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Como o rap de Soundcloud e o Xanax influenciam a moda

O niilismo e a vulnerabilidade são palpáveis entre esses artistas, e isso reflete na maneira como tratam o corpo, seja por ingestão ou tatuagens.

por Emma Garland; Traduzido por Stephanie Fernandes
09 Abril 2018, 11:00am

De contrabandistas adolescentes vendendo falsas barras de Xanax nas redes sociais a universitários viciados em drogas recorrendo a benzodiazepínicos para apaziguar ataques de pânico e disforia, a Vice do Reino Unido resolveu investigar a onda de uso de Xanax contrafeito. Leia os outros artigos desta série aqui (em inglês), e assista a “Xanxiety: the UK's Fake Xanax Epidemic” [Ansiedade em Pílulas: a Epidemia de Falso Xanax no Reino Unido], nosso filme sobre saúde mental e falso Xanax, aqui (também em inglês).

As subculturas costumam ser representadas pela droga da vez, é como que um brasão. O ácido está para os hippies como o ecstasy está para o Segundo Verão do Amor, ou como as latinhas de Monster Energy estão para o pós-punk. Nem é preciso dizer que são generalizações. Mandar ver nas pílulas e curtir o estilo musical do Happy Mondays não andam de mãos dadas, necessariamente. Mas dá para explorar bem as entranhas de uma subcultura observando como ela se expressa com drogas, música e vestimenta — sendo a moda mais emblemática por seu caráter visual. “A moda é uma linguagem instantânea”, é o que diz Miuccia Prada. Portanto, vale a pena investigar o que a tríade rap do Soundcloud + moda contemporânea + Xanax tem a nos dizer.

O recorte leva esse rótulo porque os rappers em questão vêm potencializando a plataforma de streaming para burlar as rotas tradicionais da indústria musical; o som deles empresta elementos do trap de Atlanta, do emo dos anos 2000, e do pop punk. Os nomes soam mais como personagens de anime ou antigas celebridades de Myspace, as figuras parecem ter saído de uma bateria de testes para atuar em um live action de Street Fighter, e todos são fissurados — ou pelo menos já foram — por benzodiazepínicos. Diferenças musicais a parte, artistas como Lil Peep, Lil Uzi Vert, Lil Pump e Smokepurpp se alavancaram na consciência coletiva do mainstream sem precisar sair de casa. E para levar isso a cabo, fizeram por onde para conseguir se destacar.

A ideia nesse meio é parecer único, mas a maioria dos artistas tende a seguir variações do mesmo tema: cabelo multicolorido, estética gótica divertida, moda de rua e uma caralhada de tatuagens antiemprego (na cara, no pescoço e nas mãos). Como muitos veículos já colocaram, os rappers do Soundcloud tem uma sensibilidade punk distinta — tanto no som quanto na apresentação — que pode ser vista como uma objeção lógica aos ares de “gente como a gente” dos Drakes da vida. Às vezes parece infantil (confira: Lil Pump mandando um rap de moletom cor-de-rosa e mochilinha nas costas), às vezes parece surreal (confira: Lil Uzi Vert em geral), mas é tão consistente em seus excessos, que poderia até chamar a atenção de alguém no espaço.

Volta e meia, a notoriedade precede a carreira deles. O rapper 6ix9ine, que já caiu em desgraça, ganhou fama no verão passado quando uma selfie de Instagram viralizou e o transformou em meme. Meses depois, “Gummo”, seu single de estreia, foi direto para a posição 58 da lista Hot 100 da Billboard. Quanto a estilo, é basicamente um Dahvie Vanity do rap — cabelo colorido, grillz colorido e o número 69 tatuado por todo o corpo, qual uma estampa de maleta Gucci ou Louis Vuitton. Ele também foi acusado de um crime sexual tenebroso, pelo qual se declarou culpado, então melhor não perder mais tempo falando dele, é só que foi uma das primeiras ofensivas do tipo contra a indústria musical — um exemplo extremo da relação entre o rap do Soundcloud e a fama. Dado que se faz carreira hoje nas redes sociais, aparência e personalidade têm tanto peso quanto a própria música, se não mais. Como resultado, os perfis da galera são lugares megapersonalizados, onde a promoção musical, editoriais de moda e o uso de Xanax convivem lado a lado, tudo normal. Em junho, Lil Pump celebrou a marca de um milhão de seguidores no Instagram cortando um bolo no formato de uma barra de Xanax.

Não que isso seja incomum. É assim que trabalham as celebridades hoje. A alta moda vive uma relação de longa data com o rap. O Kanye West, o A$AP Rocky, o Pharrell e o Odd Future têm linhas de roupas próprias, o Lil Yachty se uniu à Nautica ano passado como designer, o Raf Simons é figura estampada do meio há anos, e o Tupac literalmente desfilou na passarela para a Versace em 1996. O que está acontecendo com o Soundcloud e a moda hoje segue um roteiro semelhante a histórias de outrora, seja entre a Vivienne Westood e o punk, ou entre o Stone Island e o grime. Evidentemente, o rap do Soundcloud não é a primeira subcultura a vir com uma droga no pacote. Em todo caso, o Xanax age como uma ponte entre uma cena musical específica e os perrengues enfrentados por toda uma geração.

Em novembro, antes de falecer por conta de uma overdose acidental de Xanax misturado com fentanil, o rapper Lil Peep, de Long Island, estreou nas passarelas desfilando para a VLONE e Marcelo Burlon no circuito Primavera/Verão 2018 (deve ter sido a primeira vez que as passarelas agraciaram um modelo com a palavra “Daddy” gravada no peito, em letras góticas). Ele também sentou na primeira fileira de desfiles da Balmain, Fendi e Haider Ackermann. Da mesma forma, Lil Uzi Vert volta e meia aparece na Vogue com seus “looks arrasadores”, ao passo que o santo padroeiro do kitsh, Jeff Koons, recentemente o descreveu como “muito poético”. De esmalte descascado nas unhas e tatuagens caseiras pelo corpo todo, Peep sempre ostentou um look de rolezeiro de shopping — ousado, dinâmico e impossível de categorizar. O mesmo se aplica a Lil Uzi Vert, que credita Hayley Williams, do Paramore, como uma de suas maiores inspirações e é famoso por se vestir como a Avril Lavigne, além de às vezes mandar um penteado tipo feminista de Tumblr em 2012. Os dois têm um estilo parecido — tachinhas, espinhos, gargantilhas e munhequeiras desvirtuadas por peças street e marcas de luxo — e os dois já tiveram problemas com Xanax.

Ilustração: Owain Anderson

Poucas horas antes de morrer, Lil Peep subiu vídeos no Instagram nos quais devorava barras de Xanax. A obra toda dele faz referência, de uma forma ou de outra, a estar fudido na vida. Lil Uzi Vert respondeu à notícia com um tweet sobre sua própria relação com o Xanax e as tentativas frustradas de largar o remédio. A letra de “XO Tour Lif3”, seu primeiro hit, é assim: “Xanny, help the pain, yeah/ Please, Xanny, make it go away/ I'm committed, not addicted, but it keep control of me/ All the pain, now I can't feel it/ I swear that it's slowin' me, yeah” [Xanny, me ajuda com a dor/ Por favor, Xanny, faz ela ir embora/ Estou comprometido, não viciado, mas isso me controla/ Toda essa dor, já nem sinto mais/ Juro que tá me apagando].

O aumento de uso de Xanax nos Estados Unidos e no Reino Unido aponta para uma geração atormentada pela ansiedade, por um senso geral de ruína, com poucas válvulas de escape além das redes sociais e da automedicação. Fácil de achar nos Estados Unidos, disponível online no Reino Unido, o Xanax é um band-aid barato para um problema extremo, sem solução aparente. É natural que os rappers do Soundcloud — a maioria de vinte e poucos anos — espelhem isso. Com apenas 21 anos de idade, Lil Xan chegou a construir uma marca pessoal às custas do remédio, para então rejeitá-la. Ele não toma mais Xanax e agora atende por “Diego”, e sua bio no Insta é uma série de corações partidos com as palavras “Queria Muito que Ansiedade não existisse !”.

Curiosamente, a escolha estética que parece representar a dualidade geracional entre esperança e falta de esperança são as tatuagens na cara. Mais do que operar como declarações ousadas para o mundo, são representações de algo muito mais íntimo. Para muitos rappers do Soundcloud, tatuagens no rosto são um ato de automotivação. Uma forma de dizer que não tem mais volta. “Foi como um empurrãozinho para mim, para alcançar o sucesso com a música que eu estava fazendo”, Lil Peep disse em uma entrevista para a GQ. “Fica mais difícil de conseguir emprego com o rosto coberto de tatuagens.”

Arnoldisdead — produtor/rapper do coletivo Xanarchy, que conta também com Lil Xan — disse algo parecido quando explicou por que estampou um retrato enorme da Anne Frank (ou “Xan Frank”) na bochecha. “Algumas figuras históricas não tiveram o poder para controlar, para fazer o que queriam de fato com as próprias vidas... Ficar confinada numa casa, e acabar morrendo... cara, eu morro pela minha música. É assim que vejo as coisas.” No documentário da VICE, Xanxiety: The UK's Fake Xanax Epidemic [Ansiedade em Pílulas: a Epidemia de Falso Xanax no Reino Unido], o rapper britânico Clayton declara, “É seguir em frente ou morrer”, sobre sua decisão de cobrir o rosto todo com tatuagens para não sucumbir à “corrida maluca”.

O niilismo e a vulnerabilidade são palpáveis entre esses artistas, e isso se reflete na maneira como tratam o corpo, seja por ingestão ou tatuagem. Embora haja um elemento performático em jogo, e muitos comparem sua identidade no rap com um personagem de luta ou video game, boa parte disso é expressão própria também. É a personalidade externalizada da maneira mais dramática possível, a busca por paz interior via barulheira.

“Quando penso no Lil Peep, penso em um grande coração partido que foi cuidadosamente remendado, costurado, grampeado e amarrado para não se soltar mais, e que ele não tinha medo de mostrar”, Josephine Pearl Lee, queridinha do Instagram, contou ao portal HypeBeast. “Isso era evidente em tudo que ele tocou e compartilhou com o mundo, de sua música e arte às relações pessoais, seu estilo,... ele tinha um senso de humor e pinçava diversão nos lugares mais obscuros. Ele vestia uma nostalgia pelos anos 2000 e uma paixão por 2017. Ele vestia a própria música e a própria alma.”

Embora nem todo rapper do Soundcloud curta Xanax, e nem todo jovem que toma Xanax curta o rap do Soundcloud, há uma relação entre eles que se manifesta visualmente — tanto no estilo das ruas quanto na haute couture. Lil Uzi Vert se sente tão em casa na Vogue quanto na Pitchfork. Por incrível que pareça, fez sentido testemunhar a mudança de Lil Peep, daquela figura sentada em um sofá puído, com um cigarro na boca e uma peita de algum outro rapper, para a companhia de Carine Roitfeld e uma jaqueta Balmain. Basta uma breve navegada pelo site da ASOS agora, para ver um monte de modelo de pescoço tatuado e camiseta quadriculada de manga longa. Parte disso é uma questão geracional — mesmo Liam Payne, o cara mais genérico de todos os tempos, faz a unha assim —, e em parte ocorre porque existe plateia nas mídias sociais para qualquer zé ninguém que pareça ou soe minimamente interessante. Mas o rap do Soundcloud é acessível e representativo, e não só um rótulo — é a marca de toda uma geração.

Não é muito diferente da história do grunge e da heroína nos anos 90. Foi a androginia amorfa do grunge que inspirou a coleção de 1992 do Marc Jacobs para a Perry Ellis, quando Naomi Campbell, Kristen McMenamy e Nadja Auermann vestiram camadas e camadas de camisas de seda imitando flanela, vestidos de chiffon feitos para parecer poliéster, e gorros que custavam 175 dólares. Na época, foi um fiasco. A New York Magazine proclamou: “Grunge, 1992-1993, Descanse em Paz”, e Jacobs perdeu o emprego. Hoje a coleção é aclamada como revolucionária. Lynn Yeager, colaborador da Vogue, refere-se a ela como “um dos primeiros exemplos da moda vinda das ruas”. Da Beyond Retro à UNIF, todas as marcas agora contam com um mar de suéters grandalhões, camisas de flanela, vestidos de alcinha e camisetas com babados.

Não foi só a boa e velha postura antimoda do grunge que foi parar nas vitrines — o niilismo tampouco foi poupado. Um ano depois, em 1993, a Calvin Klein lançou sua primeira campanha com a Kate Moss, e as revistas todas se empanturraram de modelos abatidas vestindo um coletinho com cigarro em mãos. O pânico moral se intensificou tanto, que no fim da década Bill Clinton fez uma aparição na TV só para criticar a glamorização que o “heroin chic” fez do uso da droga. Claro que o grunge não foi o culpado. A apatia e a autodepreciação que caracterizaram a cultura jovem dos anos 90, combinada à crescente popularidade da heroína (que perdeu um pouco estigma quando as pessoas começaran a cheirar adoidado em meio à crise da AIDS), representam não apenas o som da década, como também o visual. A Geração Z parece estar seguindo um caminho similar com o Xanax.

Gostamos de organizar as coisas certinho, encaixá-las em padrões, para conferir ao mundo qualquer coisa que se assemelhe a ordem. Talvez a abertura para os rappers do Soundcloud seja mais uma questão de transformações dentro da indústria da moda do que qualquer outra coisa, mas a verdade é que os detalhes são intercambiáveis. Já vimos essa história antes com o pessoal do hip hop, foi o que definiu a carreira do Lil Wayne, do Future, do A$AP Rocky e, antes disso tudo, do DJ Screw. Com uma nova geração de artistas e uma “nova” droga, a cultura do rap do Soundcloud é, em vários aspectos, uma nova versão em cápsula dessa história.

Em todo caso, se não fosse o Soundcloud, seria outra plataforma. Não fosse o rap, seria outro gênero. E se não fosse o Xanax, seria outra droga. Hoje, no entanto, o Xanax é um componente de peso da cultura jovem, e a cultura jovem está moldando o mainstream cada vez mais, não o contrário. Na sequência da morte de Lil Peep, a maré está se voltando contra o Xanax entre os rappers do Soundcloud. Mas você pode comprar uma corrente com pingente de Xanax no Etsy pela bagatela de 50 libras.

@emmaggarland

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