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Medo, delírio e cores quentes em Belém do Pará

A fotógrafa Naiara Jinknss retrata os arredores do mercado Ver-o-Peso como ele é.

por Débora Lopes
17 Outubro 2017, 9:00am

Foto: Naiara Jinknss

Sair de casa com a câmera no pescoço para fotografar a segunda cidade mais violenta do Brasil faz parte da rotina de Naiara Jinknss, 27. Nascida e criada em Belém, no Pará, ela tem o mercado Ver-o-Peso como foco de seu trabalho autoral. Transeuntes, vendedores, pessoas em situação de rua, clientes e pescadores são retratados dentro da paleta de cores quentes típicas da região, resultando numa mistura da linguagem documental com a fotografia de rua.

"O Ver-o-Peso me deu anticorpos para entrar em qualquer lugar de risco. Pra você não ser assaltada, precisa entender como ele funciona, precisa ter um pouco de jogo de cintura", menciona, relembrando quando sofreu uma tentativa de assalto e, empurrada, acabou caindo em uma barraca de abacaxis. "Me pergunto sempre se aquele garoto estivesse com uma câmera ao invés de uma arma, que imagens ele faria? Qual realidade ele iria registrar?".

Foto: Naiara Jinknss

Naiara abdicou de estudar jornalismo quando soube que haviam poucas disciplinas no curso dedicadas à fotografia. Por isso, acabou se formando em artes visuais e tecnologia da imagem. Ainda no primeiro ano de faculdade, ganhou uma câmera profissional de sua avó. "Nessa mesma época passei a fotografar muito o Ver-o-Peso, que é a maior feira a céu aberto da América Latina e que nunca dorme, com muitas pessoas transitando o tempo todo."

A frequência fez com que criasse laços com muitas das pessoas que ali trabalham. Hoje, é chamada pelo nome quando chega ao mercado.

O temor anda junto com a obsessão em registrar a diversidade local, onde o cheiro de peixe fresco se mistura com a brisa do rio e com o aroma do suco de cupuaçu e do açaí, item obrigatório nas refeições dos paraenses. "Sinto um medo constante. As pessoas que eu fotografo usam armas brancas a todo momento por serem instrumentos de trabalho. Mas é o ambiente que eu escolhi."

Foto: Naiara Jinknss

A fotógrafa traduz a quentura de Belém em imagens super saturadas, nas quais as cores são enfatizadas durante o tratamento. Para ela, tudo é tentativa, experimento. "Escutei de um professor de desenho que o erro técnico pode ser um acerto estético, que eu só vou saber se experimentar."

Fotografar Belém trouxe muitos sentimentos, ela conta. "Percebi meu papel na sociedade… me tornei mais sensível. Tenho tanto orgulho de ter nascido aqui. Não sei como seria minha relação com a fotografia se eu fosse de outro lugar, não sei nem se teria escolhido fotografia pra minha vida."

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Foto: Naiara Jinknss
Foto: Naiara Jinknss
Foto: Naiara Jinknss
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Foto: Naiara Jinknss
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Foto: Naiara Jinknss
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