfóbica contra mim, inclusive por parte dos meus professores e direção da escola", revela Hailey. Quando se assumiu trans, ficou ainda mais nítido a urgência de lutar pelo feminismo e pelos direitos trans, por viver numa sociedade altamente machista e lgbtfóbica.

"Represento as mulheres – cis, trans, lésbicas, bissexuais, negras, indígenas, com deficiência, pobres, trabalhadoras, mães, etc. Represento a população LGBT, de pessoas negras, e todas as minorias que terão eco numa candidatura comprometida com as pautas de opressão. Represento os e as trabalhadoras massacrados por essa crise e por todos os ataques aos nossos direitos. Mas, sobretudo, represento um projeto coletivo de transformação social. Um projeto socialista que não perde de vista a luta contra o capitalismo, porque, afinal, como dizemos na nossa campanha, nossas vidas importam, e muito", defende.


Assista ao nosso especial sobre Como É Ser LGBTQIA+ no Brasil:


Leandrinha Du Art, candidata a deputada federal (PSOL-MG)

Leandra Du Art, 23 anos,é fotógrafa, mídialivrista, artivista, colunista da Mídia Ninja, militante LGBT e de pessoas com deficiência. Nos últimos anos viajou pelo país empoderando mulheres e pessoas com deficiências, levantando o debate de sexualidade e gênero, empoderamento feminino, autoaceitação do próprio corpo.

"Podemos ver com clareza que o espaço que deveria ser diverso e plural, está tomado por pessoas que não representam a sociedade. Me questiono onde estão as mulheres dentro do poder? Cadê o movimento LGBT dentro do poder? Cadê o povo preto? Cadê corpos com deficiência? Cadê a juventude?", questiona Leandrinha.

A jovem de 23 anos, trans, cadeirante representa muitas bandeiras em um só corpo. "São muitas lutas, pautas e demandas de vários grupos silenciados e que foram colocados à margem por muito tempo e que agora estão prontos pra lutar e tomar o poder em mãos. Vou representar o poder Feminino, a força do movimento LGBT, a garra do movimento de Pessoas com Deficiências e a Determinação do povo pobre. Pois são essas as marcas que carrego em meu corpo", esclarece a candidata.

Foto do acervo da entrevistada

Renata Perón, candidata a deputada federal (PSOL-SP)

Renata Perón, 41 anos, cantora e assistente social. Fez parte da criação da Associação Centro de Apoio e Inclusão Social de Travestis e Transexuais – CAIS, em 2013, instituição onde coordena as Caminhadas pela Paz (ato em defesa dos direitos de travestis e transexuais) e seminários que discutem da comunidade LGBT, como o agravamento do suicídio de pessoas trans, por exemplo.

Vítima de violência transfóbica logo quando chegou em São Paulo, foi atacada por um grupo de skinheads e perdeu um rim. "Naquele momento, vendo-me como uma sobrevivente, percebi que era preciso fazer algo para valorizar a minha vida e as vidas de tantas outras pessoas que, como eu, sofrem na pele as marcas da intolerância e do preconceito", narra Renata.

A candidata se empenhou nos estudos para somar ao movimento de travestis e transexuais e criar uma ONG e busca na política formas de mudar a sociedade para torná-la mais inclusiva e respeitadora das diferenças. "Considerando este histórico, sinto que posso me somar à outra forma de fazer política, por meio de um mandato de deputada federal para, por dentro, a gente continuar lutando", enfatiza.

"Em Brasília, serei a porta voz de uma população gigantesca. Vou ser a voz de travestis e transexuais, até porque serei a primeira trans deputada federal do Brasil. Mas serei a voz de mulheres, das populações negras, de pessoa indígenas, das populações vulneráveis que, ao longo da história, não foram vistas, enxergadas pelo Estado. Será um mandato coletivo, plural, representativo destas populações", explica a candidata, caso eleita.

Foto via Instagram

Tiffany Abreu, candidata a deputada federal (MDB-SP)

Tiffany Pereira de Abreu, 34 anos, mais conhecida como Tiffany Abreu. Primeira mulher transexual a jogar no voleibol feminino, tanto no Brasil como na Itália.

Primeira a jogar no nível alto, abriu discussão nacional entre atletas e sociedade médica sobre sua presença na Superliga feminina de voleibol. "Quando se joga no nível alto, você tem que ter um nível bom como as outras jogadoras, então, como eu tinha um nível bom como elas, causou uma intriga e talvez uma discussão, mas entramos naquele ponto: você só pode jogar no feminino se você não for boa? Se você tiver o nível já é discutido você jogar ou não, se você não tiver o nível, então tudo bem", justifica a atleta.

A polêmica discorrida sobre sua desenvoltura no atletismo profissional propôs à Tiffany em lutar pela inclusão social, dentro e fora do esporte. A atleta procura na política em ter voz ativa para poder conhecer a necessidade da população e enxerga este como o momento propício de renovação: "é hora de colocarmos lá dentro mulheres, mulheres trans, negros, LGBTs, evangélicos, colocar um pouco de cada, mas temos que colocar todos, para que todos saibamos a necessidade de todos.

"A minha política como deputada é totalmente voltada a inclusão social, aos movimentos LGBTQ, e principalmente para o esporte escolar e universitário. Necessitamos mais de propostas que escolas e universidades entrem com o apoio forte para a educação, esporte e cultura junto. Necessitamos formar atletas e pessoas", finaliza.

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