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Entretenimento

'Coringa' é uma janela horrivelmente realista para o terrorismo branco

Precisamos considerar quão próximo o vilão de Todd Phillips espelha atentados com armas de fogo da vida real, e as ideologias venenosas por trás deles.

por Noel Ransome; Traduzido por Marina Schnoor
19 Setembro 2019, 10:00am

Cortesia de TIFF.

Quando Joaquin Phoenix é assaltado em Coringa e um colega de trabalho empresta uma arma para ele se proteger, pensei no que aconteceu mês passado quando dois homens brancos usaram armas em assassinatos em massa: 22 morreram em El Paso, Texas, e nove em Dayton, Ohio.

Sim, o Coringa de Phoenix no último filme de Todd Phillips é um vilão que já vimos antes – não como o palhaço niilista de um Batman arquetípico, mas um homem branco furioso obcecado por validação.

Desde que Coringa estreou no Festival de Cinema de Veneza mês passado, críticos vêm traçando paralelos entre o palhaço perturbado e manifestações violentas de masculinidade branca na América contemporânea. Stephanie Zacharek do TIME criticou a inutilidade de sentir simpatia por ainda outro homem branco violento: “Ele poderia facilmente ser adotado como o santo padroeiros dos incels”. Outros argumentaram que a disposição dele para responder apreensões emocionais com violência pública o alinha com assassinos em massa como o atirador da igreja de Charleston Dylan Roof, e o atirado de Sandy Hook Adam Lanza. Como Jessica Kiang escreveu para The Playlist: “[O filme] poderia ser (mal) interpretado e cooptado pelo mesmo tipo de solitário 4Chan/Incel/mentalmente doente que ele tenta satirizar de maneira sombria”.

Os críticos não estão errados em dizer exatamente quem esse Coringa é. Ele não é o vilão abstrato dos quadrinhos pré-2000. Ele é mais familiar e humano que nunca, o que o torna ainda mais perturbador.

No começo de Coringa, temos um vislumbre do quase esquelético Phoenix como Arthur Fleck, antes dele se transformar. Ele é um solitário ansioso socialmente que mora com a mãe doente e trabalha como palhaço de aluguel. Como adulto, ele é espancado, atormentado e é chamado de aberração. Ele é obcecado com a ideia de que vive numa sociedade que não dá a mínima para seus problemas. Ele sorri ameaçadoramente com a maquiagem borrada. Ele parece ter partes iguais de loucura e dor.

Então quando Fleck eventualmente vai atrás estilo Taxi Driver de um grupo de jovens que o atacam em público, esperasse que a audiência acredite que ele tem seus motivos, por piores que sejam. Sabemos que ele é o vilão e não deveríamos ter pena dele, mas temos mesmo assim – o que é confuso e aterrorizante.

Versões anteriores do Coringa nunca deram uma explicação real para o que o tornou um vilão. A falta de uma história de origem permitiu que ele continuasse uma figura mortal cujas ações só podiam ser explicadas pelo fato dele ser “louco”. Ele não se importava com dinheiro ou ordem – só com sua obsessão por um único homem. Todas as outras pessoas eram efeitos colaterais.

O novo Coringa tem mais que um inimigo. Sua obsessão crescente em se vingar de um mundo que é injusto é parte da cultura dos tiroteios em massa e fóruns incel. Isso está no momento em que ele escolhe disparar uma arma contra um grupo de estranhos quando se sente desprezado. Isso está no diário que ele escreve com piadas, pensamentos maníacos e fotos rasgadas de mulheres nuas. E isso está lá quando ele escolhe stalkear a vizinha (Zazi Beetz).

É compreensível descartar Coringa como outro filme sobre um homem branco descontente se afogando em angústia masculina tóxica. E meio que é, e isso pode parecer uma depravação sem uma solução liderada pelo Batman, mesmo se os colegas da vida real de Fleck muitas vezes espelhem essa existência fictícia (homens brancos sendo radicalizados em massa, com um presidente americano que abana as chamas do seu ódio nas redes sociais).

Mas só porque o filme mostra o homem branco tóxico em toda sua feiura não significa que está automaticamente o celebrando. O debate sobre se retratar o mal absoluto nos filmes é o mesmo que endossá-lo vem desde 1967, quando a crítica de cinema Paula Kael defendeu o violento retrato de Arthur Penn de Bonnie e Clyde. Sem dúvida, especialmente agora, é um limite perigoso que cruzamos se começarmos a ignorar filmes que ecoam os hinos tóxicos do mundo ao nosso redor. Quando Faça a Coisa Certa de Spike Lee saiu em 1989, o filme mostrava racismo como ele era na época, sem apresentar nenhuma solução. Críticos disseram que o filme era problemático, porque incitaria os negros a se revoltarem. Isso nunca aconteceu, e hoje o filme leva o crédito por conscientizar sobre violência policial.

A obsessão da América do Norte por esconder a feiura era um problema tanto na época quanto agora, quando todo mês traz um lembrete de homens brancos que matam e vivem por muito tempo depois que suas vítimas: pense em Roof, o atirador do Capital Gazette Jarrod Warren Ramos, e o atirador de El Paso Patrick Crusius. Enquanto Coringa apresenta essa violência e a ideologia tóxica que a alimenta, a janela que ele cria para a mente de Arthur Fleck torna difícil para o público não sentir algum tipo de simpatia complicada por ele. Vemos essa necessidade de humanizar o mal refletida no mundo real também; ainda usamos linguagem desdenhosa para descrever terrorismo branco em vez de chamá-lo pelo que realmente é. Ainda estamos determinados a desviar os olhos do fato que esses vilões não nascem assim; eles são criados. E às vezes eles vencem. Para impedir que isso aconteça, precisamos saber contra o que estamos lutando.

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