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Drogas

Essa startup diz que está fazendo maconha sem cheiro

A empresa canadense quer tirar a marofa da jogada.

por Troy Farah; Traduzido por Marina Schnoor
20 Setembro 2019, 10:00am

Imagem: Getty Images.

Uma empresa canadense anunciou semana passada que cannabis sem cheiro pode estar chegando nos dispensários locais em breve. A CannabCo Pharmaceutical Corp., de Ontário, está fazendo uma parceria com uma empresa de tecnologia ainda não revelada para fazer a “Purecann”, uma variedade quase sem odor da maconha.

A variedade teria relativamente os mesmos efeitos que maconha normal, mas com um cheiro “virtualmente indetectável” em seu contêiner e quando é colocado fogo na bomba, segundo a empresa.

Quando o presidente e CEO da CannabCo Mark Pellicane testemunhou a tecnologia pela primeira vez, segundo uma nota para a imprensa, ele imediatamente viu os cifrões. “Uma mulher pode carregar cannabis na bolsa sem ter o odor concentrado ou vazando dela”, disse Pellicane. “Muitos usuários, e pessoas que convivem com fumantes de cannabis, reclamam do cheiro particularmente em ambientes fechados, como apartamentos, e essa tecnologia aborda essas preocupações.”



Num e-mail para a Motherboard, Pellicane disse que quer oferecer mais opções de cannabis para seus clientes. “Desde a legalização no Canadá, muitas vezes sinto cheiro de cannabis na rua e sorrio, pensando quão longe a indústria chegou num período relativamente curto, e fico excitado com até onde podemos ir”, disse Pellicane. “Sempre fui um defensor da liberdade de escolha, e agora os usuários de cannabis, tanto medicinal como recreativa, têm outra opção.”

Mas o que é a maconha sem a marofa? O cheiro distinto de maconha vem dos terpenos, uma classe de óleos essenciais feitos de plantas, segundo Peter Grinspoon, médico do Massachusetts General Hospital e parte do conselho do grupo Doctor For Cannabis Regulation.

Por exemplo, o limoneno é um terpeno que dá aos limões, laranjas e algumas variedades de cannabis uma fragrância cítrica. Claro, é possível lavar ou remover os terpenos da maconha, mas eles também contribuem para o sabor, então a Purecann provavelmente terá um gosto bastante suave. Pellicane confirmou que no processo, os terpenos são afetados, mas disse que a tecnologia é diferente.

“Terpenos são uma parte importante para o uso recreativo, assim como para propriedades medicinais”, Grinspoon disse a Motherboard. “Por que tirar o odor?”

Apesar de a pesquisa ainda ser inconclusiva, alguns estudos sugerem que terpenos podem contribuir para propriedades medicinais da maconha. Linalol, por exemplo, é um terpeno encontrado em alguns tipos de maconha, mas é mais conhecido por dar o cheiro marca registrada da lavanda. Em roedores, o linalol mostrou potencial como um antidepressivo, anticonvulsivo, anti-inflamatório e antiansiedade.

“Está claro que terpenos contribuem para algumas qualidades medicinais [da maconha]”, disse Grinspoon. Ele acrescentou que é impossível fazer fumaça completamente inodora porque usar calor para queimar matéria vegetal sempre vai gerar um aroma.

“Parece um truque pra mim”, disse Grinspoon. “Como médico, nunca recomendamos que as pessoas fumem qualquer coisa. Podemos recomendar o uso de vape, extratos ou algo assim, porque não queremos causar irritação nos pulmões.” (Recentemente, Grinspoon alertou que é melhor não usar vapes até que um surto de doenças associadas com cigarros eletrônicos contendo extratos de maconha seja esclarecido.)

A CannabCo diz que sua maconha sem cheiro também pode reduzir a sensação de queimação de fumar um bong, o que poderia facilitar para maconheiros de primeira viagem curtirem um pega. Mas Grinspoon diz que não há muita evidência atrás dessa alegação.

“Como eles sabem disso?”, questionou Grinspoon. “Quer dizer, você não pode fazer um teste aleatório controlado por placebo porque as pessoas sentiriam a diferença no sabor.”

Pellicane enfatizou que a CannabCo não está fazendo uma alegação médica aqui, pelo menos sem mais dados, mas funcionários e clientes relataram menos queimação e tosse quando experimentaram a variedade. “Isso ficou evidente durante desenvolvimento da tecnologia, e de interações e observações de usuários medicinais”, disse Pellicane.

No geral, esse produto parece tentar abordar o estigma associado com fumar maconha. Remover parte das motivações de gostar de cannabis para que os vizinhos não reclamem, ou seus sogros não notem que você deu aquela fugidinha da festa de família, pode não ser o melhor incentivo para fumar a erva sem cheiro.

“Seria negligente não reconhecer o estigma... contra usuários de cannabis, mas não achamos que ele seja justificado, não o reconhecemos e certamente não o abordamos”, disse Pellicane. “Estamos aqui para oferecer aos usuários de cannabis uma escolha, e contribuir positivamente com o mercado e a cultura da cannabis.”

Ele diz que a Purecann também é uma questão de respeito. “Cannabis é ótimo, mas há humanos ao nosso redor que não toleram, ou não conseguem tolerar o cheiro. Crianças morando num apartamento em frente ao dos vizinhos que fumam, ou num parque público onde crianças estão brincando, por exemplo”, disse Pellicane. “Conheço pessoas que sentem náuseas ou dor de cabeça com o odor. Qual o mal em usar cannabis e respeitar os outros que não querem o cheiro quando a situação exige? É uma questão de respeitar as outras pessoas também.”

“Há muito entusiasmo com a cannabis e muitas pessoas tentando fazer dinheiro com ela”, disse Grinspoon. “As duas coisas se sobrepõem, e esse entusiasmo gera ideias boas e ideias ruins. Acho que temos que olhar de maneira crítica para cada ideia que surge e dizer se ela realmente colabora com alguma coisa.”

Troy Farah é um jornalista independente da Califórnia. Sua cobertura sobre políticas e ciência de drogas já apareceu na WIRED, The Guardian, Undark, Discover Magazine, VICE e outros . Ele apresenta o podcast sobre políticas de drogas Narcotica. Siga o cara no Twitter.

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