Saúde

Tomar multivitamínicos é jogar dinheiro fora para a maioria das pessoas

Muitas pesquisas sugerem que tomar suplementos vitamínicos não ajuda em nada, a não ser quando receitado por um médico para tratar uma deficiência específica.

por Kat Eschner; Traduzido por Marina Schnoor
03 Maio 2019, 10:45am

Luke Mattson/Stocksy

A maioria das pessoas quer ficar saudável e continuar saudável. Quer você tenha um objetivo específico de saúde ou fitness, ou só alcançar aquela coisa nebulosa de “bem-estar”, provavelmente você já pensou em tomar um multivitamínico. Cerca de um terço dos adultos americanos dizem que tomam multivitamínicos, segundo o National Institutes of Health.

Tudo isso não é surpresa. Há uma indústria gigante devotada a te fazer acreditar que suplementos nutricionais são importantes – mesmo que muitas pesquisas sugiram que tomar vitaminas não faz efeito a menos que você esteja abordando uma deficiência específica monitorada por um médico. Essa indústria vai muito além dos corredores de alimentos saudáveis dos mercados: empresas agora vendem vitaminas em podcasts populares e no Instagram, e criaram negócios de marketing multinível devotados a propagandear suplementos. Considerando que esses negócios dependem de reivindicações grandiosas pra ter lucro, o conselho deles sobre suplementos não é exatamente confiável.

Uma grande razão para a indústria de suplementos de US$ 40 bilhões vender multivitamínicos como se fossem essenciais, até uma cura em potencial pra tudo que é problema, é porque o governo federal norte-americano não tem muitas maneiras para regular esse mercado. Em fevereiro, a Food and Drug Administration (FDA) advertiu alguns fabricantes de suplementos para parar de fazer alegações exageradas sobre seus produtos, além de pedir ao Congresso americano para implementar leis de proteção mais abrangentes para os consumidores sobre vitaminas e suplementos. Mas até o Congresso fazer alguma coisa, vamos ter que procurar conselhos em outro lugar.

Aqui vai o que você precisa saber:

Preciso tomar multivitamínicos?

A reposta pra essa pergunta geralmente é não: a menos que você esteja grávida ou tentando engravidar, ninguém precisa tomar multivitamínicos. “Gostaria de poder dizer que eles são úteis”, diz Beth Kitchin, professora de Nutrição da Universidade do Alabama em Birmingham. Mas “não vemos qualquer benefício nos multivitamínicos”, ela diz. (Grávidas precisam de quantidades maiores de ácido fólico, ferro e outros nutrientes do que a população em geral, por isso profissionais de saúde receitam multivitamínicos pré-natal.)

Uma metanálise de 45 anos de pesquisa sobre os possíveis benefícios dos multivitamínicos para a saúde cardíaca, publicada ano passado, apoia essa afirmação. A pesquisa acompanhou mais de 2 milhões de pacientes por anos, e a equipe não encontrou evidência de que multivitamínicos colaboram para a saúde do coração. Um estudo publicado este mês no Annals of Internal Medicine usou dados de mais de 27 mil pessoas e descobriu que tomar multivitamínicos não estava associado com uma vida mais longa, mas tirar nutrientes suficientes de alimentos estava ligado a um risco menor de morrer mais cedo. Outros estudos sugerem uma ligação entre multivitamínicos e risco mais baixo de recorrência de câncer de próstata, e um risco menor de ter uma criança no espectro do transtorno de autismo. Mas nada demonstrou conclusivamente a ligação entre multivitamínicos e qualquer uma dessas coisas. Uma grande pesquisa em andamento em Brigham e no Women's Hospital de Boston pode iluminar um pouco essa questão em algum momento da próxima década, mas atualmente não há boas provas de que os multivitamínicos em si são úteis.

Isso não quer dizer que os nutrientes contidos num multivitamínico de qualidade não sejam reais: algumas pessoas podem precisar tomar certas vitaminas voltadas para uma deficiência específica, com acompanhamento médico, mas evidências sugerem que você não está fazendo muito pela sua saúde no geral tomando um multivitamínico diariamente.

Mas ainda é possível que eles tenham um efeito pequeno. Kitchin diz que se um paciente saudável dela quer tomar multivitamínicos, ela não vê problema nisso, desde que você não dê importância demais para essas pílulas. “Às vezes, o que podemos fazer pela nossa saúde é só algo que nos faça sentir melhor”, ela diz. Mas ela enfatiza que não há evidência conclusiva de que essas pílulas fazem algo específico.

Entendi. Mas se ainda quero tomar multivitamínicos, como devo escolher?

Quando se trata de escolher um multivitamínico, é melhor tomar cuidado. “Suplementos nutricionais dizem que fazem muitas coisas”, diz Kitchin. A FDA tem alguma jurisdição nisso, mas “é pequena”, ela diz. Segundo o Dietary Supplement Health and Education Act de 1994 (que você pode ler aqui) a FDA tem que avaliar se drogas são seguras, enquanto os fabricantes de suplementos só precisam fornecer evidências limitadas sobre se seus produtos são seguros e eficazes. E como o mercado de suplementos está crescendo, a agência já está sobrecarregada.

Considerando a falta de supervisão, ela tem algumas sugestões para quem ainda quer tomar multivitamínicos diários. As duas principais: não gaste muito e não tome nada que possa acabar te prejudicando.

“Você consegue um multivitamínico decente por um custo baixo”, diz Kitchin. Drogarias vendem multivitamínicos que provavelmente são tão úteis quanto aqueles vendidos em lojas especializadas, ela diz. As pílulas mais caras não oferecem mais benefícios: certamente não os benefícios de prevenção de Alzheimer e câncer que alguns fabricantes estavam propagandeando até fevereiro.

Aí tem a questão da segurança dos suplementos. Como não há muita supervisão, é preciso prestar atenção aqui. Mesmo quando vitaminas são vendidas em farmácias e têm embalagens que parecem de medicamento, elas não são regulamentadas do mesmo jeito pelo FDA. “Acho que esse é um grande desafio para o consumidor”, diz Kitchin. Ela sugere procurar pelo selo de "aprovação USP” na embalagem. Isso significa que o produto vou avaliado pela United States Pharmacopoeia e considerado seguro. A USP também tem um site destacando os suprimentos que certifica, se você está comprando pela internet.

Em se tratando da nutrição que seu corpo precisa, Kitchin alerta que é possível exagerar na dose das coisas benéficas. “Sempre digo aos pacientes para não comprar suplementos com doses altíssimas de nutrientes.” Veja as quantidades diárias recomentadas no rótulo e evite multivitamínicos que contenham mais de 100% da recomendação diária de qualquer vitamina, ela diz. Você já extrai nutrientes dos alimentos, e pode ser prejudicial ter uma overdose de certas vitaminas, especialmente vitaminas lipossolúveis, como as A e D, e suplementos minerais como ferro.

Passando longe das opções não-testadas ou caras, você provavelmente vai encontrar um multivitamínico que funciona para você – ou que pelo menos não te prejudique.

Tem outro jeito de ter certeza que estou absorvendo os nutrientes que preciso?

Falar com seu médico vai te ajudar a descobrir se você precisa tomar algum suplemento específico: deficiência em vitamina D e cálcio são as mais comuns, diz Kitchin. Mas, no geral, se você está preocupado em não estar conseguindo todos os nutrientes que precisa, você pode prestar mais atenção na sua alimentação em vez de tomar multivitamínicos. “Todo mundo gosta de tomar uma pílula que vai resolver tudo”, diz David Jenkins, professor Nutrição da Universidade de Toronto e médico do St. Michael's Hospital. Mas essa pílula não existe. Felizmente, é possível conseguir tudo que você precisa da sua dieta. (Isso pode exigir mais planejamento se você é vegetariano ou vegan, mas ainda é possível.)

Jenkins trabalha no campo da nutrição há mais de 40 anos, mas recentemente começou a defender uma dieta baseada em vegetais. Em vez de gastar mais em suplementos, ele sugere “cortar a carne vermelha e aumentar o consumo de verduras, legumes e sementes”. Talvez até experimentar alternativas para a carne como tofu ou hambúrgueres vegetarianos, ele diz, já que esses produtos geralmente são fortificados com nutrientes como vitamina B12, que é algo mais difícil de conseguir para quem não come carne. A principal sugestão de Kitchin para acertar sua dieta é simples: tente comer uma variedade de alimentos.

Como sempre, se você acha que tem uma deficiência ou questão de saúde específica, procure um médico ou nutricionista. Esses profissionais podem descobrir o que está errado e te ajudar a consertar o problema, seja com suplementos ou uma mudança na dieta. Mas se tem algo realmente errado, multivitamínicos provavelmente não vão te ajudar.

Matéria originalmente publicada na VICE US.

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